“Eu ficava triste por Rondon ser uma pessoa
simpática
e deixar as pacientes sofrendo, gemendo de
dor”.
Eliane Teixeira Delmondes
A
procura por alguém que trabalhou com Alberto Rondon era fundamental para o
livro. Ninguém melhor do que esse personagem para dizer o que acontecia de
diferente ou estranho no centro cirúrgico, se é que acontecia. Depois de um bom
tempo procurando, descobri que a pessoa estava mais perto do que eu imaginava:
trabalhava com minha irmã. Coincidências à parte, fui ouví-la o quanto antes.
“Eu trabalhei como
instrumentadora de Alberto Rondon na Clínica Campo Grande...” começou Eliane.
Ela conta que Rondon fazia cirurgias plásticas somente aos sábados na clínica
por não ser conveniado à empresa, e pagava um pacote para poder operar. Rondon
levava o anestesista José Tadashi Sugai e tinha Eliane como instrumentadora.
Nas cirurgias de Rondon, a instrumentadora
relata que o médico sujava muito o centro cirúrgico, deixava sangue espirrar
nas paredes e na roupa deles. Ela explica que quando acontece de romper um vaso
sanguíneo, é feita a cauterização, ou seja, na hora o vaso é queimado com um
bisturi para estancar o sangramento. Porém, Rondon não procedia dessa forma,
deixava o sangue esguichar até o fim da cirurgia. “É perigoso. O paciente pode
entrar em choque e acarretar danos”. Eliane revela que nunca questionou esse
ponto, pois, dependendo do médico, um comentário desses pode causar demissão, entretanto
comentava com as colegas de trabalho que o fato era muito estranho.
Eliane instrumentou para Rondon
durante oito meses e as enfermeiras da clínica o conheciam há pouco tempo. A
instrumentadora lembra que no tempo em que trabalhou lá, uma menina de
aproximadamente 16 anos voltou para corrigir uma cirurgia feita por ele. Quando
a menina tirou a blusa, tinha uma cicatriz imensa embaixo do seio dela, como se
fosse uma quelóide. O médico a levou para o centro cirúrgico e tirou um pouco
da cicatriz, mas sempre falando que a marca era reação do organismo dela que
não se adaptou à cirurgia e, com o passar do tempo, desapareceria.
Uma colega
de trabalho de Eliane fez cirurgia plástica com Rondon, mas nunca voltou para
mostrar como ficou. A instrumentadora sempre teve vontade de encontrá-la para
saber se houve alguma sequela.
De acordo com Eliane, Rondon demorava
muito nas cirurgias. “Nunca passou pela minha cabeça que ele não fosse
cirurgião plástico, porque Rondon entrava na clínica exclusivamente para isso e
pagava caro para poder operar aos sábados, que era um dia reservado para ele”.
Ela revela que havia marcado para fazer uma cirurgia plástica para levantar as
mamas com ele, na qual Rondon não iria cobrar nada, e tinha até feito as
medições. “Graças a Deus eu escapei”. Eliane desistiu de fazer a cirurgia com
ele depois de ver as pessoas reclamando de dor.
Quando fazia plantão na clínica,
visitando os apartamentos, a instrumentadora encontrava pacientes que haviam
operado com Rondon no dia anterior e elas reclamavam que sentiam muitas dores,
de uma maneira que não era normal em um pós-operatório. Ela conta que era muito
difícil localizar o médico, pois os funcionários não podiam fazer nada sem que
ele autorizasse. “Eu ficava triste por Rondon ser uma pessoa simpática e deixar
as pacientes sofrendo, gemendo de dor”.
Quando alguma paciente chamava o plantonista, reclamando de dores, o
plantonista passava um remédio e aconselhava que se localizasse o médico, mas
ninguém encontrava Rondon, e a paciente tinha que aguentar as dores o dia todo.
Uma amiga de Eliane fez cirurgia
plástica com outro médico e contou que sentia dificuldade em vestir o roupão,
mas não existia dor. Já a instrumentadora observava que as cirurgias de Rondon
causavam muitas dores, ela era testemunha dos relatos de pacientes que ouvia
gritar na clínica. O médico operava aos sábados e só voltava na segunda-feira
para ver a paciente, e já lhe dava alta. Às vezes, ela cuidava de pacientes
dele que ficavam durante 12 horas gemendo de dor e não conseguia localizá-lo.
“Teve um caso que me deixou
impressionada, uma cirurgia de abdômen”. Eliane explica que nas cirurgias de
abdômen, a paciente é amarrada na cama e levantada - como Jesus Cristo na cruz.
O médico opera com a paciente amarrada, na posição vertical. O anestesista fica
cuidando e o médico vai cortando. Nessa cirurgia que causou tanta revolta em Eliane,
a paciente era muito gorda, tinha uma barriga que parecia uma anomalia, e
Rondon levantava a barriga da mulher e ia cortando como se estivesse “carneando
porco”.
Ela nunca tinha visto aquilo e ficou chocada. “Romperam-se muitos
vasos, eu nunca vi tanto sangue como naquela cirurgia. Quando terminou a
cirurgia, Rondon pediu para que “pesasse as banhas”, e como não tínhamos
balança, levamos tudo o que ele tirou da paciente para pesar na lavanderia da
clínica. Foi muito grande a cirurgia, porém eu nunca estive presente em outra
cirurgia de abdômen. A sala cirúrgica ficou imunda”.
Eliane sempre achou relapsa a maneira
como Rondon operava, pelo sangue espirrado por toda a sala e pela distração.
Ele conversava muito com o anestesista durante a cirurgia, assuntos variados,
como futebol, etc. E é necessário muita concentração. A instrumentadora cita
que, certa vez, Tadashi estava reclamando que Rondon estava devendo R$500,00
para ele e já era a terceira cirurgia que o médico não pagava. Ela falou para
Tadashi que devia ser por falta de receber do convênio e o anestesista disse
que não, pois Rondon recebia em dinheiro pelas cirurgias. De acordo com ela, o
anestesista estava muito aborrecido com o médico.
Rondon a convidou para trabalhar com
ele, ser sua instrumentadora particular, mas ela não aceitou, pois achava um
absurdo um médico impossível de localizar quando a paciente passava mal, e que
tinha uma esposa com ciúme doentio. Eliane revela que, quando ligavam da
clínica à procura de Rondon, a mulher – Renata - xingava as enfermeiras e
desligava o telefone. “Devia ser por isso que o médico não dava atenção para as
pacientes. Ela não deixava ninguém se aproximar do marido”.
8º Capítulo do Livro-reportagem
"Profundas Cicatrizes- Caso Alberto Rondon"
Nenhum comentário:
Postar um comentário