domingo, 20 de maio de 2012

Mulheres unidas

              A Coordenadoria da Mulher


“As mulheres que são impacientes ficam muito
 nervosas na hora que é dito que não tem jeito,
 ficam com raiva, como se fôssemos os responsáveis.
É muito difícil aceitar”.
Bárbara Nicodemos


A Coordenadoria da Mulher teve fundamental participação no caso Rondon e, sabendo disso, era indispensável ouvir uma representante do órgão para explicar melhor como tudo aconteceu. Após várias ligações e visitas à Coordenadoria, a assessora técnica Bárbara Nicodemos me concedeu uma entrevista. Para situar melhor o leitor, a assessora começou nossa conversa falando um pouco sobre a Coordenadoria.

“Em 1999, com a mudança de governo, foi criada a Coordenadoria de Políticas Públicas da Mulher”. Bárbara explica que a coordenadoria é composta por técnicas que visam desenvolver a política pública específica para a mulher no Estado, e teve como primeira coordenadora Gilda Maria Gomes dos Santos – conhecida como Dona Gilda -, esposa do governador de Mato Grosso do Sul. O órgão trabalha em diversos eixos: saúde, educação, mas seu foco principal está nos programas de combate à violência contra as mulheres.

O caso Rondon chegou até a Coordenadoria por meio da divulgação dos programas contra a violência. Na época, um grupo de mulheres procurou dona Gilda para falar sobre a situação. Mulheres que tinham sido vítimas do médico Alberto Rondon e foram atendidas tanto pelo Previsul, como por convênios particulares. Elas pediram ajuda e foi realizada uma reunião da coordenadora com a equipe, para entender o que realmente havia acontecido, pois as mulheres estavam com graves seqüelas. Algumas delas que fizeram cirurgia de mamas e abdômen estavam muito comprometidas, e pediram que o governo do Estado assumisse a questão. Com isso, a Secretaria de Saúde e a direção do Previsul foram procurados.

Foi sugerido às mulheres que elas se organizassem entre si para saber quantas vítimas existiam. Na época levantou-se o número de 138 mulheres e fechou-se nesse número. Foi composta uma comissão, formada pela Delegacia da Mulher e Defensoria Pública, para analisar os passos a serem dados. A decisão foi que, primeiramente, era necessário que essas mulheres fizessem um boletim de ocorrência para, através deste, ser aberto o inquérito e iniciar uma ação contra Alberto Rondon.



O Estado, representado pela Coordenadoria da Mulher, juntamente com a Secretaria de Saúde, assumiu a responsabilidade de fazer com que cada mulher mutilada tivesse direito a uma cirurgia reparadora. Comunicada sobre o caso, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – SBCP -, através do Ministério da Saúde, entrou em contato com a Coordenadoria para avisar que também participaria. Foi então discutido o que cada órgão poderia fazer.

A SBCP reuniu os médicos, a Secretaria de Saúde assumiu todas as despesas na cidade e o Ministério da Saúde, as passagens dos médicos para virem a Campo Grande. Foi tudo organizado para, quando a equipe médica chegasse a cidade, ter toda a infra-estrutura necessária para trabalhar, como hospital, materiais, etc. “A responsabilidade da Coordenadoria da Mulher foi articular todo o trabalho de cirurgias reparadoras. Foram realizadas cinco etapas de cirurgias até hoje”. Bárbara explica que em cada etapa é chamado um grupo de mulheres que são avaliadas, fazem um pré-operatório, e quando os médicos chegam à cidade, avaliam todos os exames, e só então é dito para cada mulher se ela está apta a fazer a cirurgia ou não.

Existem casos em que a mulher não tem condições de fazer uma nova cirurgia, pois foi muito prejudicada. “Rondon mutilou mesmo. Tem casos onde não existe reparação”. Há casos em que a saúde da paciente não permite que ela opere, por estar muito obesa ou ter problemas cardíacos, e isso causa um desgaste muito grande a elas, mas que não compete mais à Coordenadoria. Todo o pré-operatório, como é feito antes de qualquer cirurgia, é realizado com um cuidado redobrado por causa da situação da paciente, por isso muitas não fizeram a cirurgia reparadora. Para as mulheres que não passam na avaliação médica, é dito para elas tentarem um tratamento para, talvez, na próxima etapa ser feita a cirurgia reparadora. “As mulheres que são impacientes ficam muito nervosas na hora em que é dito que não há jeito, ficam com raiva, como se fôssemos os responsáveis. É muito difícil aceitar”.

O papel da Coordenadoria é articular para que essas mulheres façam a cirurgia, e quando não é possível localizá-las, é colocado um anúncio no jornal, sem dizer sobre o que se trata, apenas pedindo para que elas entrem em contato com o órgão. O que chama atenção de Bárbara é que nem todas as mulheres entraram com ação contra Rondon. Depois que a Coordenadoria fechou com o número de 138 mulheres para fazer as cirurgias reparadoras, a SBPC avisou que não seria possível abrir para mais mulheres, embora muitas tenham vindo procurar o órgão após esse acordo. “Algumas mulheres apareceram depois de um bom tempo, como se tivessem ficado esperando para ver o resultado”. Existem aquelas que desistem da cirurgia reparadora quando a data se aproxima, sendo necessário assinar um termo declarando estar ciente de que foram avisadas. Em outros casos, a Coordenadoria não consegue localizar algumas mulheres para avisar sobre a cirurgia.

