quarta-feira, 26 de junho de 2013

Por dentro do centro cirúrgico


Eu ficava triste por Rondon ser uma pessoa simpática
 e deixar as pacientes sofrendo, gemendo de dor”.
Eliane Teixeira Delmondes
           


A procura por alguém que trabalhou com Alberto Rondon era fundamental para o livro. Ninguém melhor do que esse personagem para dizer o que acontecia de diferente ou estranho no centro cirúrgico, se é que acontecia. Depois de um bom tempo procurando, descobri que a pessoa estava mais perto do que eu imaginava: trabalhava com minha irmã. Coincidências à parte, fui ouví-la o quanto antes.

“Eu trabalhei como instrumentadora de Alberto Rondon na Clínica Campo Grande...” começou Eliane. Ela conta que Rondon fazia cirurgias plásticas somente aos sábados na clínica por não ser conveniado à empresa, e pagava um pacote para poder operar. Rondon levava o anestesista José Tadashi Sugai e tinha Eliane como instrumentadora.

Nas cirurgias de Rondon, a instrumentadora relata que o médico sujava muito o centro cirúrgico, deixava sangue espirrar nas paredes e na roupa deles. Ela explica que quando acontece de romper um vaso sanguíneo, é feita a cauterização, ou seja, na hora o vaso é queimado com um bisturi para estancar o sangramento. Porém, Rondon não procedia dessa forma, deixava o sangue esguichar até o fim da cirurgia. “É perigoso. O paciente pode entrar em choque e acarretar danos”. Eliane revela que nunca questionou esse ponto, pois, dependendo do médico, um comentário desses pode causar demissão, entretanto comentava com as colegas de trabalho que o fato era muito estranho.

Eliane instrumentou para Rondon durante oito meses e as enfermeiras da clínica o conheciam há pouco tempo. A instrumentadora lembra que no tempo em que trabalhou lá, uma menina de aproximadamente 16 anos voltou para corrigir uma cirurgia feita por ele. Quando a menina tirou a blusa, tinha uma cicatriz imensa embaixo do seio dela, como se fosse uma quelóide. O médico a levou para o centro cirúrgico e tirou um pouco da cicatriz, mas sempre falando que a marca era reação do organismo dela que não se adaptou à cirurgia e, com o passar do tempo, desapareceria. 

Uma colega de trabalho de Eliane fez cirurgia plástica com Rondon, mas nunca voltou para mostrar como ficou. A instrumentadora sempre teve vontade de encontrá-la para saber se houve alguma sequela.

domingo, 16 de junho de 2013

Lembranças de um paredão

“Imagine você em um paredão: sem roupa,
gorda, com seus seios feios e dez médicos
 na sua frente, olhando para você”.
Silvia Regina Cassano Monteiro


O desejo de mudança, de tornar-se mais atraente, tanto para o homem como para si mesma, está presente em todas as mulheres e chama-se vaidade. Ao ser mãe, a mulher sofre mudanças em seu corpo, muitas vezes desfavoráveis aos padrões de beleza cobiçados, e com Silvia Regina Cassano Monteiro não foi diferente. Aos 34 anos, depois de dar a luz a dois filhos, os seios que já eram grandes, aumentaram de tamanho.

“Meu sonho era fazer uma cirurgia plástica, eu queria diminuir meus seios”. Uma mulher comentou com Silvia que o cirurgião Alberto Rondon parcelava o valor da cirurgia em três ou quatro vezes, e isso a interessou. Ela decidiu operar com Rondon por causa do valor cobrado - equivalente a R$3.500,00 a R$4.000,00 em valores atuais - e pelo fato de o médico ter um sobrenome famoso.

Silvia recorda que a cirurgia foi realizada na clínica Urgem, no período da noite, mas não lembra a data, acredita que foi no ano de 1995. Fez todos os exames pela Unimed, mas a cirurgia foi particular, pois o convênio não cobria quando relacionado à estética. Realizada a operação, surgiram os problemas. Com uma semana, foi ao consultório retirar alguns pontos e Rondon receitou uma pomada para a cicatrização. As marcas da cicatriz não desapareciam e ela retornava ao consultório do médico toda semana, e ele sempre a acalmava. “Só ele achava que estava ficando bom”. Depois de algum tempo, o médico não quis mais atendê-la e nada havia voltado ao normal, como o prometido.

“Rondon era muito doce”. Silvia conta que o médico tinha respostas para tudo, de uma maneira que a convencia e acalmava. Ele falava que bastava passar pomada nos cortes que a cicatriz iria desaparecendo com o tempo. A paciente já havia passado muitas pomadas, mas não via melhora, então, retornava ao consultório de Rondon e ele explicava que o tratamento era demorado. Um dia Silvia cansou de procurá-lo, parou de ir ao consultório e agradeceu a Deus por não ter infeccionado os pontos. Não houve infecção, mas ficaram cicatrizes grossas. “Parece que ele colocou o bico do seio em qualquer lugar e costurou”. A paciente revela que a secretária dele era muito convincente e, na clínica, não deixavam as mulheres juntas por muito tempo.