"Minha filha mamou em mim durante um ano e oito meses...
é uma benção de Deus uma mãe amamentar um filho,
e Rondon tirou isso da minha filha".
Silvia Aparecida Lacerda
e Rondon tirou isso da minha filha".
Silvia Aparecida Lacerda
O caso de um grande número de mulheres lesadas há anos, por um suposto cirurgião plástico, foi levado à tona no dia 12 de abril de 1999. Mulheres que foram vítimas de um profissional irresponsável, que se passava por cirurgião plástico, mas que na verdade não tinha essa especialidade. As vítimas, com receio e vergonha do que lhes havia acontecido, não buscaram uma solução, guardaram para si suas tristes cicatrizes. Porém, uma mulher não quis aceitar ver a filha de apenas 16 anos nessa situação, e, junto com uma colega de trabalho, foi denunciar o médico Alberto Rondon.
Ao ligar para Silvia, mãe de uma adolescente vítima da imprudência de Alberto Rondon, ela avisou que ajudaria no que fosse preciso, mas que sua filha não daria nenhuma entrevista. É nessa hora que se percebe como isso afetou a vida das pessoas, como a dor continua presente apesar dos anos, como as cicatrizes ainda incomodam. Com certeza foi respeitado seu pedido. Marcamos um encontro e tivemos uma longa conversa. E nesta conversa, percebi que tinha encontrado o começo de tudo.
Sua filha fez uma cirurgia plástica para redução de mamas no dia 04 de agosto de 1998, quando tinha recém completado 16 anos. Ela sentia muitas dores nas costas e foi a um ortopedista para saber o motivo das dores. O ortopedista a encaminhou para um cirurgião plástico, alegando que o volume dos seios da menina estava prejudicando sua coluna. Nesta data, só havia o médico Alberto Jorge Rondon de Oliveira credenciado como cirurgião plástico no convênio médico que atendia a sua família, o Previsul – Instituto de Previdência Social de Mato Grosso do Sul - atual Cassems – Caixa de Assistência dos Servidores do Estado de Mato Grosso do Sul. “Uma menina de 16 anos não teria por que fazer uma cirurgia estética, é muito nova para isso”, completa Silvia.
Ao fazer uma consulta com Alberto Rondon, ele confirmou que era necessário fazer uma cirurgia para diminuir os seios. Silvia acreditou. Ela não teve dúvidas quanto ao médico por ele ter sido deputado e por ela ter trabalhado na Assembléia Legislativa no período em que ele exerceu o cargo. Silvia o considerava uma pessoa educada, que não iria fazer algo para difamar a imagem política que carregava. “Eu jamais imaginei que um homem famoso, que tinha de zelar pelo nome, até pelo fato de ser político, que era credenciado como cirurgião plástico em vários convênios, iria fazer o que ele fez”. De acordo com Silvia, como Rondon era o único cirurgião plástico do Previsul, para ela não havia outra opção. O convênio não cobria cirurgias estéticas, somente para correção. No entanto, Rondon disse que teria que pagar um valor a mais para o anestesista, o que lhe custou em torno de R$500,00. A operação foi feita na clínica Urgem, localizada na rua 14 de julho.
A cirurgia da filha demorou muito tempo, enquanto isso Silvia ficou rezando. A mãe ficou impressionada quando a enfermeira lhe mostrou a quantidade de tecido que o médico havia tirado da adolescente. “Eram pedaços da minha filha jogados no lixo”. Neste momento, Silvia percebeu que o médico tirou quase todo o seio da filha. A enfermeira falou que eram glândulas mamárias e isso deixou Silvia mais preocupada ainda.
No dia seguinte, a mãe foi fazer o curativo na filha, como o médico pediu, e relatou que era preciso tirar as ataduras - um pano sujo de sangue – e depois dar um banho na menina, jogando bastante água e sabão. Quando Silvia tirou as faixas que estavam enroladas ao corpo da filha, assustou-se ao ver como sangravam os seios dela enquanto jogava água. “Eu fui ficando tão mal em ver aquilo...”. Antes da cirurgia, Silvia ficou por duas horas conversando com Rondon para certificar-se que não iria causar nenhum dano a sua filha, deixar cicatrizes, e o médico garantiu a ela que a cirurgia seria simples, até desenhou no papel que o corte seria pequeno e em formato de âncora. Quando Silvia tirou as faixas da filha e viu tantos pontos, um corte enorme de uma axila a outra e os mamilos todos recortados, tentou ser forte na hora, mas sua filha percebeu seu espanto e perguntou por que a mãe estava daquele jeito.
Silvia pediu para que a enfermeira ficasse com a filha e saiu do quarto dizendo que iria arrumar a roupa dela. “Eu não estava agüentando ficar ali, estava me segurando para não chorar, pois já tinha visto que a operação havia sido um horror”. Rondon havia deixado a adolescente sem seio, nem o formato dos seios havia restado à garota. A mãe foi até a direção da clínica e pediu para falar com Rondon, mas a secretária – que se tornou esposa dele tempos depois – disse que ele não iria atendê-la. Silvia falou que se o médico não aparecesse imediatamente ela iria chamar a imprensa e denunciá-lo ali mesmo.