O Primeiro Boletim de Ocorrência
“Até hoje eu fico arrepiada só de lembrar da cena.
Quando a vítima ergueu a roupa para mostrar as cicatrizes
eu passei mal”.
Delegada Vilma Carvalho
Vilma Fátima de Carvalho Angelo da Silva era delegada titular da 1ª Delegacia de Polícia quando, no dia 11 de setembro de 1998, foi registrado o primeiro boletim de ocorrência do caso que ganharia grande repercussão nacional. Uma mulher, vítima de uma cirurgia plástica sem sucesso, foi à delegacia acompanhada de sua advogada e de seu marido para prestar queixa contra o suposto cirurgião plástico Alberto Rondon.
Matusalem Sotolani era o delegado de plantão naquele dia e encaminhou a advogada da vítima para falar com Vilma, depois de perceber a gravidade do caso. A advogada começou a relatar a história e Vilma quis ver a vítima. Quando a vítima ergueu a roupa para mostrar as cicatrizes, a delegada passou mal. “Eu estou acostumada a lidar com várias situações graves, mas esta foi muito forte. Eu vi as vísceras da mulher. Isso me arrepia até hoje”.
A delegada conta que dava a sensação de que a mulher estava morrendo. Foi preciso pegar um pouco de sal para Vilma colocar embaixo da língua para não desmaiar. Imediatamente foi registrada a ocorrência e encaminhou-se para os procedimentos de rotina. Depois disso, começaram a surgir inúmeros casos e, devido às vítimas serem mulheres, foram todas encaminhadas para a DEAM - Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher.
“O estado das lesões era muito grave. Foi tudo muito chocante e agressivo”. Na 1ª Delegacia aconteceu o início do primeiro trabalho, o registro da ocorrência e o encaminhamento à delegacia especializada, depois Vilma explica que não acompanhou mais o processo, pois saiu de sua esfera.
Hoje, a vítima atendida por Vilma retirou a acusação, desistiu do processo. A delegada acha estranho acontecer isso, pois esse tipo de lesão não é uma ação condicionada. No Direito Penal existem os crimes de ação condicionada e incondicionada. A condicionada precisa da representação da vítima e a incondicionada, basta o Ministério Público constatar a prática de um crime para promover a ação penal. E esse tipo de crime é incondicionado. “A partir do momento que a polícia tomou conhecimento, seria preciso instaurar o processo, independente da vontade da vítima, por isso eu considero estranha a desistência da vítima”.
Realizei uma longa pesquisa na Delegacia da Mulher e pude observar que o segundo boletim de ocorrência do caso Alberto Rondon foi registrado em 26 de abril de 1999. Porém, este não foi o único do dia. Várias mulheres registraram boletim de ocorrência contra o médico, o que, diariamente, tornou-se comum na delegacia. Constatei um número de 182 boletins, sendo que o último foi na data de 27 de junho de 2001.
(6º Capítulo do Livro Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon)