“Por onde começar?” Essa era minha aflita indagação. Sem saber o paradeiro de Alberto Jorge Rondon de Oliveira me lancei a uma busca incessante, perdendo algumas noites de sono, mas com a esperança de obter um depoimento.
Uma das primeiras lições que aprendi nos bancos da faculdade de jornalismo foi “ouvir os dois lados da história, sempre”. E esse era meu grande desafio por se tratar de Rondon. Eu tinha a absoluta certeza de que não seria fácil, que ele não iria querer falar, principalmente com uma acadêmica. A verdade é que muitas pessoas que tentei entrevistar, ao longo destes quatro anos de faculdade, me menosprezaram pelo fato de não ser formada, alguns ficavam com receio do que eu iria escrever, como se desconfiassem da minha ética. Infelizmente, muitos não acreditam nos estudantes, e isso é entristecedor.
Comecei ligando para o advogado de Alberto Rondon, Renê Siufi, que afirmou que seu cliente não iria dar depoimentos e nem sabia onde ele estava. Claro que não acreditei. Precisei seguir outro caminho, a busca só estava começando. Por sorte ou ironia do destino, descobri que uma colega estudava com o filho do ex-médico. Com o endereço em mãos – e por mais incrível que pareça, era quase meu vizinho – fui visitá-lo. Gastei longos minutos com o porteiro do edifício e observei a quantidade de câmeras que filmava todos os espaços do prédio. Senti que o porteiro estava incomodado, fazendo mais perguntas do que eu e achei muito estranho. Porém não conseguiria entrar pela garagem sem ser notada com todas aquelas câmeras que faziam a vigília. Precisei me convencer de que o endereço estava errado.
Retornei a ligação para minha colega e contei o que acontecera. Ela me pediu um prazo e apareceu com outro endereço. Nesse meio tempo, voltei a falar com Renê Siufi. E, após várias ligações insistentes, o advogado disse que iria tentar localizar Rondon. Não acreditei novamente. Com o novo endereço em mãos, fui à busca, sempre com receio do que iria encontrar, se é que iria encontrar algo - o que nessa altura eu já desacreditava.
Em frente ao portão, comecei a bater palmas. Fiquei alguns minutos ali. A casa estava aberta, a televisão ligada e eu ouvi o som de uma porta batendo. Chamei algumas vezes pelo nome, mas ninguém me atendeu. Como se algo estivesse errado, um arrepio frio me envolveu, senti que estava perto. Mais alguns minutos, chamados, palmas e uma mulher me atendeu. Seria a ex-esposa de Rondon? Isso eu lamento lhes informar, mas continuo sem saber, só pedi para chamar o garoto.
Quando ele apareceu, senti como se estivesse de frente para Alberto Rondon, devido a uma incrível semelhança com a foto do ex-médico que vi nos jornais. O garoto me olhou desconfiado. Apresentei-me e contei o porquê da visita. Claro que surgiu a pergunta de como eu consegui o seu endereço, mas isso não era relevante naquele momento. Muito menos para ele.
Sem muito custo, ele me forneceu o número do celular do pai e avisou que este residia em Bonito, Mato Grosso do Sul. Muito fácil para ser verdade. Imagino que estejam pensando que sou muito pessimista, entretanto acredito muito na veracidade da seguinte frase: “quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Cheguei em casa e liguei.
Uma criança atendeu o celular, Maria Vitória, e quando eu pedi para falar com Alberto ela gritou o nome “pai” duas vezes. Rondon havia sido pai depois de sua cassação. Uma voz rouca - confesso que mais envelhecida do que a idade que ele tem hoje – atendeu. Eu estava falando com Alberto Jorge Rondon de Oliveira, não acreditava nisso! Tantas coisas passaram pela minha cabeça, primeiramente o mau julgamento que fiz de seu filho, desacreditando que ele havia me passado o número correto do telefone. Enquanto eu explicava o que estava acontecendo, sentia uma tensão do outro lado da linha, como se eu tivesse acabado com a noite de sono de alguém.
Depois que terminei de falar, veio a negação. Rondon não queria e não iria falar comigo, disse não ter nada para declarar. Eu rebati explicando a importância dele contar a sua versão e ele agradeceu a oportunidade, me desejou “tudo de bom”, uma boa noite e se despediu. Ao desligar o telefone, a frustração. Uma grande vitória por ter conseguido falar com ele e uma derrota por não ser da maneira desejada.
Por mais que muitos o julguem culpado, tenham raiva, ódio, queiram vingança, eu queria ouvir sua versão. Por mais que o que Rondon diga não convença ninguém, todos têm direito de se defender e toda história tem dois lados. Não quero fazer sensacionalismo, só quero concretizar o que aprendi nos primeiros dias de aula e carrego até hoje: – acredito que vou carregar pelo resto da vida, e considero essencial - , ouvir os dois lados, mesmo que um desses lados seja ignorado pela maioria. Ele teve sua oportunidade, seja para admitir um erro, pedir desculpas, ou até mesmo só para dar sua versão.
Contudo, a busca não parou por aí. Duas semanas depois, resolvi ligar novamente para Rondon. Imaginei que ele devia ter mudado o número do celular ou, que, ao reconhecer meu número não iria atender. Percebi que sempre penso no pior mesmo. Ele não havia mudado de celular e nem evitou minha ligação, também não demorou muito para atender. Porém, admito que nessa hora eu tenha sido um tanto otimista. Pedi pela segunda vez a ele uma entrevista, na esperança de que ele teria mudado de idéia – juro que acreditei que conseguiria! Que ilusão! O homem elogiado por ser tão educado desligou o telefone na minha cara.
Infelizmente, não teremos o depoimento de Alberto Rondon neste livro.
(2º Capítulo do livro Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon)