terça-feira, 27 de agosto de 2013

Um lugar inspirador


Era uma sexta-feira que prometia terminar bem gelada quando ela andava pela Rua Augusta, em São Paulo. Havia marcado de encontrar uma turma, mas, por incrível que pareça, estava adiantada para o horário combinado. Meio sem rumo, lembrou de uma ótima opção para investir o tempo que restava: uma livraria. E não era apenas uma livraria, era a livraria. Alguns andares, várias poltronas e uma infinidade de almas sedentas por conhecimento. O ambiente fervilhava às 18h daquele dia... Um dia em que muitos estariam no bar para o tão esperado ‘happy hour’.

Mas ao adentrar naquele local, teve a impressão de que as pessoas haviam saído correndo do trabalho direto para lá. Disputavam civilizadamente poltronas e puffs distribuídos em todos os ambientes, até mesmo algumas partes do chão eram concorridas. As pessoas conversavam sobre autores, histórias, desejos de comprar mais livros... Realmente, sempre que visitava aquela livraria, ela se sentia diferente e naquele dia não poderia ser de outro jeito.

Todo o cenário, a variedade de opções para leitura, aquelas pessoas sentadas devorando livros, como se não existisse mundo ao redor, uma sede de conhecimento, era impossível não ser inspirador, parecia que aquele ambiente pertencia a um universo paralelo. Entrava em um conflito de pensamentos incrível. Queria muito ler, de tudo, ao mesmo tempo, e rápido. Era como se quisesse consumir tudo o que não aproveitou até ali, nos seus quase 30 anos de vida. As milhares de páginas distribuídas nos mais diversos gêneros literários e até mesmo os estilos que não gosta, mas sabe que seria importante conhecer.

Foi subindo as escadas vagarosamente, observando aqueles que pareciam se transportar para outro mundo enquanto suas pernas se dobravam no chão, a coluna pendia para um dos lados e os olhos fixavam as páginas de uma obra. A cena precisava ser gravada, mais precisamente digitada, mas nem um papel para rascunho ela carregava na bolsa. Tentava congelar todas as cenas e, principalmente, aquele sentimento.

Após percorrer todos os andares, encontrou uma única poltrona abandonada. Provavelmente não devia estar assim há muito tempo, e foi nela que resolveu continuar sua observação. Ela não sabe quanto tempo permaneceu ali, mas foi o suficiente para pensar em muita coisa, para imaginar como seria a vida de cada um, o que devia atrair tanto a atenção e quais eram os sonhos de cada um que estava mergulhado naquela fascinante leitura.

Por uma fração de segundo, ela bateu o olhar no relógio e viu que havia se atrasado para o encontro. Era hora de ir embora, mas queria contar aquela visita. Dias depois, colocou Bob Marley como fundo musical para inspiração e os dedos em ação. Não conseguiria descrever toda a sensação vivida naquele dia, muito se perderia no caminho, mas talvez a melodia ajudaria a tocar sua alma.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

A saga das camas


Então, quando eu pensei que a novela havia acabado... Estava só começando!

Dia frio, não. Dia geladíssimo. Mas dia de resolver alguns probleminhas e isso era ótimo! Na correria da madrugada, esqueci de deixar a chave do apartamento na portaria para que a empresa responsável pela coleta da cama com defeito, que não agendou data, retirasse a cama.

Por conta disso, para garantir que a transportadora não perdesse a viagem novamente, liguei (e consegui falar, o que é raro) para informar que o produto não poderia ser retirado naquele dia. No entanto, quem me atendeu falou que o responsável me ligaria quando chegasse, o que não aconteceu e na correria do trabalho acabei esquecendo.

Enfim, mesmo assim o dia seria produtivo, pois iriam buscar minha antiga cama para doação e chegaria a nova. Liguei na portaria para saber se tudo estava correndo bem... detalhe, tive o cuidado de ligar para verificar. Por coincidência, liguei bem na hora que estavam retirando a cama e a responsável pela portaria avisou que a nova havia chegado.

Maravilha! Mesmo a montadora não dando certeza que conseguiria montá-la no mesmo dia, já eram dois problemas resolvidos... faltaria chegar o colchão e devolver a cama com defeito. Ao chegar em casa, a surpresa! Confesso que passou pela a minha cabeça que a situação pudesse acontecer, mas logo analisei que seria impossível: a transportadora veio buscar a cama com defeito, que estava devidamente embalada como a empresa exigiu, e levou a cama velha, sem embalagem alguma!

Era muito para um dia só! Para completar, no momento em que eu ouvia, chocada, o porteiro contar (já haviam trocado de turno na portaria), chegaram os rapazes para pegar a cama para doação... Minha cara? De paisagem, claro!

Corro para casa, ligo para a transportadora torcendo para me atenderem (repito, é algo raro) e logo consigo explicar a confusão. Promessa de desfazer a troca no dia seguinte e mais orações pela frente. O que me consola é que não fizeram o contrário: entregaram a cama nova para doação, porque esses sim, não desfazem a troca! rs


*Não parece, mas sim, é uma história real.


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Talvez a TPM explique

Antes de chegar ao dia em que fiquei atacada, diga-se de passagem, pela TPM, voltarei um pouco na história para situá-los melhor. Comprei uma cama pela internet. Sim, pela internet, como já comprei outros móveis que vieram desmontados e atenderam às minhas expectativas. Nunca tive preconceitos e nem problemas com isso, e dessa vez também não deveria ser diferente.

Entrega no prazo e material esperado. O grande problema não foi a compra, mas sim, o fabricante. Mais especificamente a burrice dele ou a ‘economia’ de madeira na cama que vem embaixo da que eu comprei (aqueles modelos com cama auxiliar). Pois bem, ao montar a cama de baixo, seguindo a ordem do mega manual de meia folha que tem apenas desenhos e sinalização com números, me deparei com a surpresa!

Existia um vão de quase 10 cm entre uma cama e outra, definitivamente horrível! Tem quem não ligue, mas eu ligo sim e detestei, muito. Pode parecer que eu busco a perfeição, talvez, mas não era a cama que eu esperava. Como na foto a cama auxiliar aparecia aberta e com o colchão, não dava para visualizar nitidamente essa diferença e, por já ter tido duas camas desse modelo, não imaginei que alguém fabricasse uma coisa tão mal feita, ou de tão mau gosto!

Enfim, olhei algumas vezes e aquilo continuava me incomodando, mas trocar o produto não passava pela minha cabeça... até acordar um dia, digamos, um pouco “atacada”. No sétimo dia do recebimento da cama, e último para acionar a troca, entrei em contato com a empresa e solicitei a devolução. Mesmo sabendo que meu namorado iria ficar louco ao saber, já que passamos o final de semana todo montando aquela bendita cama! 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Fico por aqui

Apesar do “Caso Rondon” não ter chegado ao fim, e muito menos a um final feliz, preciso me despedir. Todavia, é bom frisar que ainda não existe data para o julgamento de Alberto Rondon. Para finalizar minha participação, neste capítulo vou explicar como o caso está posicionado na justiça atualmente. Por isso, resolvi ouvir a defensora pública Maria Gisele Scavone de Mello e, para minha surpresa, no fechamento do livro, consegui ouvir a defesa de Rondon. Não pensem que o ex-médico decidiu me conceder uma entrevista. Digamos que um passarinho me contou...

Demorou alguns meses para que eu conseguisse falar com a defensora pública que está cuidando do caso de algumas vítimas de Alberto Rondon, mas quando Maria Gisele Scavone de Mello me atendeu, logo me concedeu uma entrevista.

Gisele atua na Defensoria da Mulher há dois anos, e quando assumiu a atual função muitos processos já haviam sido transferidos para a Justiça Federal e ela não teve mais acesso a eles. A defensora explicou que os processos que estão tramitando no Fórum são de assistência da acusação na área criminal, atuando ao lado do Ministério Público, e, na área civil, são para indenizações.

