sábado, 22 de dezembro de 2012

Um arrependimento que incomoda

“Eu não denunciei Rondon antes de estourar
 o caso porque fiquei constrangida com a situação,
 e acredito que as outras mulheres pensaram igual”.
Romilda Roque dos Santos



Já ao telefone percebi que Romilda tinha muito o que contar e marcamos um encontro. Fui muito bem recebida por ela e o marido, que demonstrou ter sido um companheiro muito atencioso durante os piores dias da vida da esposa. Não que agora ela esteja totalmente bem, mas em suas lembranças ficaram momentos terríveis.

“Fiz a cirurgia plástica nas mamas no dia sete de abril de 1998”. Como a maioria das mulheres que foram pacientes de Rondon, Romilda tinha os seios muito grandes, o que a prejudicava. “Meu seio era tão grande que quando eu colocava o sutiã, a alça ficava cortando meus ombros”. Dois ortopedistas a aconselharam a fazer a redução das mamas, e ela ouviu dizer que Alberto Rondon era um cirurgião plástico muito bom e cobrava preços acessíveis a pessoas de nível social como o dela.

Resolveu procurá-lo. Ela sabia onde era a clínica de Rondon, Urgem, na rua 14 de julho, e não procurou outros médicos por saber que não teria condições financeiras para pagar. Romilda fez a cirurgia pelo convênio do Previsul, mas, assim como as outras vítimas, precisou pagar R$500,00 para o anestesista. No entanto, ela ressalta que o ortopedista que recomendou a redução das mamas – que trabalhava na clínica de Rondon - , avisou que ela teria de emagrecer primeiro, ele não a aconselhava fazer uma cirurgia com o peso que estava.

Na consulta que Romilda fez com Rondon, em nenhum momento ele falou que ela precisava emagrecer. Ao contrário, o médico apressou-a para levar as guias ao Previsul para autorizá-las no mesmo mês, avisando que no mês seguinte o convênio não estaria mais autorizando. O marido dela fez o que Rondon aconselhou e logo Romilda fez a cirurgia. “Quando meu marido foi pagar com cheque os R$500,00 do anestesista, Rondon não aceitou, disse que precisava ser pago em dinheiro”.

Quem ficava responsável pela cobrança era a secretária dele, Renata. De acordo com o marido da vítima, Renata que agilizava tudo e apressava a marcação de horários para cirurgia.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Por um triz


“Eu fui bem sucedida na operação,
não tive nenhuma rejeição”.
Aida Novaes Brites


Aida ficou surpresa com minha ligação e mais ainda quando cheguei ao seu apartamento em um sábado à tarde. Não entendia como eu tinha conseguido o número de seu telefone, um celular que ela havia comprado há dois meses. Isto faz parte do jornalismo investigativo, e é o que tanto me fascina. Buscar informações de maneiras pouco convencionais, como uma longa e incansável pesquisa no 102. Com um pouco de receio em desenterrar o acontecimento, Aida começou a me contar sua história.

“Eu tive displasia mamária - aumento da sensibilidade, do volume e aparecimento de pequenos nódulos nas mamas. Depois que tive filhos, meus seios ficaram muito grandes e quando o leite secou, ficou um monte de pele sobrando”. Foi quando Aida ficou sabendo que o médico Alberto Rondon estava fazendo cirurgias plásticas por um preço acessível e viu a possibilidade de consertar algo que a incomodava. “Não foi de graça, eu paguei pela cirurgia. Paguei hospital, médico, anestesista. Tudo particular. Foi presente de natal”.

Ela fez a consulta e avisou ao médico que só queria que ele retirasse as peles que estavam sobrando. Ao total foram quase 500 gramas de pele. Aida entrou no centro cirúrgico à noite e foi liberada no outro dia à tarde. Ficou 24 horas na clínica e foi para casa normalmente. “Eu fui bem sucedida na operação, não tive nenhuma rejeição”. Ela retornou à clínica com quinze dias para o médico retirar parte dos pontos. Rondon olhou e disse que estava tudo bem. Depois, com mais vinte dias foi retirado o restante.

Quando Aida chegou ao hospital no dia da cirurgia, foi levada pela enfermeira ao centro cirúrgico antes mesmo de ver Rondon. Ela perguntou pelo médico e a enfermeira disse que ele estava a caminho. Até hoje, Aida não tem certeza de que foi ele mesmo que a operou. “Tomei uma anestesia e acordei no outro dia”. A paciente só viu o médico no dia seguinte, quando ele foi conversar com ela e pediu para que retornasse à clínica após 15 dias. Em depoimento na delegacia, a delegada questionou Aida quanto a essa informação, pois ela não poderia depor contra o médico se não tinha certeza de quem a operou. “Mas eu paguei para ele, se foi ele ou não o cirurgião eu não tenho como saber, pois logo que entrei na sala de cirurgia me sedaram”. A paciente afirma que não viu Rondon entrando e nem saindo da sala, mas, de qualquer forma, a responsabilidade é dele.

Aida explica que, para ela que estava com os seios caídos aos 24 anos de idade, foi ótimo. Porém, ela só o procurou – na clínica Urgem, localizada na rua 14 de julho - porque acreditava que ele era cirurgião plástico. Aida não tinha conhecimento sobre quem era Alberto Rondon e acreditou no que os outros falaram, não procurou se informar melhor. Logo que apareceram as matérias sobre as pacientes de Rondon que ficaram deformadas, ela ficou chocada e percebeu o perigo que correu.

As mulheres vitimadas encontraram-na pelo registro no hospital e pediram que Aida fosse depor contra Rondon na delegacia, para ajudar no movimento, mas ela falou que não tinha o que depor contra o médico, pois não tinha ficado com seqüelas como as outras. Mesmo assim, foi à delegacia para depor e ser solidária, mas não levou adiante. Perguntaram se ela gostaria de fazer a cirurgia reparadora, pois ficou com algumas cicatrizes, parecidas com quelóide, mas Aida não quis se submeter a outra cirurgia.

“Hoje eu percebo que uma das coisas que Rondon fez de errado foi não pedir que eu fizesse repouso”. Quando ela retirou os pontos, ele falou que estava tudo bem e só. Aida não fez as atividades de costume porque sentia muitas dores ao se movimentar. Rondon não a ensinou fazer o curativo e nem a alertou sobre o risco de estar levantando o braço para pentear o cabelo, para tomar banho. Depois de algum tempo, ficou com uma marca da largura de um dedo em um lado do seio e uma cicatriz do outro, porém ela admite que faltou informação de sua parte: “A princípio, eu achei que a culpa era minha, que eu tinha ficado com as cicatrizes por não ter feito o repouso necessário, mas depois tive a certeza de que o erro era do médico, que não era o profissional que se dizia ser”.

