“Imagine você em
um paredão: sem roupa,
gorda, com seus
seios feios e dez médicos
na sua frente, olhando para você”.
Silvia Regina Cassano
Monteiro
O desejo de mudança, de tornar-se
mais atraente, tanto para o homem como para si mesma, está presente em todas as
mulheres e chama-se vaidade. Ao ser mãe, a mulher sofre mudanças em seu corpo,
muitas vezes desfavoráveis aos padrões de beleza cobiçados, e com Silvia Regina
Cassano Monteiro não foi diferente. Aos 34 anos, depois de dar a luz a dois
filhos, os seios que já eram grandes, aumentaram de tamanho.
“Meu sonho era fazer uma cirurgia
plástica, eu queria diminuir meus seios”. Uma mulher comentou com Silvia que o
cirurgião Alberto Rondon parcelava o valor da cirurgia em três ou quatro vezes,
e isso a interessou. Ela decidiu operar com Rondon por causa do valor cobrado -
equivalente a R$3.500,00 a R$4.000,00 em valores atuais - e pelo fato de o
médico ter um sobrenome famoso.
Silvia recorda que a cirurgia foi
realizada na clínica Urgem, no período da noite, mas não lembra a data,
acredita que foi no ano de 1995. Fez todos os exames pela Unimed, mas a
cirurgia foi particular, pois o convênio não cobria quando relacionado à
estética. Realizada a operação, surgiram os problemas. Com uma semana, foi ao
consultório retirar alguns pontos e Rondon receitou uma pomada para a
cicatrização. As marcas da cicatriz não desapareciam e ela retornava ao consultório
do médico toda semana, e ele sempre a acalmava. “Só ele achava que estava
ficando bom”. Depois de algum tempo, o médico não quis mais atendê-la e nada
havia voltado ao normal, como o prometido.
“Rondon era muito doce”. Silvia conta
que o médico tinha respostas para tudo, de uma maneira que a convencia e
acalmava. Ele falava que bastava passar pomada nos cortes que a cicatriz iria
desaparecendo com o tempo. A paciente já havia passado muitas pomadas, mas não
via melhora, então, retornava ao consultório de Rondon e ele explicava que o
tratamento era demorado. Um dia Silvia cansou de procurá-lo, parou de ir ao
consultório e agradeceu a Deus por não ter infeccionado os pontos. Não houve
infecção, mas ficaram cicatrizes grossas. “Parece que ele colocou o bico do
seio em qualquer lugar e costurou”. A paciente revela que a secretária dele era
muito convincente e, na clínica, não deixavam as mulheres juntas por muito
tempo.
Após a cirurgia, Silvia engordou 40
quilos devido a depressão. No ano passado, ela chegou a pesar 120 quilos e
submeteu-se à cirurgia de redução do estômago. “A frustração causou isso. Você
faz algo para melhorar e, de repente, fica pior do que estava. Apesar de tudo,
eu tive muita sorte”. Ela nunca imaginou que Rondon não fosse cirurgião plástico.
“Um médico super gentil, um homem bem apessoado, educado, com uma voz mansa.
Como desacreditar de alguém assim? Não tinha nexo perguntar se ele era
cirurgião plástico, pedir o certificado para comprovar, era algo óbvio. Ninguém
iria perguntar, porque até o momento não havia do que desconfiar”.
Ela indigna-se ao pensar
que, antes dela, Rondon já havia operado várias mulheres e ninguém teve coragem
para contar nada. “Só estourou o caso porque a última mulher que ele operou
quase morreu, ficou toda cortada, uma coisa horrível”. Silvia lamenta-se e
afirma que se a primeira mulher tivesse relatado o seu drama, não aconteceria
com outras e teria sido evitada a tragédia.
Na época, Silvia não tomou
nenhuma atitude em relação ao insucesso da cirurgia por não considerar muito
grave e por Rondon ser, além de um médico bem conceituado, um político.
“Poderia não dar em nada, como não deu até hoje. Meu marido disse que iríamos
gastar dinheiro e não aconteceria nada com ele”. E revela que é muito difícil
tomar a atitude de se abrir, e admira a primeira mulher que tomou essa decisão.
“Ela devia estar muito desesperada”.
Um grupo de mulheres
entrou em contato com Silvia para pedir que ela participasse do movimento e
entrasse com processo contra Rondon. O primeiro passo foi ir à Delegacia da
Mulher para registrar um boletim de ocorrência e depois ao IML – Instituto
Médico Legal - para fazer exames. “Foi aparecendo mulher de todo canto, algumas
com cicatrizes terríveis no olho, nariz. Vi todo tipo de problema, alguns sem
correção”.
Quando a equipe médica
veio a Campo Grande para realizar as cirurgias reparadoras, Silvia explica que
as mulheres precisaram ir ao IML para tirar fotos, nuas. “Foi muito brutal.
Talvez por isso muitas não quiseram entrar com processo contra o médico. É
constrangedor um monte de médicos te olhando, colocando a mão em você”. Ela
revela que nunca vai esquecer da cena. “Não sei qual foi o pior, se a cirurgia
com Rondon ou se foi estar lá, junto a várias mulheres deformadas, entrando uma
de cada vez em uma sala para os médicos examinarem – 10 ou 12 médicos – e eles
levantavam seus seios, seus braços”.