“Eu atendo a mulher em qualquer situação, desde que ela seja vítima de violência. Se ela tem audiência no juizado criminal eu acompanho. O Ministério Público faz a parte dele e eu faço o resto”. Gisele explica que para a mulher ter o auxílio da Defensoria Pública precisa declarar que é carente, assinando um documento que ratifica o fato de não ter condições financeiras e, caso a declaração seja falsa, responde criminalmente. “Nós podemos fazer uma triagem para saber se a informação é verdadeira”.

A Defensora revela que muitas mulheres optaram por um advogado particular e por isso ela não tem acesso ao número total de vítimas que acionaram Alberto Rondon judicialmente. “Não são todos os casos de Rondon que estão na Defensoria, somente daquelas mulheres que não tinham dinheiro, mas queriam acionar a justiça”. Na época, o Ministério Público reuniu em torno de 15 vítimas e montou um único processo, descrevendo a lesão de cada mulher. Por isso, Rondon responde a um único processo, com várias vítimas.

Está havendo uma certa demora tanto nos processos na área civil como na criminal. Na civil, os processos estão parados na prova pericial; e na área criminal, ainda estão sendo ouvidas as testemunhas de acusação. Alguns processos com data do ano de 1999, de 2001, ainda estão na fase de ouvir as mulheres e as testemunhas. São mais de cinco anos e não foram ouvidas todas as vítimas. Esta demora, que está ocorrendo na hora de marcar as audiências, é muito prejudicial, pois após um certo tempo o processo prescreve. “Não sei o que está acontecendo, o juiz deve estar com muito trabalho, com a agenda muito cheia”, comenta Gisele.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Médico ou Monstro?


O dono da Fábrica de Sonhos que desmoronou...
...ou o responsável pela Máquina de Ilusões?


Alberto Jorge Rondon de Oliveira, filho de Agnol Carneiro de Oliveira e Yone Rondon de Oliveira, nasceu em 19 de setembro de 1956, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. É brasileiro, divorciado, portador da Cédula de Identidade R.G. n.º 1031-CRM/MS e do Cadastro de Pessoa Física CIC n.º 403.295.937 – 49 e ex-clínico geral.

Em 1988 foi o mais votado para vereador na Capital pelo PL -Partido Liberal -, mas não se elegeu. Rondon foi deputado estadual pelo PPB - Partido Progressista Brasileiro -, presidiu o diretório municipal do partido e se candidatou a prefeito de Campo Grande, mas não chegou ao 2º turno. Sua última tentativa eleitoral foi em 1994, com uma frustrada candidatura a vice-governador do Estado. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1980, Rondon começou a exercer a especialidade de cirurgia plástica em 1981, e trabalhou em Mato Grosso do Sul durante mais de vinte anos, porém ser ter feito especialização na área.

Rondon dizia ter cursado medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro e feito residência médica com especialização em cirurgia plástica no Hospital Geral do Bonsucesso, no Rio de Janeiro. Porém, por fax, Alberto Rondon foi desmentido. A diretora-geral do Centro de Aperfeiçoamento do Hospital Geral de Bonsucesso (RJ) na época, Maria José de La Nuez, negou, no dia 29 de abril de 1999, a veracidade da declaração que Rondon usou para se credenciar no Previsul – Instituto de Previdência de Mato Grosso do Sul – como cirurgião plástico. Ela informou também que ele cumpriu o programa de residência médica em cirurgia geral de 5 de março de 1981 a 4 de março de 1983, mas nunca na especialidade de cirurgia plástica. E, além do mais, o hospital jamais forneceria uma declaração dizendo que um aluno obteve bom aproveitamento, como consta na cópia anexada ao cadastro de Rondon no Instituto.