Depois de muito tempo, Aida fez uma cirurgia no abdômen. O médico que a operou viu seus seios e explicou que a técnica cirúrgica usada por Rondon estava correta. Porém, ele não havia deixado espaço suficiente para que a mama descesse, que é a tendência natural, e isso fez a pele esticar demais, formando as cicatrizes.

Ela não queria se expor, só participou da denúncia para ajudar as outras mulheres. Aida não estava preparada para entrar em outro centro cirúrgico para reparar o que Rondon havia feito, mas confessa que se tivesse ficado como as outras, com cicatrizes enormes, com certeza teria ido atrás de uma reparação. Hoje ela está bem. O acontecimento não lhe afetou psicologicamente em nada e a cirurgia foi um benefício, levando em consideração a situação em que se encontrava e sabendo que o médico não era um profissional qualificado, o que colocara sua vida em risco.

Aida ficou nervosa quando soube do caso, pois percebeu que confiou sua vida às mãos de uma pessoa que não tinha a especialização necessária para operar e a iludiu. Ela considera a atitude de Rondon desonesta, pois pagou para correr risco de vida e agradece a Deus por não ter ficado com seqüelas maiores. “Imagine se eu, aos 24 anos, fizesse uma cirurgia para ficar melhor com meu marido e acontecesse uma tragédia dessas?” Ela sente muita pena das mulheres que também foram vítimas da irresponsabilidade do médico, pois nem todas conseguiram reparar o erro que Rondon deixou marcado em suas vidas.


7º Capítulo do Livro-reportagem 
"Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon"

domingo, 19 de agosto de 2012

Marcas de um passado


“Tudo o que eu sabia sobre Rondon,
 era que ele era o melhor cirurgião plástico da cidade,
o nome dele estava na lista de médicos da Unimed”.
Naiza Moura Rodrigues



Uma mulher simples, com o desejo de acabar com algo que a incomodava, hoje desabafa suas mágoas para uma futura jornalista. Naiza de Moura Rodrigues sofria com dores nas costas, devido ao tamanho avantajado de seus seios e, ao procurar um cirurgião plástico, acreditou que seus problemas chegariam ao fim. Aconteceu o imprevisto e hoje Naiza olha para seu passado com uma enorme tristeza.

“Eu precisava fazer uma cirurgia plástica porque meus seios eram grandes e frágeis, e uma amiga me indicou Alberto Rondon, afirmando que ele era muito bom”. Naiza marcou a cirurgia. Fez todos os exames pela Unimed, mas a operação foi particular, pois o convênio não cobria cirurgias estéticas. A operação aconteceu na clínica Urgem, pertencente a Rondon. “Tudo o que eu sabia sobre Rondon, era que ele era o melhor cirurgião plástico da cidade, o nome dele estava na lista de médicos da Unimed”.

Na hora da cirurgia, quando a paciente estava no centro cirúrgico, Rondon foi vê-la, passou a mão no rosto dela e anunciou: ”Naiza, eu estou aqui, eu sou o doutor Rondon e sou eu quem vai te operar agora”. Ela já estava anestesiada e por isso não conseguiu reconhecer ninguém. Após a cirurgia, ainda no quarto, Naiza sentia uma dor fortíssima e escorria muito sangue de suas mamas. O enfermeiro que cuidou dela, mandava-a parar de chorar e ficar quieta. A filha conta que a família precisou segurar Naiza, pois ela tremia, batia os dentes e tentava pular da cama. O funcionário afirmava que a paciente estava voltando da anestesia e por isso eram normais essas reações.

“Era uma clínica sem estrutura para fazer cirurgias. Se começasse uma hemorragia e não parasse mais, eu teria morrido. Tudo o que acontecia, se eu estava babando, vomitando, gemendo de dor, para o enfermeiro era normal. Eu não agüentava mais ficar ali, não agüentava me olhar”.

O sangue de Naiza formava poças na cama e ensopava o lençol em que ela estava deitada. O enfermeiro aconselhou que a filha de Naiza a levasse para debaixo do chuveiro e lhe desse um banho de água gelada. A vítima não agüentou e desmaiou no colo da filha. “Depois que Rondon me operou, ele sumiu. Era época de Natal e ele viajou. Eu fiquei no hospital com minha filha, um enfermeiro e Deus. Sofri muito”. Rondon não foi vê-la depois da cirurgia, deixou um enfermeiro em seu lugar. Após 24 horas na clínica, o enfermeiro falou para Naiza que ela já podia ir para casa e esta seguiu as instruções, mesmo com muita dor. “Não ficou como eu queria”, lamenta.

domingo, 15 de julho de 2012

Uma vaidade destruída

“Não tem como negar que ele era uma pessoa
 muito educada. Uma pessoa que em cinco minutos
de conversa te convence a fazer qualquer coisa”.
Sandra Maria da Mata


Um local um tanto inusitado para a captação do depoimento de uma mulher que sofreu tanto, mas foi em um salão de beleza que escutei Sandra Maria da Mata, mais uma vítima de Rondon. Enquanto fazia mechas no cabelo de uma cliente, Sandra me contou sua história em meio a outras mulheres que se embelezavam.

“Fiz cirurgia plástica em 1996 porque tinha seios muito grandes e estava prejudicando minha coluna”. Aos 23 anos, Sandra foi à procura do cirurgião plástico Alberto Rondon por indicação de uma conhecida que havia recém operado com ele. Já havia visitado três cirurgiões, mas quando conheceu Rondon teve a certeza de que ele seria o melhor, e decidiu pela cirurgia. “Não tem como negar que ele era uma pessoa muito educada. Uma pessoa que em cinco minutos de conversa te convence a fazer qualquer coisa”.

Em menos de um mês após a consulta, Rondon a operou. O preço da cirurgia que Rondon cobrou de Sandra era equivalente ao cobrado pelos médicos que ela visitou anteriormente, em torno de R$2.400,00 e R$2.600,00. Ela revela que não pediu desconto, porém o médico falou que reduziria R$400,00 do valor, cobrando R$2.100,00. “Ele costumava cobrar das mulheres o que elas tinham para pagar. Acho que por medo de perder pacientes”. 

Sandra fez a cirurgia plástica particular na clínica Urgem. Rondon ficou com ela antes da cirurgia para acalmá-la e explicou como seria o procedimento.  Ela conta que foi uma operação normal, com anestesia geral e sem complicações. Todavia, os problemas vieram depois. “Passei um ano de tristeza depois desse dia, uma verdadeira tortura que dura dez anos”. Passado algum tempo que Sandra havia feito a cirurgia, percebeu que seus seios não estavam ficando bonitos como esperava ansiosamente, e viu que algo estava errado.

