sábado, 22 de dezembro de 2012

Um arrependimento que incomoda

“Eu não denunciei Rondon antes de estourar
 o caso porque fiquei constrangida com a situação,
 e acredito que as outras mulheres pensaram igual”.
Romilda Roque dos Santos



Já ao telefone percebi que Romilda tinha muito o que contar e marcamos um encontro. Fui muito bem recebida por ela e o marido, que demonstrou ter sido um companheiro muito atencioso durante os piores dias da vida da esposa. Não que agora ela esteja totalmente bem, mas em suas lembranças ficaram momentos terríveis.

“Fiz a cirurgia plástica nas mamas no dia sete de abril de 1998”. Como a maioria das mulheres que foram pacientes de Rondon, Romilda tinha os seios muito grandes, o que a prejudicava. “Meu seio era tão grande que quando eu colocava o sutiã, a alça ficava cortando meus ombros”. Dois ortopedistas a aconselharam a fazer a redução das mamas, e ela ouviu dizer que Alberto Rondon era um cirurgião plástico muito bom e cobrava preços acessíveis a pessoas de nível social como o dela.

Resolveu procurá-lo. Ela sabia onde era a clínica de Rondon, Urgem, na rua 14 de julho, e não procurou outros médicos por saber que não teria condições financeiras para pagar. Romilda fez a cirurgia pelo convênio do Previsul, mas, assim como as outras vítimas, precisou pagar R$500,00 para o anestesista. No entanto, ela ressalta que o ortopedista que recomendou a redução das mamas – que trabalhava na clínica de Rondon - , avisou que ela teria de emagrecer primeiro, ele não a aconselhava fazer uma cirurgia com o peso que estava.

Na consulta que Romilda fez com Rondon, em nenhum momento ele falou que ela precisava emagrecer. Ao contrário, o médico apressou-a para levar as guias ao Previsul para autorizá-las no mesmo mês, avisando que no mês seguinte o convênio não estaria mais autorizando. O marido dela fez o que Rondon aconselhou e logo Romilda fez a cirurgia. “Quando meu marido foi pagar com cheque os R$500,00 do anestesista, Rondon não aceitou, disse que precisava ser pago em dinheiro”.

Quem ficava responsável pela cobrança era a secretária dele, Renata. De acordo com o marido da vítima, Renata que agilizava tudo e apressava a marcação de horários para cirurgia.
 
A cirurgia começou às 18horas. “Eu passei muito mal e fiquei com medo de morrer”. Romilda conta que o efeito da anestesia acabou durante a cirurgia e ela começou a sentir muita dor. Depois, não sentia mais o braço esquerdo. Passou mal durante a noite toda no centro cirúrgico e só no outro dia conseguiu sentir sua mão. “Um centro cirúrgico péssimo. Eu só conheci o local na hora em que fui operar, e se conhecesse antes, acho que não operaria”. Ela revela que era precário em questão de higiene e aparelhagem.

“Rondon tirou todo o meu seio, fiquei reta”. O marido de Romilda lembra do médico contando que tirou três quilos e cem gramas de mamas de sua esposa. No dia seguinte, deram alta do hospital a Romilda à tarde e ela foi para casa. À noite, começou a passar muito mal e o marido a levou na clínica Urgem à procura de Rondon.

O médico não estava e um enfermeiro os atendeu, mas não conseguiu localizar Rondon; aplicou uma injeção para tirar a dor, e Romilda foi para casa, embora ainda sentisse dores. Os seios começaram a inchar de uma forma que, de acordo com Romilda, parecia que os pontos iam estourar e ela precisou ir a um posto de saúde às pressas. O corte da cirurgia chegava nas costas, quase uniu os dois lados e a vítima chorava muito.

Ao retornar à clínica para retirar os pontos, Romilda contou a Rondon o quanto passou mal após a cirurgia, e ele falou que era assim mesmo, e perguntou se ela estava fazendo os curativos da maneira correta. Com o tempo, Romilda foi percebendo que não estava ficando bom e ela o procurou novamente, mas não conseguia mais encontrá-lo. O que lhe restou foi fazer os curativos no posto de saúde, que foi a sua salvação.

Ela ficou durante três meses indo ao posto, até que os cortes cicatrizassem. “Todos que viam meus seios, achavam um absurdo”. Nas orientações do pós-operatório que teve de Rondon, ele pediu que ela molhasse bastante e lavasse com sabonete os cortes. No posto, eles se assustaram com essa recomendação e a proibiram de molhar, porque os pontos iriam apodrecer. “Perdi a sensibilidade em um dos meus seios”.

Quando foi tirar os pontos, Romilda lembra que enquanto estava sentada esperando sua vez chegar, presenciou uma cena em que a secretária dele, Renata, em uma ligação, falava irritada que, se fosse determinada pessoa ela não iria atender, porque a mulher já havia feito cirurgia há oito meses e ainda queria fazer retorno. Renata ficou muito brava, e Romilda disse ter percebido que a mulher que queria ser atendida não era de Campo Grande. Hoje, Romilda imagina que a mulher devia estar sofrendo como ela sofreu. Renata ficava um cargo acima da secretária. Romilda explica que primeiro era preciso falar com a secretária, depois com Renata, e só então conseguia chegar a Rondon.

A descoberta da farsa de Rondon aconteceu pelo fato do marido de Romilda trabalhar como segurança na Assembléia Legislativa e, certo dia, viu uma movimentação de mulheres no local e foi verificar o motivo do alvoroço. As mulheres estavam se unindo para denunciar o suposto cirurgião plástico Alberto Rondon. Logo após presenciar essa cena, eles já tiveram notícias através da televisão.

“Eu não denunciei Rondon antes de estourar o caso porque fiquei constrangida com a situação, e acredito que as outras mulheres pensaram igual”. Romilda desabafa que foi muito vergonhoso perceber que foi enganada desse jeito, e quando finalmente uma mulher tomou coragem de denunciar, as outras se uniram. Ela conta que na época em que Rondon foi denunciado, uma mulher deu entrevista falando que a cirurgia dela havia ficado maravilhosa, contudo Romilda acredita que ela recebeu dinheiro para dizer isso.

Para todas as mulheres, Rondon usava a desculpa de que retirou quantidade de seio a mais do que o pedido pelo fato da paciente apresentar nódulos. Ele falava que enviaria os nódulos para exame, mesmo achando que não eram malignos, porém os exames nunca foram realizados. “Eu fazia exames periódicos com meu ginecologista e meu médico numa percebeu a presença de nódulos”. Rondon fez um corte em Romilda que, por muito pouco, não deu a volta em todo o corpo dela; as cicatrizes acabam nas costas. “Ficou um caroço”. Ela não pode usar mais sutiã porque machuca, e de um lado do corpo precisou fazer enxerto.

Um ano após a cirurgia feita com Rondon, a equipe de médicos veio a Campo Grande pela segunda vez e Romilda fez a cirurgia reparadora. Ela explica que não passou mal durante a cirurgia, colocou prótese, a cicatrização foi boa, mas continua com cicatrizes. O médico que a operou avisou que para melhorar 70%, é preciso fazer mais duas cirurgias. “Hoje, se me chamassem para fazer outra eu não iria de jeito algum, só faço outra cirurgia se for caso de vida ou morte”.

Na última vez em que foi ao consultório de Rondon, a filha de Romilda a acompanhou e acabou discutindo com o médico, revoltada com a displicência dele. Ele, ironicamente, disse que Romilda estava bem, pois tinha uma filha quase médica. A filha avisou que iria ao CRM denunciá-lo e o médico falou que podia ir, chegou a perguntar se ela queria que ele desse o endereço. “Nunca mais voltei lá”.

Até hoje Romilda sofre de depressão, mas nunca foi ao médico para tratar disso. Ela recebeu um comunicado da Coordenadoria oferecendo acompanhamento psicológico, entretanto não foi atrás por falta de tempo. “Tenho muitos afazeres, cuido da minha mãe, não tenho como ficar saindo de casa”. Romilda conta que chora por qualquer motivo e o que mais a aborrece é não poder dormir apoiada no lado esquerdo do corpo, pois a dor do braço a incomoda.

Ela não iria conversar comigo, pois esse é um assunto que a machuca muito, considera-o revoltante, mas quis me ajudar. Ela explica que as mulheres ficaram desanimadas porque foram chamadas para dar entrevistas e agora está tudo silenciado, ninguém fez mais nada por elas. Ela chegou a participar da gravação do programa Linha Direta. “Foi muito grave. Rondon estava fazendo e vendo que estava tudo errado. Será que ele sentia prazer em fazer tudo o que fez?”

Hoje Romilda não espera uma melhora estética, porque não tem mais coragem de fazer nada, ficou com trauma de cirurgia, mas acredita que todas as vítimas merecem uma indenização. “Sofremos tanto, nos expomos, foi muito constrangedor”. Ela acha que a ganância por ganhar dinheiro fez com que Rondon fizesse tudo isso e a justiça precisa dar atenção a esse caso.

Romilda sabe que Rondon não vai pagar indenização para todas as mulheres, mas quer que alguém se responsabilize por isso e sabe que o Estado tem parte nisso, por não ter fiscalizado o que estava acontecendo. “Rondon foi cassado, mas não basta. E a situação de todas as mulheres? Meu arrependimento é enorme”.
 
7º Capítulo do Livro-reportagem 
"Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon"

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