Em abril de 1999, Rondon foi denunciado por um grupo de mulheres formado por funcionárias públicas. Logo que estourou a notícia das mutilações, o número de vítimas cresceu assustadoramente. O presidente do Previsul, Volney Ávila, suspendeu o credenciamento de Rondon na Instituição até o fim do inquérito administrativo aberto para apurar as denúncias. E o presidente do Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande – IMPCG – Moacir Roberto Sales, agiu da mesma forma, até que o CRM fizesse um pronunciamento oficial sobre as denúncias. Rondon era credenciado no IMPCG desde 1983 como cirurgião plástico e, segundo Sales, nunca havia tido reclamação contra ele.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Por dentro do centro cirúrgico


Eu ficava triste por Rondon ser uma pessoa simpática
 e deixar as pacientes sofrendo, gemendo de dor”.
Eliane Teixeira Delmondes
           


A procura por alguém que trabalhou com Alberto Rondon era fundamental para o livro. Ninguém melhor do que esse personagem para dizer o que acontecia de diferente ou estranho no centro cirúrgico, se é que acontecia. Depois de um bom tempo procurando, descobri que a pessoa estava mais perto do que eu imaginava: trabalhava com minha irmã. Coincidências à parte, fui ouví-la o quanto antes.

“Eu trabalhei como instrumentadora de Alberto Rondon na Clínica Campo Grande...” começou Eliane. Ela conta que Rondon fazia cirurgias plásticas somente aos sábados na clínica por não ser conveniado à empresa, e pagava um pacote para poder operar. Rondon levava o anestesista José Tadashi Sugai e tinha Eliane como instrumentadora.

Nas cirurgias de Rondon, a instrumentadora relata que o médico sujava muito o centro cirúrgico, deixava sangue espirrar nas paredes e na roupa deles. Ela explica que quando acontece de romper um vaso sanguíneo, é feita a cauterização, ou seja, na hora o vaso é queimado com um bisturi para estancar o sangramento. Porém, Rondon não procedia dessa forma, deixava o sangue esguichar até o fim da cirurgia. “É perigoso. O paciente pode entrar em choque e acarretar danos”. Eliane revela que nunca questionou esse ponto, pois, dependendo do médico, um comentário desses pode causar demissão, entretanto comentava com as colegas de trabalho que o fato era muito estranho.

Eliane instrumentou para Rondon durante oito meses e as enfermeiras da clínica o conheciam há pouco tempo. A instrumentadora lembra que no tempo em que trabalhou lá, uma menina de aproximadamente 16 anos voltou para corrigir uma cirurgia feita por ele. Quando a menina tirou a blusa, tinha uma cicatriz imensa embaixo do seio dela, como se fosse uma quelóide. O médico a levou para o centro cirúrgico e tirou um pouco da cicatriz, mas sempre falando que a marca era reação do organismo dela que não se adaptou à cirurgia e, com o passar do tempo, desapareceria. 

Uma colega de trabalho de Eliane fez cirurgia plástica com Rondon, mas nunca voltou para mostrar como ficou. A instrumentadora sempre teve vontade de encontrá-la para saber se houve alguma sequela.

domingo, 16 de junho de 2013

Lembranças de um paredão

“Imagine você em um paredão: sem roupa,
gorda, com seus seios feios e dez médicos
 na sua frente, olhando para você”.
Silvia Regina Cassano Monteiro


O desejo de mudança, de tornar-se mais atraente, tanto para o homem como para si mesma, está presente em todas as mulheres e chama-se vaidade. Ao ser mãe, a mulher sofre mudanças em seu corpo, muitas vezes desfavoráveis aos padrões de beleza cobiçados, e com Silvia Regina Cassano Monteiro não foi diferente. Aos 34 anos, depois de dar a luz a dois filhos, os seios que já eram grandes, aumentaram de tamanho.

“Meu sonho era fazer uma cirurgia plástica, eu queria diminuir meus seios”. Uma mulher comentou com Silvia que o cirurgião Alberto Rondon parcelava o valor da cirurgia em três ou quatro vezes, e isso a interessou. Ela decidiu operar com Rondon por causa do valor cobrado - equivalente a R$3.500,00 a R$4.000,00 em valores atuais - e pelo fato de o médico ter um sobrenome famoso.