Voltou várias vezes ao consultório de Rondon e ele sempre falava que era assim mesmo, para ela ter calma e receitava alguns remédios. Sandra revela que se ela já estava com cicatrizes, estas aumentaram depois que Rondon retirou os pontos, pois dava para perceber que ainda não havia cicatrizado. Ela o visitava todos os meses e era atendida normalmente. Porém, Sandra acredita que quando Rondon percebeu que ela não pararia de ir ao seu consultório enquanto não ficasse bem, começou a pedir para a secretaria avisar que estava viajando e que não poderia atendê-la.

Antes de fazer a cirurgia, ela fez todos os exames necessários, e foi o recibo dos exames que Sandra levou como prova para depor contra Rondon. Ela ficou três meses sem trabalhar, mas a cicatriz não doía. Na hora de pegar o recibo da cirurgia, a secretária do médico falou que teria que pegar com ele o documento e Rondon não estava. A cada dia era uma desculpa diferente, foi enrolando até que a clínica fechou e Sandra desistiu do papel.

“Na última vez em que fui procurá-lo, encontrei no consultório uma moça que havia feito uma cirurgia no nariz com Rondon e estava reclamando que o nariz ficou torto, e o médico queria cobrar uma cirurgia corretiva. Ao ver aquela cena, fui embora chorando, pois percebi no que tinha me metido”. Sandra seguiu todas as recomendações que Rondon passou para se cuidar no pós-operatório. Ele aconselhou que ela fizesse os curativos em um posto de saúde, pois eles cuidariam melhor, mesmo assim demorou muito para cicatrizar. Ela conta que, depois de um ano de feita a cirurgia, Rondon queria cobrar uma operação corretiva.
 

domingo, 8 de julho de 2012

Não era azar

“Fiz queixa e descobri que havia quase 300 mulheres na
 mesma situação que eu. Sabendo disso, vi que
 eu não era azarada como estava pensando e
 decidi mostrar para o mundo o que Rondon fez. E mostrei”.
Carmélia Novaes



“Eu tinha os seios enormes, mas gostava deles”. Foi com essas palavras que Carmélia começou a me contar sua história. Na verdade ela preferia enterrar esse assunto e não ficou contente quando eu propus que ela voltasse ao passado, mais precisamente ao ano de 1998, quando fez a cirurgia plástica que mudou sua vida.

Carmélia precisava levar a filha que sofre de glaucoma - uma doença que causa a perda total da visão - para fazer tratamento com vários médicos. Costumava viajar para São Paulo em busca de tratamentos e, nessas idas e vindas a consultórios, Carmélia sentia muitas dores nas costas e decidiu procurar um ortopedista. Por recomendação do especialista, ela precisou perder doze quilos. Mesmo assim a dor na coluna continuava. O médico alertou que deveria ser problema de mamas, pois seus seios eram muito grandes. “Minha cirurgia não foi estética, foi reparadora”.

Ela pesquisou os cirurgiões plásticos e todos eram muito caros. Foi então que ouviu, onde trabalhava, que o Previsul – Instituto de Previdência Social de Mato Grosso do Sul – hoje atual Cassems – Caixa de Assistência ao Servidor do Estado de Mato Grosso do Sul – estava fazendo cirurgias plásticas reparadoras. Carmélia conta que tinha três amigas que haviam operado com Alberto Rondon e estas disseram que estavam ótimas. Ela desabafa dizendo que não entendia nada de cirurgia plástica, pensava que era tudo muito simples, que era só ir para a mesa de cirurgia, que o médico iria retirar o excesso e pronto, depois de 30 dias estaria ótima, mas confessa que não aconteceu nada disso. “Cirurgia plástica é uma cirurgia perigosa. Tem que ter cuidado e eu tive todos os cuidados que o médico mandou ter”.

Quando Carmélia procurou Alberto Rondon, o médico explicou-lhe que era preciso pagar R$500,00 a ele e mais o anestesista. “No final das contas, ficou como se fosse particular a cirurgia, pois ele estava ganhando o dinheiro do Previsul mais o meu”. Quando Carmélia foi marcar a cirurgia, pressentiu que não devia operar, mas o médico ficou insistindo, telefonou para ela, insistiu que fizesse e garantiu que não havia perigo, que iria ficar ótimo, e Carmélia decidiu fazer. “Se eu não me engano, foi no dia 11 de junho de 1998 que eu operei”.

Na hora da anestesia Carmélia começou a passar mal, não conseguia respirar. Ela entrou cinco horas da tarde na sala de cirurgia e saiu às nove da noite. Ela acredita que algo de errado aconteceu, pois passou muito mal durante a noite toda. No outro dia, a enfermeira pediu para Carmélia se levantar e ir ao banheiro para retirar os panos e fazer curativo. A paciente se impressionou com a quantidade de sangue que escorria de seus seios e não entendia por que uma plástica sangrava tanto. Ela relata que as costuras eram enormes e iam de uma axila à outra. “Costuras parecidas com alinhavos e vi que eu tinha ficado reta, ele tirou quase toda a minha mama. Como eu era gordinha, minha barriga destacou”.

“Eu já não estava gostando do tamanho dos meus seios, por terem ficado muito pequenos, mas Rondon avisou que estava cedo para ver o resultado e que depois voltaria ao normal. O músculo voltaria ao normal. Ele dizia que tudo ia voltar ao normal. E eu fui deixando passar”.

domingo, 10 de junho de 2012

O começo de tudo

"Minha filha mamou em mim durante um ano e oito meses... 
 é uma benção de Deus uma mãe amamentar um filho,
 e Rondon tirou isso da minha filha".
Silvia Aparecida Lacerda

O caso de um grande número de mulheres lesadas há anos, por um suposto cirurgião plástico, foi levado à tona no dia 12 de abril de 1999. Mulheres que foram vítimas de um profissional irresponsável, que se passava por cirurgião plástico, mas que na verdade não tinha essa especialidade. As vítimas, com receio e vergonha do que lhes havia acontecido, não buscaram uma solução, guardaram para si suas tristes cicatrizes. Porém, uma mulher não quis aceitar ver a filha de apenas 16 anos nessa situação, e, junto com uma colega de trabalho, foi denunciar o médico Alberto Rondon.

Ao ligar para Silvia, mãe de uma adolescente vítima da imprudência de Alberto Rondon, ela avisou que ajudaria no que fosse preciso, mas que sua filha não daria nenhuma entrevista. É nessa hora que se percebe como isso afetou a vida das pessoas, como a dor continua presente apesar dos anos, como as cicatrizes ainda incomodam. Com certeza foi respeitado seu pedido. Marcamos um encontro e tivemos uma longa conversa. E nesta conversa, percebi que tinha encontrado o começo de tudo.

Sua filha fez uma cirurgia plástica para redução de mamas no dia 04 de agosto de 1998, quando tinha recém completado 16 anos. Ela sentia muitas dores nas costas e foi a um ortopedista para saber o motivo das dores. O ortopedista a encaminhou para um cirurgião plástico, alegando que o volume dos seios da menina estava prejudicando sua coluna. Nesta data, só havia o médico Alberto Jorge Rondon de Oliveira credenciado como cirurgião plástico no convênio médico que atendia a sua família, o Previsul – Instituto de Previdência Social de Mato Grosso do Sul - atual Cassems – Caixa de Assistência dos Servidores do Estado de Mato Grosso do Sul. “Uma menina de 16 anos não teria por que fazer uma cirurgia estética, é muito nova para isso”, completa Silvia.

Ao fazer uma consulta com Alberto Rondon, ele confirmou que era necessário fazer uma cirurgia para diminuir os seios. Silvia acreditou. Ela não teve dúvidas quanto ao médico por ele ter sido deputado e por ela ter trabalhado na Assembléia Legislativa no período em que ele exerceu o cargo. Silvia o considerava uma pessoa educada, que não iria fazer algo para difamar a imagem política que carregava. “Eu jamais imaginei que um homem famoso, que tinha de zelar pelo nome, até pelo fato de ser político, que era credenciado como cirurgião plástico em vários convênios, iria fazer o que ele fez”. De acordo com Silvia, como Rondon era o único cirurgião plástico do Previsul, para ela não havia outra opção. O convênio não cobria cirurgias estéticas, somente para correção. No entanto, Rondon disse que teria que pagar um valor a mais para o anestesista, o que lhe custou em torno de R$500,00. A operação foi feita na clínica Urgem, localizada na rua 14 de julho.

A cirurgia da filha demorou muito tempo, enquanto isso Silvia ficou rezando. A mãe ficou impressionada quando a enfermeira lhe mostrou a quantidade de tecido que o médico havia tirado da adolescente. “Eram pedaços da minha filha jogados no lixo”. Neste momento, Silvia percebeu que o médico tirou quase todo o seio da filha. A enfermeira falou que eram glândulas mamárias e isso deixou Silvia mais preocupada ainda.

No dia seguinte, a mãe foi fazer o curativo na filha, como o médico pediu, e relatou que era preciso tirar as ataduras - um pano sujo de sangue – e depois dar um banho na menina, jogando bastante água e sabão. Quando Silvia tirou as faixas que estavam enroladas ao corpo da filha, assustou-se ao ver como sangravam os seios dela enquanto jogava água. “Eu fui ficando tão mal em ver aquilo...”. Antes da cirurgia, Silvia ficou por duas horas conversando com Rondon para certificar-se que não iria causar nenhum dano a sua filha, deixar cicatrizes, e o médico garantiu a ela que a cirurgia seria simples, até desenhou no papel que o corte seria pequeno e em formato de âncora. Quando Silvia tirou as faixas da filha e viu tantos pontos, um corte enorme de uma axila a outra e os mamilos todos recortados, tentou ser forte na hora, mas sua filha percebeu seu espanto e perguntou por que a mãe estava daquele jeito.

Silvia pediu para que a enfermeira ficasse com a filha e saiu do quarto dizendo que iria arrumar a roupa dela. “Eu não estava agüentando ficar ali, estava me segurando para não chorar, pois já tinha visto que a operação havia sido um horror”. Rondon havia deixado a adolescente sem seio, nem o formato dos seios havia restado à garota. A mãe foi até a direção da clínica e pediu para falar com Rondon, mas a secretária – que se tornou esposa dele tempos depois – disse que ele não iria atendê-la. Silvia falou que se o médico não aparecesse imediatamente ela iria chamar a imprensa e denunciá-lo ali mesmo.

domingo, 27 de maio de 2012

Uma ocorrência chocante

O Primeiro Boletim de Ocorrência


“Até hoje eu fico arrepiada só de lembrar da cena.
Quando a vítima ergueu a roupa para mostrar as cicatrizes
 eu passei mal”.
Delegada Vilma Carvalho


Vilma Fátima de Carvalho Angelo da Silva era delegada titular da 1ª Delegacia de Polícia quando, no dia 11 de setembro de 1998, foi registrado o primeiro boletim de ocorrência do caso que ganharia grande repercussão nacional. Uma mulher, vítima de uma cirurgia plástica sem sucesso, foi à delegacia acompanhada de sua advogada e de seu marido para prestar queixa contra o suposto cirurgião plástico Alberto Rondon.

Matusalem Sotolani era o delegado de plantão naquele dia e encaminhou a advogada da vítima para falar com Vilma, depois de perceber a gravidade do caso. A advogada começou a relatar a história e Vilma quis ver a vítima. Quando a vítima ergueu a roupa para mostrar as cicatrizes, a delegada passou mal. “Eu estou acostumada a lidar com várias situações graves, mas esta foi muito forte. Eu vi as vísceras da mulher. Isso me arrepia até hoje”.

A delegada conta que dava a sensação de que a mulher estava morrendo. Foi preciso pegar um pouco de sal para Vilma colocar embaixo da língua para não desmaiar. Imediatamente foi registrada a ocorrência e encaminhou-se para os procedimentos de rotina. Depois disso, começaram a surgir inúmeros casos e, devido às vítimas serem mulheres, foram todas encaminhadas para a DEAM - Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher.

“O estado das lesões era muito grave. Foi tudo muito chocante e agressivo”. Na 1ª Delegacia aconteceu o início do primeiro trabalho, o registro da ocorrência e o encaminhamento à delegacia especializada, depois Vilma explica que não acompanhou mais o processo, pois saiu de sua esfera.

Hoje, a vítima atendida por Vilma retirou a acusação, desistiu do processo. A delegada acha estranho acontecer isso, pois esse tipo de lesão não é uma ação condicionada. No Direito Penal existem os crimes de ação condicionada e incondicionada. A condicionada precisa da representação da vítima e a incondicionada, basta o Ministério Público constatar a prática de um crime para promover a ação penal. E esse tipo de crime é incondicionado. “A partir do momento que a polícia tomou conhecimento, seria preciso instaurar o processo, independente da vontade da vítima, por isso eu considero estranha a desistência da vítima”.

Realizei uma longa pesquisa na Delegacia da Mulher e pude observar que o segundo boletim de ocorrência do caso Alberto Rondon foi registrado em 26 de abril de 1999. Porém, este não foi o único do dia. Várias mulheres registraram boletim de ocorrência contra o médico, o que, diariamente, tornou-se comum na delegacia. Constatei um número de 182 boletins, sendo que o último foi na data de 27 de junho de 2001.


 
(6º Capítulo do Livro Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon)

domingo, 20 de maio de 2012

Mulheres unidas

              A Coordenadoria da Mulher


“As mulheres que são impacientes ficam muito
 nervosas na hora que é dito que não tem jeito,
 ficam com raiva, como se fôssemos os responsáveis.
É muito difícil aceitar”.
Bárbara Nicodemos


A Coordenadoria da Mulher teve fundamental participação no caso Rondon e, sabendo disso, era indispensável ouvir uma representante do órgão para explicar melhor como tudo aconteceu. Após várias ligações e visitas à Coordenadoria, a assessora técnica Bárbara Nicodemos me concedeu uma entrevista. Para situar melhor o leitor, a assessora começou nossa conversa falando um pouco sobre a Coordenadoria.

“Em 1999, com a mudança de governo, foi criada a Coordenadoria de Políticas Públicas da Mulher”. Bárbara explica que a coordenadoria é composta por técnicas que visam desenvolver a política pública específica para a mulher no Estado, e teve como primeira coordenadora Gilda Maria Gomes dos Santos – conhecida como Dona Gilda -, esposa do governador de Mato Grosso do Sul. O órgão trabalha em diversos eixos: saúde, educação, mas seu foco principal está nos programas de combate à violência contra as mulheres.

O caso Rondon chegou até a Coordenadoria por meio da divulgação dos programas contra a violência. Na época, um grupo de mulheres procurou dona Gilda para falar sobre a situação. Mulheres que tinham sido vítimas do médico Alberto Rondon e foram atendidas tanto pelo Previsul, como por convênios particulares. Elas pediram ajuda e foi realizada uma reunião da coordenadora com a equipe, para entender o que realmente havia acontecido, pois as mulheres estavam com graves seqüelas. Algumas delas que fizeram cirurgia de mamas e abdômen estavam muito comprometidas, e pediram que o governo do Estado assumisse a questão. Com isso, a Secretaria de Saúde e a direção do Previsul foram procurados.

Foi sugerido às mulheres que elas se organizassem entre si para saber quantas vítimas existiam. Na época levantou-se o número de 138 mulheres e fechou-se nesse número. Foi composta uma comissão, formada pela Delegacia da Mulher e Defensoria Pública, para analisar os passos a serem dados. A decisão foi que, primeiramente, era necessário que essas mulheres fizessem um boletim de ocorrência para, através deste, ser aberto o inquérito e iniciar uma ação contra Alberto Rondon.



O Estado, representado pela Coordenadoria da Mulher, juntamente com a Secretaria de Saúde, assumiu a responsabilidade de fazer com que cada mulher mutilada tivesse direito a uma cirurgia reparadora. Comunicada sobre o caso, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – SBCP -, através do Ministério da Saúde, entrou em contato com a Coordenadoria para avisar que também participaria. Foi então discutido o que cada órgão poderia fazer.

A SBCP reuniu os médicos, a Secretaria de Saúde assumiu todas as despesas na cidade e o Ministério da Saúde, as passagens dos médicos para virem a Campo Grande. Foi tudo organizado para, quando a equipe médica chegasse a cidade, ter toda a infra-estrutura necessária para trabalhar, como hospital, materiais, etc. “A responsabilidade da Coordenadoria da Mulher foi articular todo o trabalho de cirurgias reparadoras. Foram realizadas cinco etapas de cirurgias até hoje”. Bárbara explica que em cada etapa é chamado um grupo de mulheres que são avaliadas, fazem um pré-operatório, e quando os médicos chegam à cidade, avaliam todos os exames, e só então é dito para cada mulher se ela está apta a fazer a cirurgia ou não.

domingo, 13 de maio de 2012

Um Conselho surpreendido?


O Conselho Regional de Medicina – CRM-MS


“A preocupação do presidente do Conselho,
de forma alguma era proteger Rondon pelo que ele
 tinha feito, e sim, era com a justiça.”

Sérgio Furlani


Demorou alguns dias para que alguém atendesse ao telefone no consultório, cheguei a pensar que o número estava errado. Depois de muita insistência, atenderam. A princípio, pensei que não seria ouvida, mas me surpreendi. O doutor Sérgio Luiz Reis Furlani, que era presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado na época que estourou o caso Rondon, não só me atendeu como marcou a entrevista para a próxima semana.

“Fui presidente do Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul do ano de 1998 a 2000. E foi nessa época, talvez em 1999, que apareceram as denúncias contra o médico Alberto Jorge Rondon de Oliveira....” Foi assim o início de nossa conversa, que a princípio parecia ser rápida, mas as lembranças foram aflorando e ela tornou-se longa para os ponteiros do relógio. Ele contou que havia uma denúncia isolada, porém, nesse período aconteceram várias ao mesmo tempo.

Como as denúncias foram muitas, o Conselho resolveu elaborar uma denúncia coletiva de todas as mulheres que se sentiram prejudicadas, pois, de acordo com Furlani, se fosse abrir um processo para cada mulher levaria muito tempo para julgar. As mulheres documentaram, com registro fotográfico, como ficou o pós-operatório e, umas duas que sofreram lesões de maior gravidade foram examinadas pela comissão que estava apurando as denúncias. A denúncia não só baseou-se na documentação fotográfica, como também no exame das pacientes.

Furlani afirma que Alberto Rondon, a todo o momento, atendeu a todos os chamados do Conselho. Em nenhum momento o médico pediu algum tipo de clemência, alguma consideração, para que fossem colocados “panos quentes” sobre o caso. “Primeiro, porque ele sabia que não ia encontrar esse tipo de atitude no Conselho e segundo que, apesar de tudo, ele é uma pessoa extremamente fina e educada”. Ele contratou um advogado e defendeu-se de todas as acusações.

“A preocupação do presidente do Conselho, de forma alguma era proteger Rondon pelo que ele havia feito, e sim, era com a justiça”. O médico explica que existe um direito que é imperioso. É um direito natural, constitucional e está acima de tudo, chama-se direito de defesa. O acusado pode ser ladrão, assassino, estuprador, mas não lhe pode ser tirado seu direito de defesa. Então, como representante do órgão e presidente do Conselho, a preocupação de Furlani era dar oportunidade para Alberto Rondon se defender. Ele afirma que em momento algum o Conselho quis proteger o médico. Alberto Rondon teve amplo direito de defesa. Ele apresentou as contra-provas, as contra-argumentações, foi julgado, condenado e solicitada a pena máxima, que é a cassação do diploma. O Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul decidiu que ele deveria ser cassado e assim foi feito. “Toda pessoa tem direito a recursos e ele fez o uso do direito dele. Ele recorreu ao Conselho Federal de Medicina, que referendou a nossa decisão”. Resultado, hoje Alberto Rondon não é mais médico.

