“Eu fui bem sucedida na operação,
não tive nenhuma rejeição”.
Aida Novaes Brites
Aida ficou surpresa com minha ligação e mais ainda quando cheguei ao seu apartamento em um sábado à tarde. Não entendia como eu tinha conseguido o número de seu telefone, um celular que ela havia comprado há dois meses. Isto faz parte do jornalismo investigativo, e é o que tanto me fascina. Buscar informações de maneiras pouco convencionais, como uma longa e incansável pesquisa no 102. Com um pouco de receio em desenterrar o acontecimento, Aida começou a me contar sua história.
“Eu tive displasia mamária - aumento da sensibilidade, do volume e aparecimento de pequenos nódulos nas mamas. Depois que tive filhos, meus seios ficaram muito grandes e quando o leite secou, ficou um monte de pele sobrando”. Foi quando Aida ficou sabendo que o médico Alberto Rondon estava fazendo cirurgias plásticas por um preço acessível e viu a possibilidade de consertar algo que a incomodava. “Não foi de graça, eu paguei pela cirurgia. Paguei hospital, médico, anestesista. Tudo particular. Foi presente de natal”.
Ela fez a consulta e avisou ao médico que só queria que ele retirasse as peles que estavam sobrando. Ao total foram quase 500 gramas de pele. Aida entrou no centro cirúrgico à noite e foi liberada no outro dia à tarde. Ficou 24 horas na clínica e foi para casa normalmente. “Eu fui bem sucedida na operação, não tive nenhuma rejeição”. Ela retornou à clínica com quinze dias para o médico retirar parte dos pontos. Rondon olhou e disse que estava tudo bem. Depois, com mais vinte dias foi retirado o restante.
Quando Aida chegou ao hospital no dia da cirurgia, foi levada pela enfermeira ao centro cirúrgico antes mesmo de ver Rondon. Ela perguntou pelo médico e a enfermeira disse que ele estava a caminho. Até hoje, Aida não tem certeza de que foi ele mesmo que a operou. “Tomei uma anestesia e acordei no outro dia”. A paciente só viu o médico no dia seguinte, quando ele foi conversar com ela e pediu para que retornasse à clínica após 15 dias. Em depoimento na delegacia, a delegada questionou Aida quanto a essa informação, pois ela não poderia depor contra o médico se não tinha certeza de quem a operou. “Mas eu paguei para ele, se foi ele ou não o cirurgião eu não tenho como saber, pois logo que entrei na sala de cirurgia me sedaram”. A paciente afirma que não viu Rondon entrando e nem saindo da sala, mas, de qualquer forma, a responsabilidade é dele.
Aida explica que, para ela que estava com os seios caídos aos 24 anos de idade, foi ótimo. Porém, ela só o procurou – na clínica Urgem, localizada na rua 14 de julho - porque acreditava que ele era cirurgião plástico. Aida não tinha conhecimento sobre quem era Alberto Rondon e acreditou no que os outros falaram, não procurou se informar melhor. Logo que apareceram as matérias sobre as pacientes de Rondon que ficaram deformadas, ela ficou chocada e percebeu o perigo que correu.
As mulheres vitimadas encontraram-na pelo registro no hospital e pediram que Aida fosse depor contra Rondon na delegacia, para ajudar no movimento, mas ela falou que não tinha o que depor contra o médico, pois não tinha ficado com seqüelas como as outras. Mesmo assim, foi à delegacia para depor e ser solidária, mas não levou adiante. Perguntaram se ela gostaria de fazer a cirurgia reparadora, pois ficou com algumas cicatrizes, parecidas com quelóide, mas Aida não quis se submeter a outra cirurgia.
“Hoje eu percebo que uma das coisas que Rondon fez de errado foi não pedir que eu fizesse repouso”. Quando ela retirou os pontos, ele falou que estava tudo bem e só. Aida não fez as atividades de costume porque sentia muitas dores ao se movimentar. Rondon não a ensinou fazer o curativo e nem a alertou sobre o risco de estar levantando o braço para pentear o cabelo, para tomar banho. Depois de algum tempo, ficou com uma marca da largura de um dedo em um lado do seio e uma cicatriz do outro, porém ela admite que faltou informação de sua parte: “A princípio, eu achei que a culpa era minha, que eu tinha ficado com as cicatrizes por não ter feito o repouso necessário, mas depois tive a certeza de que o erro era do médico, que não era o profissional que se dizia ser”.
Depois de muito tempo, Aida fez uma cirurgia no abdômen. O médico que a operou viu seus seios e explicou que a técnica cirúrgica usada por Rondon estava correta. Porém, ele não havia deixado espaço suficiente para que a mama descesse, que é a tendência natural, e isso fez a pele esticar demais, formando as cicatrizes.
Ela não queria se expor, só participou da denúncia para ajudar as outras mulheres. Aida não estava preparada para entrar em outro centro cirúrgico para reparar o que Rondon havia feito, mas confessa que se tivesse ficado como as outras, com cicatrizes enormes, com certeza teria ido atrás de uma reparação. Hoje ela está bem. O acontecimento não lhe afetou psicologicamente em nada e a cirurgia foi um benefício, levando em consideração a situação em que se encontrava e sabendo que o médico não era um profissional qualificado, o que colocara sua vida em risco.
Aida ficou nervosa quando soube do caso, pois percebeu que confiou sua vida às mãos de uma pessoa que não tinha a especialização necessária para operar e a iludiu. Ela considera a atitude de Rondon desonesta, pois pagou para correr risco de vida e agradece a Deus por não ter ficado com seqüelas maiores. “Imagine se eu, aos 24 anos, fizesse uma cirurgia para ficar melhor com meu marido e acontecesse uma tragédia dessas?” Ela sente muita pena das mulheres que também foram vítimas da irresponsabilidade do médico, pois nem todas conseguiram reparar o erro que Rondon deixou marcado em suas vidas.
7º Capítulo do Livro-reportagem
"Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon"