domingo, 15 de julho de 2012

Uma vaidade destruída

“Não tem como negar que ele era uma pessoa
 muito educada. Uma pessoa que em cinco minutos
de conversa te convence a fazer qualquer coisa”.
Sandra Maria da Mata


Um local um tanto inusitado para a captação do depoimento de uma mulher que sofreu tanto, mas foi em um salão de beleza que escutei Sandra Maria da Mata, mais uma vítima de Rondon. Enquanto fazia mechas no cabelo de uma cliente, Sandra me contou sua história em meio a outras mulheres que se embelezavam.

“Fiz cirurgia plástica em 1996 porque tinha seios muito grandes e estava prejudicando minha coluna”. Aos 23 anos, Sandra foi à procura do cirurgião plástico Alberto Rondon por indicação de uma conhecida que havia recém operado com ele. Já havia visitado três cirurgiões, mas quando conheceu Rondon teve a certeza de que ele seria o melhor, e decidiu pela cirurgia. “Não tem como negar que ele era uma pessoa muito educada. Uma pessoa que em cinco minutos de conversa te convence a fazer qualquer coisa”.

Em menos de um mês após a consulta, Rondon a operou. O preço da cirurgia que Rondon cobrou de Sandra era equivalente ao cobrado pelos médicos que ela visitou anteriormente, em torno de R$2.400,00 e R$2.600,00. Ela revela que não pediu desconto, porém o médico falou que reduziria R$400,00 do valor, cobrando R$2.100,00. “Ele costumava cobrar das mulheres o que elas tinham para pagar. Acho que por medo de perder pacientes”. 

Sandra fez a cirurgia plástica particular na clínica Urgem. Rondon ficou com ela antes da cirurgia para acalmá-la e explicou como seria o procedimento.  Ela conta que foi uma operação normal, com anestesia geral e sem complicações. Todavia, os problemas vieram depois. “Passei um ano de tristeza depois desse dia, uma verdadeira tortura que dura dez anos”. Passado algum tempo que Sandra havia feito a cirurgia, percebeu que seus seios não estavam ficando bonitos como esperava ansiosamente, e viu que algo estava errado.

Voltou várias vezes ao consultório de Rondon e ele sempre falava que era assim mesmo, para ela ter calma e receitava alguns remédios. Sandra revela que se ela já estava com cicatrizes, estas aumentaram depois que Rondon retirou os pontos, pois dava para perceber que ainda não havia cicatrizado. Ela o visitava todos os meses e era atendida normalmente. Porém, Sandra acredita que quando Rondon percebeu que ela não pararia de ir ao seu consultório enquanto não ficasse bem, começou a pedir para a secretaria avisar que estava viajando e que não poderia atendê-la.

Antes de fazer a cirurgia, ela fez todos os exames necessários, e foi o recibo dos exames que Sandra levou como prova para depor contra Rondon. Ela ficou três meses sem trabalhar, mas a cicatriz não doía. Na hora de pegar o recibo da cirurgia, a secretária do médico falou que teria que pegar com ele o documento e Rondon não estava. A cada dia era uma desculpa diferente, foi enrolando até que a clínica fechou e Sandra desistiu do papel.

“Na última vez em que fui procurá-lo, encontrei no consultório uma moça que havia feito uma cirurgia no nariz com Rondon e estava reclamando que o nariz ficou torto, e o médico queria cobrar uma cirurgia corretiva. Ao ver aquela cena, fui embora chorando, pois percebi no que tinha me metido”. Sandra seguiu todas as recomendações que Rondon passou para se cuidar no pós-operatório. Ele aconselhou que ela fizesse os curativos em um posto de saúde, pois eles cuidariam melhor, mesmo assim demorou muito para cicatrizar. Ela conta que, depois de um ano de feita a cirurgia, Rondon queria cobrar uma operação corretiva.
 

domingo, 8 de julho de 2012

Não era azar

“Fiz queixa e descobri que havia quase 300 mulheres na
 mesma situação que eu. Sabendo disso, vi que
 eu não era azarada como estava pensando e
 decidi mostrar para o mundo o que Rondon fez. E mostrei”.
Carmélia Novaes



“Eu tinha os seios enormes, mas gostava deles”. Foi com essas palavras que Carmélia começou a me contar sua história. Na verdade ela preferia enterrar esse assunto e não ficou contente quando eu propus que ela voltasse ao passado, mais precisamente ao ano de 1998, quando fez a cirurgia plástica que mudou sua vida.

Carmélia precisava levar a filha que sofre de glaucoma - uma doença que causa a perda total da visão - para fazer tratamento com vários médicos. Costumava viajar para São Paulo em busca de tratamentos e, nessas idas e vindas a consultórios, Carmélia sentia muitas dores nas costas e decidiu procurar um ortopedista. Por recomendação do especialista, ela precisou perder doze quilos. Mesmo assim a dor na coluna continuava. O médico alertou que deveria ser problema de mamas, pois seus seios eram muito grandes. “Minha cirurgia não foi estética, foi reparadora”.

Ela pesquisou os cirurgiões plásticos e todos eram muito caros. Foi então que ouviu, onde trabalhava, que o Previsul – Instituto de Previdência Social de Mato Grosso do Sul – hoje atual Cassems – Caixa de Assistência ao Servidor do Estado de Mato Grosso do Sul – estava fazendo cirurgias plásticas reparadoras. Carmélia conta que tinha três amigas que haviam operado com Alberto Rondon e estas disseram que estavam ótimas. Ela desabafa dizendo que não entendia nada de cirurgia plástica, pensava que era tudo muito simples, que era só ir para a mesa de cirurgia, que o médico iria retirar o excesso e pronto, depois de 30 dias estaria ótima, mas confessa que não aconteceu nada disso. “Cirurgia plástica é uma cirurgia perigosa. Tem que ter cuidado e eu tive todos os cuidados que o médico mandou ter”.

Quando Carmélia procurou Alberto Rondon, o médico explicou-lhe que era preciso pagar R$500,00 a ele e mais o anestesista. “No final das contas, ficou como se fosse particular a cirurgia, pois ele estava ganhando o dinheiro do Previsul mais o meu”. Quando Carmélia foi marcar a cirurgia, pressentiu que não devia operar, mas o médico ficou insistindo, telefonou para ela, insistiu que fizesse e garantiu que não havia perigo, que iria ficar ótimo, e Carmélia decidiu fazer. “Se eu não me engano, foi no dia 11 de junho de 1998 que eu operei”.

Na hora da anestesia Carmélia começou a passar mal, não conseguia respirar. Ela entrou cinco horas da tarde na sala de cirurgia e saiu às nove da noite. Ela acredita que algo de errado aconteceu, pois passou muito mal durante a noite toda. No outro dia, a enfermeira pediu para Carmélia se levantar e ir ao banheiro para retirar os panos e fazer curativo. A paciente se impressionou com a quantidade de sangue que escorria de seus seios e não entendia por que uma plástica sangrava tanto. Ela relata que as costuras eram enormes e iam de uma axila à outra. “Costuras parecidas com alinhavos e vi que eu tinha ficado reta, ele tirou quase toda a minha mama. Como eu era gordinha, minha barriga destacou”.

“Eu já não estava gostando do tamanho dos meus seios, por terem ficado muito pequenos, mas Rondon avisou que estava cedo para ver o resultado e que depois voltaria ao normal. O músculo voltaria ao normal. Ele dizia que tudo ia voltar ao normal. E eu fui deixando passar”.