“Quando um médico tem seu diploma cassado, a vida profissional dele acabou”. A cassação é a pena de morte para um médico, é a pena máxima, e o CRM decretou a morte profissional de Alberto Rondon. Em lugar nenhum do Brasil ele pode exercer a medicina e, para ele ir para outro país, é preciso revalidar o diploma. Entretanto, no momento da revalidação, se pede informação aos Conselhos de cada país e então vai constar que o diploma dele foi cassado. Não tem como ele exercer a medicina novamente. “Rondon não é mais médico e tudo por culpa dele”.

domingo, 6 de maio de 2012

Uma visão da imprensa


“A sensação que tenho é que meu off  e
minha passagem foram ao ar,
 mas eu não consegui fechar a matéria."
Edson Godoy




A busca por uma verdade condizente com os fatos continuava e uma pergunta não queria calar. Depois de tanto barulho, por que a imprensa parou de divulgar o caso? Esquecimento? Após ouvir a jornalista Cláudia Trimarco, percebi a importância de conversar com outro jornalista que também ajudou a levantar o caso, e marquei uma entrevista com Edson Godoy. Ele atualmente trabalha na TV Morena como repórter e na assessoria de comunicação da Santa Casa. De início, Godoy afirmou que o caso Rondon foi marcante em sua profissão, o que o fez se interessar pelo jornalismo investigativo.

“Tudo começou com um telefonema”. O jornalista contou que estava na redação da TVE quando uma mulher chamada Maria ligou, não quis se identificar e pediu para que ele fosse até a Assembléia Legislativa porque havia um grupo de mulheres que ia fazer uma denúncia grave. Godoy não pensou duas vezes e foi, sem nem saber do que se tratava. Chegando na Assembléia, encontrou um grupo de funcionárias que queriam mostrar o drama que estavam vivendo. Todas tiveram suas cirurgias plásticas mal sucedidas, feitas pelo ex-deputado e médico Alberto Rondon. O jornalista relatou que somente lá existiam cinco casos comprovados, fora outros de pessoas ligadas a funcionários do órgão, como filhas e irmãs, entre outras.

Godoy chamou atenção para o fato de que a TVE noticiou o caso pela primeira vez no sábado, e os outros veículos de comunicação só foram noticiar uma semana depois. O motivo da demora? De acordo com o jornalista, foi o “furo de reportagem”, pois os grandes veículos de comunicação de Campo Grande não podiam admitir que uma redação tão pequena como era a da TVE estava divulgando a notícia antes deles e ficaram com medo de também dar uma notícia que não estivesse bem apurada. Godoy explica que o grupo de mulheres que fez a denúncia confiou apenas em alguns profissionais, e foram esses profissionais que passaram a trabalhar com a notícia, com o fato.

“Só depois, quando eles viram que o caso virou manchete e que não podiam fugir disso, começaram a noticiar”, afirmou Godoy. Quando os grandes veículos de comunicação, que representam as grandes emissoras no Brasil, entraram no assunto o caso ganhou repercussão nacional, mas, segundo o jornalista, a TVE já estava divulgando a história há dez dias.

Edson Godoy admite que esse foi um momento em que realmente foi feito jornalismo. Na época, eles conseguiram gravar com Alberto Rondon, mostrar a clínica onde ele fazia as consultas e fazer gravações com as vítimas. A cada reportagem exibida, aumentava o número de ligações na redação da TV - de mulheres que tinham sido vítimas - e isso fez Godoy perceber a quantidade de pessoas que tinham sido operadas pelo médico. Ele falou que a jornalista Claudia Trimarco teve um papel fundamental, pois ela descobriu a falta da especialização médica - a residência em cirurgia plástica - o que levou o caso ao Conselho Regional de Medicina. Godoy acredita que o caso ganhou repercussão nacional porque o CRM também entrou na história.

Foi uma época marcante na vida profissional deste jornalista. “Nós recebemos a denúncia e fomos ouvir a história”, explica. O que chamou a atenção de Godoy foi que todos os grandes veículos ficaram de fora da cobertura. Somente quando um divulgou a notícia, todos os outros correram atrás. O jornalista conta que esse caso mudou a história do jornalismo em Mato Grosso do Sul, pois a imprensa conseguiu mexer com uma classe extremamente corporativista, que é a classe médica. E a partir do caso Rondon foram feitas outras grandes reportagens, tanto na área médica, como em outras áreas. Segundo ele, tudo isso aconteceu depois que o CRM se posicionou, e o órgão teve um papel fundamental nesse momento, porque conseguiu punir um mau profissional.

domingo, 29 de abril de 2012

O furo de reportagem

“Eu preferia não ter dado esse furo.
  Eu preferia que não tivessem duzentas pessoas lesadas,
 que não tivesse acontecido essa história.”
Claudia Trimarco


“Eu trabalhava na TVE Regional fazendo algumas reportagens no período da manhã...” Foi assim que começou uma longa conversa com a jornalista Claudia Trimarco, responsável pela primeira matéria sobre o caso Rondon.

Claudia estava em um evento ocorrido na governadoria em abril de 1999, quando prestou atenção no diretor presidente do Previsul, Volney Ávila, que, na saída, estava conversando com uma jornalista colega de trabalho, e sentiu que tinha algo naquela conversa. Ela se aproximou e perguntou ao diretor se não havia nenhuma novidade no Instituto.  “Nossa, menina! Hoje à tarde nós temos uma denúncia para descredenciar um médico: mutilação de mulheres!”, contou Volney. A resposta que a jornalista recebeu foi o suficiente para perceber que tinha algo de errado que precisava ser esclarecido.

Na volta para a TV, Claudia sentiu que deveria noticiar o caso. “Naquele dia me deu um estalo, eu achei que era o melhor a fazer”. Conversou com a diretora de programação da TVE Regional, pediu para fazer a matéria e para o pessoal do jornalismo da TV lhe acompanhar. Foram ela, o jornalista Edson Godoy e a equipe de câmeras.

Claudia fez uma reportagem ao vivo para a rádio de dentro da sala do diretor Volney Ávila com um dos advogados que estava denunciando o médico, e depois fez uma reportagem pelo lado de fora, um boletim, contando o assunto.  O advogado era pai de uma jovem que tinha sido uma das vítimas, uma menina de apenas 16 anos, e esse foi um dos motivos que fez com que a jornalista percebesse a gravidade do assunto. O médico acusado, Alberto Jorge Rondon de Oliveira, era um ex-deputado estadual e foi candidato a prefeito.

Ao final da tarde, depois de fazer a reportagem, a jornalista teve a preocupação de ir ao Fórum, pois, como ela tinha feito uma denúncia no ar, precisava saber o que tinha de registro a respeito do médico. “Qualquer pessoa pode fazer isso, é só dar o nome completo de alguém e pedir para fazer uma busca”, explica Claudia Trimarco. Ela encontrou uma ação em que a pessoa esperava a confirmação de provas para depois pedir os danos moral e material. Essa foi a única acusação encontrada, fora algumas de banco, a própria separação dele e outras questões comerciais.

Enquanto Claudia foi para o Fórum, combinou com o jornalista Luiz Chagas – já falecido -, que trabalhava na parte da produção, que ele ligaria no CRM – Conselho Regional de Medicina - para confirmar como Alberto Rondon estava credenciado, e nessa ligação eles ficaram sabendo que o médico havia se credenciado como clínico geral, e não como cirurgião plástico. Depois ela foi pessoalmente ao CRM e conversou com o diretor presidente na época, Sérgio Furlani.

domingo, 22 de abril de 2012

O diário da busca

“Por onde começar?” Essa era minha aflita indagação. Sem saber o paradeiro de Alberto Jorge Rondon de Oliveira me lancei a uma busca incessante, perdendo algumas noites de sono, mas com a esperança de obter um depoimento.

Uma das primeiras lições que aprendi nos bancos da faculdade de jornalismo foi “ouvir os dois lados da história, sempre”. E esse era meu grande desafio por se tratar de Rondon. Eu tinha a absoluta certeza de que não seria fácil, que ele não iria querer falar, principalmente com uma acadêmica. A verdade é que muitas pessoas que tentei entrevistar, ao longo destes quatro anos de faculdade, me menosprezaram pelo fato de não ser formada, alguns ficavam com receio do que eu iria escrever, como se desconfiassem da minha ética. Infelizmente, muitos não acreditam nos estudantes, e isso é entristecedor.

Comecei ligando para o advogado de Alberto Rondon, Renê Siufi, que afirmou que seu cliente não iria dar depoimentos e nem sabia onde ele estava. Claro que não acreditei. Precisei seguir outro caminho, a busca só estava começando. Por sorte ou ironia do destino, descobri que uma colega estudava com o filho do ex-médico. Com o endereço em mãos – e por mais incrível que pareça, era quase meu vizinho – fui visitá-lo. Gastei longos minutos com o porteiro do edifício e observei a quantidade de câmeras que filmava todos os espaços do prédio. Senti que o porteiro estava incomodado, fazendo mais perguntas do que eu e achei muito estranho. Porém não conseguiria entrar pela garagem sem ser notada com todas aquelas câmeras que faziam a vigília. Precisei me convencer de que o endereço estava errado.

Retornei a ligação para minha colega e contei o que acontecera. Ela me pediu um prazo e apareceu com outro endereço. Nesse meio tempo, voltei a falar com Renê Siufi. E, após várias ligações insistentes, o advogado disse que iria tentar localizar Rondon. Não acreditei novamente. Com o novo endereço em mãos, fui à busca, sempre com receio do que iria encontrar, se é que iria encontrar algo - o que nessa altura eu já desacreditava.

Em frente ao portão, comecei a bater palmas. Fiquei alguns minutos ali. A casa estava aberta, a televisão ligada e eu ouvi o som de uma porta batendo. Chamei algumas vezes pelo nome, mas ninguém me atendeu. Como se algo estivesse errado, um arrepio frio me envolveu, senti que estava perto. Mais alguns minutos, chamados, palmas e uma mulher me atendeu. Seria a ex-esposa de Rondon? Isso eu lamento lhes informar, mas continuo sem saber, só pedi para chamar o garoto.

Quando ele apareceu, senti como se estivesse de frente para Alberto Rondon, devido a uma incrível semelhança com a foto do ex-médico que vi nos jornais. O garoto me olhou desconfiado. Apresentei-me e contei o porquê da visita. Claro que surgiu a pergunta de como eu consegui o seu endereço, mas isso não era relevante naquele momento. Muito menos para ele.

Sem muito custo, ele me forneceu o número do celular do pai e avisou que este residia em Bonito, Mato Grosso do Sul. Muito fácil para ser verdade. Imagino que estejam pensando que sou muito pessimista, entretanto acredito muito na veracidade da seguinte frase: “quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Cheguei em casa e liguei.

Uma criança atendeu o celular, Maria Vitória, e quando eu pedi para falar com Alberto ela gritou o nome “pai” duas vezes. Rondon havia sido pai depois de sua cassação. Uma voz rouca - confesso que mais envelhecida do que a idade que ele tem hoje – atendeu. Eu estava falando com Alberto Jorge Rondon de Oliveira, não acreditava nisso! Tantas coisas passaram pela minha cabeça, primeiramente o mau julgamento que fiz de seu filho, desacreditando que ele havia me passado o número correto do telefone. Enquanto eu explicava o que estava acontecendo, sentia uma tensão do outro lado da linha, como se eu tivesse acabado com a noite de sono de alguém.

Depois que terminei de falar, veio a negação. Rondon não queria e não iria falar comigo, disse não ter nada para declarar. Eu rebati explicando a importância dele contar a sua versão e ele agradeceu a oportunidade, me desejou “tudo de bom”, uma boa noite e se despediu. Ao desligar o telefone, a frustração. Uma grande vitória por ter conseguido falar com ele e uma derrota por não ser da maneira desejada.

Por mais que muitos o julguem culpado, tenham raiva, ódio, queiram vingança, eu queria ouvir sua versão. Por mais que o que Rondon diga não convença ninguém, todos têm direito de se defender e toda história tem dois lados. Não quero fazer sensacionalismo, só quero concretizar o que aprendi nos primeiros dias de aula e carrego até hoje: – acredito que vou carregar pelo resto da vida, e considero essencial - , ouvir os dois lados, mesmo que um desses lados seja ignorado pela maioria. Ele teve sua oportunidade, seja para admitir um erro, pedir desculpas, ou até mesmo só para dar sua versão.

Contudo, a busca não parou por aí. Duas semanas depois, resolvi ligar novamente para Rondon. Imaginei que ele devia ter mudado o número do celular ou, que, ao reconhecer meu número não iria atender. Percebi que sempre penso no pior mesmo. Ele não havia mudado de celular e nem evitou minha ligação, também não demorou muito para atender. Porém, admito que nessa hora eu tenha sido um tanto otimista. Pedi pela segunda vez a ele uma entrevista, na esperança de que ele teria mudado de idéia – juro que acreditei que conseguiria! Que ilusão! O homem elogiado por ser tão educado desligou o telefone na minha cara.

Infelizmente, não teremos o depoimento de Alberto Rondon neste livro.


(2º Capítulo do livro Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon)

domingo, 15 de abril de 2012

Uma triste realidade

“Na verdade, o passado não é estanque,
 algo que acabou e ponto final”. 
Edvaldo Pereira Lima
(jornalista e escritor)




“Errar é humano”. O erro começou no ano de 1981 quando Alberto Rondon se pôs a realizar cirurgias plásticas. Depois o erro se repetiu em cada mulher que ele mutilou. Um número que, na época, aumentava assustadoramente e cerca os 400. Pode ser um pouco mais, um pouco menos, ou muito mais. Só Deus sabe. Muitas mulheres não quiseram mexer na ferida por vergonha, medo ou mesmo por desesperança. Perderam a esperança de que o que elas fizessem traria resultados.

O caso do médico e ex-deputado estadual Alberto Jorge Rondon de Oliveira, mais conhecido como doutor Rondon, virou polêmica em todo o país no ano de 1999 como o “mutilador de seios”, termo que foi destaque na imprensa nacional. O médico prestou serviços de cirurgia plástica reparadora junto ao Instituto de Previdência de Mato Grosso do Sul – Previsul –, ao Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande – IMPCG –  e em sua clínica particular Urgem, sem ter feito especialização para isso.

O resultado foi imperícia e negligência com as pacientes, deixando uma série de mulheres com cicatrizes no corpo e, em alguns casos, com os movimentos das pernas e braços prejudicados após as cirurgias nos seios e abdômen. Além disso, não prestou acompanhamento pós-operatório e ausentou-se da capital sem indicar outro profissional para substituí-lo, deixando suas pacientes sem qualquer assistência.

Foi confirmado pelo Conselho Regional de Medicina (CRM-MS) que Alberto Rondon não possuía registro junto ao órgão como especialista em cirurgia plástica, somente como clínico geral. Porém, além do Conselho não ter informações de que ele estaria usando de tal prática, de acordo com o ex-presidente do CRM-MS, Sérgio Furlani, não era exigido ser especialista para fazer cirurgias como as que foram feitas.

Para prestar esclarecimentos na época ao órgão, o médico quis trocar o papel de culpado pelo de vítima, alegando que o insucesso de suas cirurgias era devido ao fato de que as pacientes não seguiam corretamente as orientações médicas, considerando absurdas as denúncias contra ele. No entanto, o resultado disso foi a cassação de seu diploma em 16 de dezembro de 2000.

De acordo com o site jus navigandi[1], para fazer as cirurgias reparadoras, Rondon recebia um valor “x” do Previsul por operação e cobrava mais R$ 500,00 de suas pacientes. As primeiras mulheres que denunciaram o médico contaram que ele as induzia a confirmar para o Previsul que a cirurgia havia sido realizada para a retirada de nódulos nos seios. Na época não houve fiscalização e nem proibição da propaganda enganosa que o médico fazia, pois colocava em frente a sua clínica uma placa com os dizeres “Clínica de cirurgia plástica Alberto Rondon”.

Este livro tem a proposta de mostrar às pessoas como realmente aconteceu o caso, contando um pouco da história de algumas vítimas que tiveram suas vidas viradas do avesso depois de uma cirurgia. Foi construído baseado nos depoimentos de vítimas e pessoas envolvidas no caso, como a jornalista Claudia Trimarco que fez a primeira matéria sobre a denúncia; o presidente do Conselho Regional de Medicina, na época Sérgio Furlani, e a delegada que registrou o primeiro boletim de ocorrência, Vilma Carvalho, entre outros. Todos contando seus relatos, dramas, traumas, enfim, todos os sentimentos que ficaram marcados, dando enfoque principal a cada uma dessas mulheres, que são as protagonistas da história.

LIVRO: Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon

Há alguns anos, publiquei de forma independente um livro-reportagem que escrevi no meu último ano do curso de jornalismo, e que foi meu trabalho de conclusão de curso.
Foram exatos 10 meses me dedicando à um assunto muito polêmico e que eu sabia que não deveria nunca cair no esquecimento da população: Um clínico geral em Campo Grande (MS) resolveu 'brincar' de cirurgião plástico e deixou centenas de mulheres mutiladas. Foram mais de 20 anos operando sem a especialização necessária e vários erros consecutivos. Negligência e imperícia? Ou seria tudo isso junto e muito mais?
A mídia denunciou o médico em 1999. Foram quase dois anos de matérias diárias sobre o caso publicadas na cidade de Campo Grande e no Estado de Mato Grosso do Sul, além de divulgações em rede nacional e em outros países. Porém, em 2005 muitas mulheres vitimadas nem sequer tinham uma data para depor na justiça. A justiça é assim tão lenta?
Quanto mais questionamentos surgiam, maior a certeza de que esse assunto merecia ser transformado em livro. E aproveito o blog para divulgá-lo, postando os capítulos na sequência.
Se interessou? É só me acompanhar... Você não vai se arrepender.

sábado, 31 de março de 2012

Tempo de menos

Estamos cada vez com menos tempo ou o relógio está nos pregando uma peça. O dia acaba e muitas vezes não fizemos nem metade do que estava programado. O final de semana então! Passa tão rápido que nem é possível recuperar as energias para a próxima semana. Precisamos de mais tempo.

É preciso estudar e trabalhar com afinco para um futuro promissor. A concorrência está cada vez mais assustadora e um diploma de graduação não é mais garantia, como um dia foi um grande diferencial. O salário é desanimador e ainda existe a preocupação em poupar ao menos uma mísera quantia para uma aposentadoria digna, já que não teremos a mesma garra para driblar os problemas e encontrar soluções de sobrevivência como hoje.

Sobrevivência. Isso mesmo. Muitos apenas sobrevivem a essa cansativa correria: trabalho, casa, e quanto tem a oportunidade, estudo. E não vivem. Passam anos e mais anos buscando uma segurança que, na verdade, não é garantia alguma de felicidade. Querem ter dinheiro para então alcançar a felicidade. Tola ilusão. O dinheiro nunca fará você voltar no tempo, pode ajudar a esconder algumas rugas provocadas por ele, mas você continuará com a mesma idade, com as mesmas satisfações ou frustrações decorrentes de suas escolhas passadas.

Seus 25 anos só passam uma vez - pelo menos em cada encarnação, para quem acredita em outras vidas. O dia em que seu filho conquistou a medalha no campeonato pela única vez também não voltará. O aniversário de cindo anos de sua filha em que você estava ocupado no escritório não terá suas fotos. A virada de ano com a turma de amigos talvez nunca mais se repita... No outro ano cada um pode ter tomado um rumo diferente na vida... Alguns casam, outros mudam de país, outros simplesmente somem.

Muitas oportunidades só passam uma vez na vida. Infelizmente nesse momento você pode estar ocupado demais trabalhando, ou até mesmo em casa para economizar aquele dinheiro que poderia ser melhor utilizado se você escolhesse viver o dia de hoje. Ser feliz no agora.

Não estou falando para gastar até os últimos centavos que ganha, curtindo todos os momentos da vida e deixar de pensar no amanhã, mas sim perceber o valor de cada coisa em sua vida. Muitas vezes é necessário – e saudável – sacrificar algumas horas de trabalho ou parte de seu tão suado dinheiro para preservar momentos com as pessoas que você realmente considera importantes em sua vida. Se não fizer estes sacrifícios, talvez um dia se encontre no império que batalhou para construir, mas sem pessoas queridas para comemorar a conquista e sem a energia dos seus 30 anos.

Talvez você se encontre sozinho. E sozinho ninguém é feliz. A dependência humana para a felicidade sempre existirá, independente de quanto dinheiro você possua. É nessa hora que você perceberá que o dinheiro não foi capaz de lhe dar o que realmente importa.