Silvia recorda que a cirurgia foi realizada na clínica Urgem, no período da noite, mas não lembra a data, acredita que foi no ano de 1995. Fez todos os exames pela Unimed, mas a cirurgia foi particular, pois o convênio não cobria quando relacionado à estética. Realizada a operação, surgiram os problemas. Com uma semana, foi ao consultório retirar alguns pontos e Rondon receitou uma pomada para a cicatrização. As marcas da cicatriz não desapareciam e ela retornava ao consultório do médico toda semana, e ele sempre a acalmava. “Só ele achava que estava ficando bom”. Depois de algum tempo, o médico não quis mais atendê-la e nada havia voltado ao normal, como o prometido.

“Rondon era muito doce”. Silvia conta que o médico tinha respostas para tudo, de uma maneira que a convencia e acalmava. Ele falava que bastava passar pomada nos cortes que a cicatriz iria desaparecendo com o tempo. A paciente já havia passado muitas pomadas, mas não via melhora, então, retornava ao consultório de Rondon e ele explicava que o tratamento era demorado. Um dia Silvia cansou de procurá-lo, parou de ir ao consultório e agradeceu a Deus por não ter infeccionado os pontos. Não houve infecção, mas ficaram cicatrizes grossas. “Parece que ele colocou o bico do seio em qualquer lugar e costurou”. A paciente revela que a secretária dele era muito convincente e, na clínica, não deixavam as mulheres juntas por muito tempo.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Mudanças de expressão




“Minha irmã me deu conselhos para que 
eu não fizesse a cirurgia(...)
 mas eu fui teimosa e quis um resultado rápido”.
Rosângela Ortega




Fui recebida em um sábado de manhã em sua casa. Rosângela e sua mãe me esperavam com a porta da casa aberta. Apesar da ótima receptividade, notava-se um pouco de tensão nas duas, o que é comum, pois sei o quanto é difícil relembrar fatos desse tipo. Fiquei sabendo de seu caso por meio de uma colega, sobrinha de Rosângela.

“As minhas pálpebras superiores estavam caídas e as inferiores tinham duas bolsas de gordura. Eu quis tirar”. Aos 27 anos, Rosângela não estava satisfeita com sua imagem no espelho, e assustou-se ao fazer uma consulta com o cirurgião plástico Alberto Rondon, quando ele diagnosticou que ela estava com envelhecimento precoce de dez anos nas pálpebras. Depois de ouvir isso de um médico, Rosângela ficou transtornada e decidiu fazer a cirurgia o quanto antes. “Ele sabia convencer as pessoas”. Ela revela que foi procurá-lo por indicação de várias mulheres que haviam feito cirurgia plástica com Rondon na clínica Urgem.

Rosângela fez a cirurgia em maio de 1992 e explica que, naquele ano, Rondon era candidato a prefeito de Campo Grande e por isso ele estava fazendo cirurgias pela metade do preço de outros cirurgiões da cidade. Ela não tinha convênio, mas não precisou pagar a consulta, somente a operação. “Minha irmã me deu conselhos para que eu não fizesse a cirurgia, para eu procurar um tratamento estético, mas eu fui teimosa e quis um resultado rápido”.

Quando Rosângela foi internada, sua cirurgia estava marcada para as sete horas da noite, mas às nove horas o médico ainda não estava na clínica.  O instrumentista pediu a ela que trocasse de roupa e esperasse o médico na sala de cirurgia, pois Rondon havia ligado para avisar que estava a caminho.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Pais e Filhos


Não tenhamos dúvidas de que a globalização trouxe uma exposição infinitamente maior de todas as mazelas da sociedade. Fica até difícil entender se o mundo está mais violento ou se apenas temos essa impressão porque antes não existia tanta informação como hoje.

Independente da resposta, é, e sempre será, estarrecedor ver atrocidades em família: pais que matam os filhos e filhos matando os pais, além de abusos cometidos por familiares. O mundo não acabou em todas as previsões já feitas, mas a cada acontecimento brutal desse tipo parece que ele está acabando, e pior: de maneira lenta e dolorosa.

Dinheiro, rebeldia, cansaço, ciúme, ingratidão... Nada justifica uma barbárie, principalmente em pessoas do mesmo sangue. Fica evidente a falta de Deus no coração e, para os ateus, amor e paz. Posso estar sendo um tanto romântica, mas a família devia ser uma união indestrutível, independente dos problemas que cada uma tenha. Erros deveriam ser perdoados da mesma forma que acertos comemorados e dificuldades vencidas.

Arrependimento? Não sei se existe. Pena de morte? Seria uma opção, solução não sei, mas não traria vidas de volta. Em muitos momentos, principalmente nesses, desejo a implantação da pena de morte no Brasil, pensando justamente na cadeira elétrica, atingida pela revolta que esses casos transmitem, mas, Infelizmente lembro de como corrupta são as políticas do Brasil e reflito que muitos inocentes seriam punidos no lugar dos que têm dinheiro.

Essa indignação aflorou mais nas últimas semanas, ao ler, no mesmo dia, duas matérias de casos polêmicos: Gil Rugai, condenado por matar o pai e a madrasta, cumprirá apenas um sexto da pena em regime fechado (se é que ele vai ficar todo esse tempo na prisão); e do casal Nardoni, condenados por jogar a filha (uma CRIANÇA!) da janela do apartamento, que querem novo julgamento. E alguém duvida que eles logo serão soltos?

Notícias como essas causam uma tremenda revolta nos “homens de bem”, aqueles que fazem parte de uma sociedade solidária, que muitas vezes reparte o que não tem e que é presa se roubar uma galinha para matar a fome do filho.

Para fechar com “chave de ouro”, minutos antes de finalizar esse texto, mais uma notícia: um bebê de sete meses foi arremessado da sacada de um prédio pela própria mãe, que tentou jogar a outra filha de dois anos da janela. Por Deus, o bebê não morreu, mas ficou internado em estado grave. Alguém explica?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Vaidade à flor da pele

“Quando meu marido tocava em mim, nas cicatrizes,
 eu me sentia mal, como se ele estivesse reclamando.
Ele não estava, mas eu ficava com esse
 pensamento me incomodando”.
Paola


De todas as mulheres que entrevistei, Paola* pareceu-me a mais vaidosa. Sempre disposta a agradar o marido, hoje se arrepende de ter dado tanta importância às críticas que ele fazia. Brincadeiras levadas a sério por ela, que resultaram em uma decisão que transformou sua vida. Com apenas 28 anos, Paola fez a tão desejada cirurgia plástica.

“Eu tinha uma barriga saliente, que hoje eu vejo que não era muito, mas meu marido brincava tanto comigo, falando que eu estava “barriguda”, e acabei acreditando”. Paola queria fazer uma cirurgia plástica para ficar mais atraente, mas sua condição financeira a limitava, foi então que ficou sabendo do cirurgião plástico Alberto Rondon. Na época, de acordo com Paola, Rondon cobrava preços acessíveis e era famosíssimo em Campo Grande, quase um “Deus” na cirurgia plástica, e ela não teve dúvidas na hora de escolhê-lo.

Como ela iria fazer cirurgia plástica no abdômen, resolveu fazer nos seios também. “Eu assistia nas novelas as mulheres com os seios bonitos, empinados e quis ficar igual”. A operação aconteceu na clínica Urgem, no ano de 1989 e foi particular, o que lhe custou na época em torno de R$8.000,00. A indicação veio através de uma conhecida que disse ter feito plástica com Rondon. Paola viu a plástica dela e considerou ter ficado bonito, mas depois dos acontecimentos, ficou na dúvida se a mulher falou a verdade sobre quem fez a cirurgia. Paola confessa que não pesquisou outros médicos e nem se informou o suficiente. “Foi burrice minha”.

Paola foi cedo para a clínica no dia da cirurgia, mas não viu o médico antes e nem depois da operação. Até hoje ela não sabe dizer se foi realmente Rondon que a operou. A vítima acordou antes do final da cirurgia. Ficou sem abrir os olhos, mas consciente do que estava acontecendo, sentia-se puxar, costurar, mas não sentia dores. Paola ouviu a equipe dizendo que havia sangrado muito. “Eu consegui presenciar um pouco da operação. Quando acordei, na mesa de cirurgia, Rondon não estava junto com os outros. Só fui vê-lo no outro dia”.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Seduzida pela vaidade


“Eu achei tudo maravilhoso e fiquei fantasiada com a ideia,
 mas nunca tive a vontade de fazer plástica na vida,
só precisava operar da hérnia”. 
Simone


O número de vítimas que estipulei ouvir para a construção do livro já estava concluído, porém algo me dizia que Simone* precisava ser ouvida, que o depoimento dela era precioso. Eu não estava enganada. Diferente das outras mulheres, Simone foi a única que nunca tinha pensado em fazer plástica, ela só precisava operar de uma hérnia. A ideia de uma cirurgia plástica surgiu por indicação de um gastroenterologista.

“Eu estava sentindo dores na barriga e fui ao gastroenterologista Adolfo José Chang Jimenez para saber o que tinha de errado comigo. O médico pediu que eu tirasse um raio-X e o resultado foi uma hérnia epigástrica no estômago”. Simone conta que Chang avisou que operaria a hérnia e indicou que ela procurasse o cirurgião plástico Alberto Rondon para fazer uma plástica. Ela conversou com o diretor do IMPCG – Instituto Médico da Prefeitura de Campo Grande - ao qual era conveniada, e ele não só indicou Rondon como deu o endereço da clínica dele.

Simone foi ao consultório de Rondon e gostou da aparência. “Tinha muitas mulheres, uma sala grande, arrumada, muitos quadros do cirurgião plástico Ivo Pitanguy – Rondon falava que estudou com ele, o que depois ficou provado que era mentira -, tudo muito bonito”. O médico abriu um livro e mostrou fotos de mulheres que haviam feito cirurgia plástica e ficaram lindas, e afirmou que ela ficaria ótima. “Isso me seduziu”. Simone revela que antes não tinha barriga, havia tido uma única filha e tinha uma pequena cicatriz da cesárea que o biquíni escondia. 

“Rondon conseguiu me deixar com uma barriga inchada”. Ela estava ansiosa para operar, pois todos falavam que ela iria ficar linda e maravilhosa. “Eu achei tudo maravilhoso e fiquei fantasiada com a ideia, mas nunca tive a vontade de fazer plástica na vida, só precisava operar da hérnia”. 

Ficou decidido que Chang iria começar a cirurgia, operando a hérnia e Rondon finalizaria com a plástica. Porém, Chang deixou claro para Simone que quem iria abrir e fechar o corte seria Rondon, o gastroenterologista só iria operar a hérnia. Simone conta que tem um irmão que é médico e mora em Cuiabá, e ele combinou com Rondon, por telefone, que iria assistir a cirurgia. 

A cirurgia era para ser feita em janeiro, mês que o irmão dela estava de férias em Campo Grande, mas o médico foi adiando a data, e só quando irmão de Simone precisou ir embora ele marcou a operação, para o dia 08 de fevereiro de 1999. “Rondon não queria que meu irmão assistisse porque ia fazer coisa errada”.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

E assim tudo chega ao fim – Relatos de alguém que não esteve lá


De repente eu era só mais um corpo caído no chão. Sentia náuseas, falta de ar e as imagens começavam a ficar confusas. Notei que eu fui carregada até ser deixada na calçada, junto a outros corpos. Percebi que aquela seria minha última fresta de vida. A festa em que eu me divertia havia se transformado em um pesadelo e era difícil acreditar em tudo o que estava acontecendo.

Uma fumaça forte se misturava com o cheiro de carne queimada e foi então que fui perdendo os sentidos, no meio de um aglomerado de pessoas que se empurravam e pisoteavam umas a outras em busca de uma saída. Talvez a vitória dos que conseguiram sair com vida daquele lugar tenha trazido uma sensação de frustração ao perceberem quantos não haviam tido a mesma sorte. Talvez esse sentimento tenha transformado sobreviventes em voluntários, num comovente ato de amor ao próximo.

A dor maior veio com o som do meu celular tocando no bolso da calça, e eu não tinha forças para atender. Sabia que era a minha família. Queria muito abraçar a todos pela última vez, pedir desculpas por não ter ficado em casa naquela noite como minha mãe pediu, mas a vontade de me divertir com meus amigos prevaleceu.

Existia em mim a certeza de que minha família continuaria ali, intocada, e no outro dia eu estaria com eles no almoço de domingo. Não imaginei que essa cena familiar nunca mais se repetiria. Antes de ser carregada ainda pude ver alguns amigos mortos, outros bem machucados e senti a dor das queimaduras.

Eu virava mais um corpo na contagem de mortos e assim me despedia daquela vida de tantas expectativas e ambições. Aquela vida que imaginei que duraria até a velhice para me divertir com meus netos. Não, não cheguei a conhecer o pai dos meus filhos e nem pude sentir as contrações de um parto. Na verdade, não vivi muitas coisas que eu tinha certeza que viveria.

Até então a vida era tão óbvia: me formaria ainda este ano, trabalharia, encontraria um grande amor, casaria, teria filhos, netos e morreria velhinha, depois de viver felicidades e tristezas, vencer algumas doenças e rir bastante da vida. Não que a morte antes do “meu previsto” havia sido excluída das possibilidades, mas nunca imaginei encontrá-la em um momento de festa, em que eu estava aparentemente segura.

Só então percebi que a certeza não existe. Infelizmente meus pais não chegaram a tempo e tive que ir sem despedidas. A minha festa e de muitas pessoas acabava ali, antes do que havíamos planejado e muito antes do que havíamos esperado.


* Esse é um texto fictício. Nem sempre é preciso viver para sentir, mesmo sabendo que a minha dor nunca chegará perto de quem vivenciou uma tragédia dessas. Que Deus ilumine as almas das vítimas e ampare seus familiares.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Uma mãe sem leite


“Eu ainda não era mãe e uma das minhas preocupações

 era a de não interferir nas glândulas mamárias,
 e Rondon falou para eu ficar tranqüila que não iria prejudicar em nada.
 Resultado, tive de amamentar meus filhos com leite em pó solúvel”.
América Marques Farias




Foi num dia frio e chuvoso de inverno que conheci América Marques Farias. Mais uma mulher com o sonho, aparentemente tão simples para alguns, de fazer uma cirurgia plástica nos seios. A princípio, queria se livrar das dores na coluna, causadas pelo grande volume das mamas. Depois gostaria de ver seus seios durinhos, moldados, como aqueles das modelos de revista e televisão. Tantas mulheres podem, por que América não poderia?

“Meus seios eram muito grandes e por isso minha coluna doía demais. Meu sonho era tirar um pouco do excesso, e ficar com eles durinhos”. E procurando na lista de médicos da Unimed, América encontrou o nome de Alberto Rondon junto ao dos cirurgiões plásticos, e simpatizou com ele. Fez a primeira consulta, pegou a guia para autorização da cirurgia na Unimed e, em um mês, estava fazendo a operação, na clínica Urgem.

No dia 27 de janeiro de 1990, às 23 horas, foi realizada a cirurgia plástica de redução de mamas em América. Quando ela chegou para a operação, Rondon estava a sua espera. Minutos antes, uma adolescente que havia feito cirurgia com ele tinha passado muito mal. Sabendo disso, os parentes de América pediram a ela que não operasse, mas já estava tudo pronto e ela não quis desistir. Ocorreu tudo bem na cirurgia, Rondon retirou 700 gramas de cada seio e alguns nódulos que encontrou.

No dia seguinte, América começou a sentir-se mal, desmaiou e precisou ficar três dias internada. “Rondon me deu alta e receitou um remédio para acabar com a dor. Aconselhou que eu não levantasse o braço e nem penteasse o cabelo por dois meses. Fiz todo o repouso que ele mandou”.