“Eu ainda não era mãe e uma das minhas preocupações
era a de não interferir nas glândulas mamárias,
e Rondon falou para eu ficar tranqüila que não iria prejudicar em nada.
Resultado, tive de amamentar meus filhos com leite em pó solúvel”.
América Marques Farias
Foi num dia frio e chuvoso de inverno que conheci América Marques Farias. Mais uma mulher com o sonho, aparentemente tão simples para alguns, de fazer uma cirurgia plástica nos seios. A princípio, queria se livrar das dores na coluna, causadas pelo grande volume das mamas. Depois gostaria de ver seus seios durinhos, moldados, como aqueles das modelos de revista e televisão. Tantas mulheres podem, por que América não poderia?
“Meus seios eram muito grandes e por isso minha coluna doía demais. Meu sonho era tirar um pouco do excesso, e ficar com eles durinhos”. E procurando na lista de médicos da Unimed, América encontrou o nome de Alberto Rondon junto ao dos cirurgiões plásticos, e simpatizou com ele. Fez a primeira consulta, pegou a guia para autorização da cirurgia na Unimed e, em um mês, estava fazendo a operação, na clínica Urgem.
No dia 27 de janeiro de 1990, às 23 horas, foi realizada a cirurgia plástica de redução de mamas em América. Quando ela chegou para a operação, Rondon estava a sua espera. Minutos antes, uma adolescente que havia feito cirurgia com ele tinha passado muito mal. Sabendo disso, os parentes de América pediram a ela que não operasse, mas já estava tudo pronto e ela não quis desistir. Ocorreu tudo bem na cirurgia, Rondon retirou 700 gramas de cada seio e alguns nódulos que encontrou.
No dia seguinte, América começou a sentir-se mal, desmaiou e precisou ficar três dias internada. “Rondon me deu alta e receitou um remédio para acabar com a dor. Aconselhou que eu não levantasse o braço e nem penteasse o cabelo por dois meses. Fiz todo o repouso que ele mandou”.
No dia seguinte, América começou a sentir-se mal, desmaiou e precisou ficar três dias internada. “Rondon me deu alta e receitou um remédio para acabar com a dor. Aconselhou que eu não levantasse o braço e nem penteasse o cabelo por dois meses. Fiz todo o repouso que ele mandou”.
“Depois que cicatrizaram os cortes, estava horrível e voltei ao consultório”. O médico pediu que ela esperasse mais algum tempo que normalizaria. Aos 29 anos, América não tinha mais sensibilidade nos seios e Rondon avisou que seria só no começo, depois voltaria ao normal. O tempo foi passando, a cicatriz piorou, o bico do seio foi costurado torto e um seio ficou maior que o outro. “Eu ainda não era mãe e uma das minhas preocupações antes da cirurgia era a de não interferir nas glândulas mamárias, e Rondon falou para eu ficar tranqüila, pois não iria prejudicar em nada. Resultado, tive de amamentar meus filhos com leite em pó solúvel”.
Quando América teve o primeiro filho, a médica obstetra que viu as cicatrizes nos seios dela se assustou tanto que ficou com medo de costurar a cesárea. No entanto, a costura ficou perfeita, a única marca que aparece é um risco insignificante.
A família de América não quis que ela voltasse a procurar Rondon, e não entrou com processo contra o médico por medo de se expor. Quando estourou o caso e todas as mulheres entraram na justiça, América se uniu a elas. “Entrei com processo contra ele e contra a Unimed, pois ela deveria ter fiscalizado se Rondon realmente era especialista”.
“Fiz a cirurgia plástica para ficar bonita e fiquei horrorosa. Agora não consigo colocar biquíni e até para fazer exame de mama, o médico e a enfermeira que olham se espantam com a cena”. Em 2000, América fez a cirurgia reparadora com a equipe de médicos que veio a Campo Grande, e considera que melhorou um pouco a situação. “Se Rondon não era cirurgião plástico ele não devia ter feito nenhuma cirurgia, era só ter contratado algum especialista para trabalhar na clínica dele”.
Quando América entrou com o processo contra o médico, já estava separada do marido. A causa da separação: brigas diárias. Ele reclamava que tinha medo de abraçá-la, pois só de passar a mão em seus seios dava para sentir os nódulos. “Ficamos por um tempo separados e hoje estamos juntos, mas não é como no começo. Muita coisa aconteceu, eu fiquei deprimida, engordei... são as conseqüências”. Ela explica que é comum o braço inchar e doer, como se o médico tivesse repuxado um nervo.
Até hoje América não teve nenhuma audiência, porque é preciso fazer mais uma perícia com os médicos da Unimed e ainda não foi chamada. Ela ficou sabendo que a Unimed quer que o Estado pague a perícia e este não quer pagar, por isso está demorando tanto. “Acredito que existe um erro de ambas as partes, da Unimed e do médico, porque ele não era especializado para exercer tal prática e a Unimed deveria fiscalizar”.
América espera que a justiça seja feita e precisa de dinheiro para fazer uma nova cirurgia. “Quero consertar o que falta”.
7º Capítulo do Livro-reportagem
"Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon"
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