quinta-feira, 4 de abril de 2013

Mudanças de expressão




“Minha irmã me deu conselhos para que 
eu não fizesse a cirurgia(...)
 mas eu fui teimosa e quis um resultado rápido”.
Rosângela Ortega




Fui recebida em um sábado de manhã em sua casa. Rosângela e sua mãe me esperavam com a porta da casa aberta. Apesar da ótima receptividade, notava-se um pouco de tensão nas duas, o que é comum, pois sei o quanto é difícil relembrar fatos desse tipo. Fiquei sabendo de seu caso por meio de uma colega, sobrinha de Rosângela.

“As minhas pálpebras superiores estavam caídas e as inferiores tinham duas bolsas de gordura. Eu quis tirar”. Aos 27 anos, Rosângela não estava satisfeita com sua imagem no espelho, e assustou-se ao fazer uma consulta com o cirurgião plástico Alberto Rondon, quando ele diagnosticou que ela estava com envelhecimento precoce de dez anos nas pálpebras. Depois de ouvir isso de um médico, Rosângela ficou transtornada e decidiu fazer a cirurgia o quanto antes. “Ele sabia convencer as pessoas”. Ela revela que foi procurá-lo por indicação de várias mulheres que haviam feito cirurgia plástica com Rondon na clínica Urgem.

Rosângela fez a cirurgia em maio de 1992 e explica que, naquele ano, Rondon era candidato a prefeito de Campo Grande e por isso ele estava fazendo cirurgias pela metade do preço de outros cirurgiões da cidade. Ela não tinha convênio, mas não precisou pagar a consulta, somente a operação. “Minha irmã me deu conselhos para que eu não fizesse a cirurgia, para eu procurar um tratamento estético, mas eu fui teimosa e quis um resultado rápido”.

Quando Rosângela foi internada, sua cirurgia estava marcada para as sete horas da noite, mas às nove horas o médico ainda não estava na clínica.  O instrumentista pediu a ela que trocasse de roupa e esperasse o médico na sala de cirurgia, pois Rondon havia ligado para avisar que estava a caminho.


O instrumentista, que era clínico geral, percebeu que Rosângela estava muito nervosa e pediu sua permissão para aplicar uma anestesia geral, pois ela não agüentaria ver. “Eu realmente estava muito nervosa, e concordei”. A vítima revela que se o anestesista tivesse a aconselhado que era melhor deixar a cirurgia para outro dia por estar muito nervosa, ela não voltaria mais lá. “Senti-me muito insegura em relação ao médico não estar presente na hora marcada. Ele deveria cumprir com os horários”.

Depois que Rosângela recebeu a anestesia, ela passou muito mal e pensou que ia morrer. “Fiquei com falta de ar e sentia que eu estava me debatendo na cama”. Até hoje Rosângela se pergunta se realmente foi Rondon que a operou, pois ela não tem essa certeza, alegando somente tê-lo visto no dia seguinte, quando ele tirou o tampão que estava em seu olho, limpou e fez massagem para abri-lo.

Na sala de espera da clínica, Rosângela conta indignada que encontrou algumas pacientes que haviam feito cirurgia com Rondon e falavam que estavam contentes. “Só não sabiam as conseqüências que iriam ter depois de seis meses – tempo de cicatrização - que é o tempo necessário para ver realmente o resultado”. Após três meses da cirurgia, Rosângela percebeu que algo estava errado. Sua mãe falava que dava medo de vê-la dormindo, pois seus olhos não fechavam por completo e a cicatriz não sumiu. Rondon explicou que ela estava com a cicatriz porque o bisturi queimou a pele.

Após a cirurgia, Rosângela voltou ao consultório de Rondon duas ou três vezes e o médico avisou que iria fazer uma cirurgia corretiva, pois, além da cicatriz, suas pálpebras enrugaram e ficaram com uma mancha branca. Rondon falou que iria tirar a cicatriz, principalmente a que ficou do lado esquerdo, no olho que Rosângela tem maior dificuldade de fechar.

No entanto, a dermatologista que Rosângela frequenta até hoje, a desaconselhou na época e explicou que não tinha mais pele para tirar, que Rondon havia tirado em excesso, e se retirasse mais, o olho de Rosângela iria ficar constantemente aberto. Disse também que aconteceu um grande erro médico e Rosângela poderia processar Rondon por isso, mas ela não quis. “Fiquei com muito medo de operar novamente e ficar pior do que estava”.

Ainda confusa, Rosângela achou melhor procurar outro cirurgião plástico para ter certeza do que era preciso fazer, e ele alertou que era loucura fazer outra cirurgia, que ele não faria, porque ela nunca mais fecharia os olhos. Não podendo fazer uma cirurgia reparadora, Rosângela fez um tratamento estético e dermatológico que durou três anos, com vários ácidos, botox, e só parou o tratamento por falta de dinheiro. Hoje ela não está contente, mas já se acalmou bastante. “Teve uma época em que eu fiquei traumatizada e não queria me olhar no espelho. De tão nervosa que fiquei, meu rosto encheu de espinhas, se transformou, e tive de tomar remédios para controlar”.

Apesar do drama que estava vivendo, Rosângela não comentava seu sofrimento com o marido. Ele pediu para que ela não fizesse a cirurgia e ficou tão contrariado que nem a levou para internar no dia da operação. “Eu quase não tive coragem de contar o que havia acontecido ao meu marido, pois ele era totalmente contra”.

Quando viu as reportagens na televisão sobre as cirurgias que Rondon fez, ela ficou revoltada. Mas, depois de ver aquelas imagens de seios e barrigas deformados, Rosângela achou que seu problema era muito pequeno em comparação ao das outras mulheres e não quis se expor, também por vergonha. Ela percebeu que a clínica dele existia como pretexto, para arrancar o pouco de dinheiro que as pessoas tinham, pois não era nada de graça. Rondon perdeu a eleição e sua clínica fechou em pouco tempo.

“Rondon fez uma lavagem cerebral em mim quando fui procurá-lo, dizendo que eu precisava fazer uma cirurgia urgentemente, pois eu era muito nova para estar do jeito que estava”. Um atrativo para conseguir um grande número de clientes era o preço cobrado pelo médico. Segundo Rosângela, Rondon cobrava a metade do valor praticado por outros profissionais do ramo. Ela não sabia que o médico não era cirurgião plástico e deixou-se levar pela pressão psicológica que ele fez.

Rosângela não critica as mulheres, pacientes do Rondon, que haviam feito a cirurgia e relataram que estavam bem, pois muitas fizeram cirurgia ao mesmo tempo e uma contava para a outra que tinha ficado ótimo, mesmo antes de dar o tempo suficiente para a cicatrização. Elas estavam iludidas com a promessa do corpo tão esperado, com o fim de seus problemas e complexos, e não imaginavam o que viria pela frente.




7º Capítulo do Livro-reportagem
"Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon"



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