Bárbara conta que os médicos que vêm para Campo Grande são os melhores e, por isso, muito ocupados. Eles que determinam a data das etapas - não tem nenhuma data definida - então quando vêm, os dias são muito corridos. É preciso localizar todas as mulheres e muitas mudam de endereço. A última etapa aconteceu em dezembro de 2002, quando 14 mulheres foram operadas. A Coordenadoria liga com freqüência para a SBPC em busca da data para a próxima vinda dos médicos à cidade, mas, como houve uma mudança na direção do órgão, é preciso fazer uma renegociação para saber se eles aceitam.

Nas cinco etapas de cirurgias que foram realizadas, 94 mulheres fizeram a cirurgia reparadora, de um total de 138 mulheres. Contudo, algumas conseguiram fazer mais de uma vez. Bárbara explica que a preferência era para quem não tinha feito a cirurgia, mas algumas vezes sobraram vagas, devido às mulheres que não puderam fazer por motivos de saúde. Algumas que precisavam fazer mama e abdômen só fizeram cirurgia reparadora em um local. “O que essas mulheres precisam é continuar com o processo contra Rondon e lutar por uma indenização”. Na última etapa, os médicos avisaram que, na próxima vinda a Campo Grande, querem que a Coordenadoria chame todas as mulheres para que eles possam fazer outra seqüência de operações, examinar quais ficaram boas e quais precisam de mais cirurgias.

É imprevisível a data de uma nova etapa. Geralmente, quando isso acontece, a Coordenadoria é avisada 15 dias antes e é preciso realizar todos os preparativos com urgência, desde o material exigido para a Secretaria de Saúde, à hospedagem dos médicos. O que causa grande dificuldade é localizar as mulheres, pois elas não costumam comunicar o órgão para avisar quando mudam de telefone ou de endereço, por isso uma das alternativas é anunciar na televisão, nos jornais. “Quando elas fazem a cirurgia, nós dispomos de um centro de atendimento com assistente social e psicóloga, mas pouquíssimas procuram um acompanhamento psicológico, o que é fundamental no pós-operatório, porque a expectativa é muito grande e algumas se frustram quando não sai da maneira tão desejada. Outras mulheres precisam de acompanhamento porque vão receber a notícia de que não vão poder operar”.

No começo, Bárbara revela que houve uma resistência muito grande dos médicos de Campo Grande em atender as vítimas de Rondon. “Eles não queriam de jeito nenhum. Alguns alegavam que poderia ser tirada a culpa de Rondon e colocada neles, outros diziam que era questão de ética, uns ficaram irritados porque as mulheres foram procurar médicos de fora da cidade, ao invés de procurar por eles primeiramente”. Houve uma reunião com os médicos e ficou decidido por alguns nomes que ficariam responsáveis em dar apoio às vítimas no pós-operatório, já que a equipe reunida pela SBCP vinha para a cidade, operava e ia embora.

A primeira etapa das cirurgias reparadoras foi realizada no Hospital Universitário e as outras no Hospital Regional. Na última etapa participaram médicos de Campo Grande. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica exigiu que as pacientes assinassem um termo, antes da operação, declarando que elas estavam cientes de que o médico faria o possível para reparar os danos, mas não era garantido êxito.

Muitas mulheres só queriam se submeter à cirurgia reparadora, não queriam fazer o boletim de ocorrência, nem entrar com processo contra o médico. “Acho que essas mulheres deveriam ir muito mais à frente na justiça, exigindo mais, para que aconteça uma reavaliação no sistema de fiscalização médica. Acredito que muitas mulheres conveniadas ficaram quietas por saber que elas também erraram, lesando o Estado, pois várias fizeram cirurgia estética, o que não era autorizado fazer. Muitas não falavam por medo disso”. Bárbara conta que a maior parte das mulheres operaram em troca de favor político. Elas viveram essa situação e sofreram as conseqüências posteriormente.

“Rondon mutilou mulheres”. O número de 138 vítimas é irrisório perto do real que nunca saberemos com precisão. Várias vítimas não quiseram se manifestar. Em diversos lugares, Bárbara conheceu mulheres que, quando ficavam sabendo que ela trabalhava na Coordenadoria da Mulher, comentavam que tinham sido vítimas de Rondon, mas não quiseram se manifestar. “Acho que mais de 400 mulheres passaram pelas mãos desse médico”. O que surpreende a assessora é que algumas falam do médico com muito carinho. “Isso me intrigou muito. Muitas falaram que tinha ido atrás dele porque quiseram, ninguém as forçou a nada, e se não deu certo, paciência”.

Bárbara terminou nossa conversa lembrando que a televisão fez muito sensacionalismo. Segundo ela, a TV expôs as mulheres e não fez nada para ajudar no caso, deixando agora o assunto esquecido, sem ter sido resolvido. O que é um grande problema, pois as pessoas esquecem rápido dos acontecimentos.


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