De repente eu era só mais um
corpo caído no chão. Sentia náuseas, falta de ar e as imagens começavam a ficar
confusas. Notei que eu fui carregada até ser deixada na calçada, junto a outros
corpos. Percebi que aquela seria minha última fresta de vida. A festa em que eu
me divertia havia se transformado em um pesadelo e era difícil acreditar em
tudo o que estava acontecendo.
Uma fumaça forte se misturava com
o cheiro de carne queimada e foi então que fui perdendo os sentidos, no meio de
um aglomerado de pessoas que se empurravam e pisoteavam umas a outras em busca
de uma saída. Talvez a vitória dos que conseguiram sair com vida daquele lugar
tenha trazido uma sensação de frustração ao perceberem quantos não haviam tido
a mesma sorte. Talvez esse sentimento tenha transformado sobreviventes em
voluntários, num comovente ato de amor ao próximo.
A dor maior veio com o som do meu
celular tocando no bolso da calça, e eu não tinha forças para atender. Sabia que era a minha família. Queria muito abraçar a todos pela última vez, pedir
desculpas por não ter ficado em casa naquela noite como minha mãe pediu, mas a vontade de me divertir com meus amigos
prevaleceu.
Existia em mim a certeza de
que minha família continuaria ali, intocada, e no outro dia eu estaria com eles
no almoço de domingo. Não imaginei que essa cena familiar nunca mais se
repetiria. Antes de ser carregada ainda pude ver alguns amigos mortos, outros
bem machucados e senti a dor das queimaduras.
Eu virava mais um corpo na
contagem de mortos e assim me despedia daquela vida de tantas expectativas e
ambições. Aquela vida que imaginei que duraria até a velhice para me divertir
com meus netos. Não, não cheguei a conhecer o pai dos meus filhos e nem pude sentir
as contrações de um parto. Na verdade, não vivi muitas coisas que eu tinha
certeza que viveria.
Até então a vida era tão óbvia:
me formaria ainda este ano, trabalharia, encontraria um grande amor, casaria,
teria filhos, netos e morreria velhinha, depois de viver felicidades e
tristezas, vencer algumas doenças e rir bastante da vida. Não que a morte antes
do “meu previsto” havia sido excluída das possibilidades, mas nunca
imaginei encontrá-la em um momento de festa, em que eu estava aparentemente
segura.
Só então percebi que a certeza não
existe. Infelizmente meus pais não chegaram a tempo e tive que ir sem
despedidas. A minha festa e de muitas pessoas acabava ali, antes do que
havíamos planejado e muito antes do que havíamos esperado.
* Esse é um texto fictício. Nem
sempre é preciso viver para sentir, mesmo sabendo que a minha dor nunca chegará
perto de quem vivenciou uma tragédia dessas. Que Deus ilumine as almas das
vítimas e ampare seus familiares.