Só de recordar, Silvia
desespera-se e desabafa que nunca chorou tanto na vida. Ela entrou e saiu do
exame chorando. Considera o que aconteceu uma violação, uma agressão maior que
a cirurgia. “Imagine você em um paredão: sem roupa, gorda, com seus seios feios
e dez médicos na sua frente, olhando para você”.
Todas as vezes que os
médicos vinham para a cidade, eles avisavam que ela precisava emagrecer 20 quilos
para poder fazer a cirurgia. Em nenhuma das vezes Silvia pôde operar. “Eu não
conseguia emagrecer, foi um problema que afetou meu lado psicológico. Eu
chorava muito e só não entrei em uma depressão maior porque sou espírita e,
graças a Deus, trabalho muito com o meu psiquismo”. Ela explica que esqueceu
dessa passagem em sua vida, foi lembrar no dia anterior, quando eu liguei para
ela. Silvia conta que precisou eliminar essa lembrança e, hoje, depois da
cirurgia no estômago, está bem, com 40 quilos a menos. “Você precisa estar
preparada, tanto para o bom quanto para o ruim”.
“Por eu estar bem de
saúde, e não de estética, diferente de muitas outras que ficaram com diversos
problemas, acreditei que era melhor ficar quieta no meu canto”. Porém, por mais
que ela esteja mais conformada com o acontecimento, Silvia desabafa que não
consegue ficar sem blusa na frente do marido, não tira o sutiã, como se ela precisasse
se proteger. Comparando-se a outras mulheres, ela afirma que foi abençoada. “Vi
mulheres jovens, com o filho recém-nascido, que Rondon retirou as glândulas
mamárias, foi uma cena muito triste”.
A vítima relembra que a mãe pediu a
ela que não fizesse a cirurgia, mas Silvia não deu atenção. No outro dia pela
manhã, após a operação, a mãe disse que estava muito preocupada com Silvia e
havia orado a noite toda. “Acredito que por isso eu não fui tão prejudicada”.
As mudanças na vida de Silvia foram
inevitáveis. Ela estava tão chocada com os acontecimentos que imaginava que as
pessoas também teriam essa reação, e isso criava um bloqueio enorme em seus
relacionamentos. Ao ir a médicos, ficava constrangida. “Quando fiz mamografia
foi horrível, mas minha ginecologista foi uma profissional maravilhosa, de uma
discrição incrível. No começo, meus seios estavam nojentos e ela me deu forças
com comentários benéficos. Hoje eu me vejo de outra forma”. Silvia aponta a
televisão como culpada pelo crescimento da vaidade nas pessoas e afirma que
ninguém mais quer perder tempo em academias, preferem fazer uma cirurgia plástica.
Quem a ajudou muito a superar tudo o
que aconteceu foi o marido. Ele nunca falou nada que pudesse magoá-la e evitava
tocar no assunto, principalmente no começo, que era mais difícil para Silvia.
“Muitos se chocam quando eu digo que fui paciente do Rondon, eles me olham
procurando o que está faltando. Eu frequentei uma psicóloga durante muito tempo
para me acostumar com isso, pois é preciso se acostumar. E depois percebi que
não precisava ficar me olhando”.
Silvia conheceu outras
vítimas e sempre combinavam de se encontrar, mas depois que ela decidiu apagar
o fato da lembrança, achou melhor se afastar, não quis mais saber como estava o
caso. “Eu tomei essa decisão porque sei o quanto isso me machuca, e hoje não
dou mais tanto valor para a estética. Isso não faz mais parte da minha vida, se
não eu vou continuar sofrendo”.
Na época, Silvia não
processou o médico por achar que se tratava de uma causa perdida. E acredita
ser até hoje, pois, de acordo com ela, a lei favorece quem tem nome, dinheiro.
“Ele devia estar na cadeia e pagar indenização para cada vítima. Ele destruiu
várias famílias. Graças a Deus eu nunca mais encontrei esse homem em lugar
nenhum, nem sei onde está morando”.
Desabafando as mágoas,
Silvia considera que se existe um homem do mal, Rondon é ele. Segundo ela, o
médico acabou com a vida de muitas mulheres e acredita que ele fez tudo isso
por dinheiro. “Rondon é muito ambicioso e não se importa com o ser humano. Se
ele se preocupasse, faria uma especialização. Um homem sem sensibilidade com o
ser humano”.
Agora passou. Silvia
afirma que não vai mais ter depressão e nem tristeza. O marido perguntou se ela
faria uma cirurgia reparadora caso os médicos viessem novamente a Campo Grande
e ela não sabe se quer. Ela emagreceu o suficiente para operar, mas tem receio.
“Hoje, se eu tivesse que me expor novamente, eu não iria, porque já aceitei da
outra vez. Se surgir a oportunidade para refazer, pago uma cirurgia e faço”.
7º Capítulo do Livro-reportagem
"Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon"
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