“A sensação que tenho é que meu off e
minha passagem foram ao ar,
mas eu não consegui fechar a matéria."
Edson Godoy
A busca por uma verdade condizente com os fatos continuava e uma pergunta não queria calar. Depois de tanto barulho, por que a imprensa parou de divulgar o caso? Esquecimento? Após ouvir a jornalista Cláudia Trimarco, percebi a importância de conversar com outro jornalista que também ajudou a levantar o caso, e marquei uma entrevista com Edson Godoy. Ele atualmente trabalha na TV Morena como repórter e na assessoria de comunicação da Santa Casa. De início, Godoy afirmou que o caso Rondon foi marcante em sua profissão, o que o fez se interessar pelo jornalismo investigativo.
“Tudo começou com um telefonema”. O jornalista contou que estava na redação da TVE quando uma mulher chamada Maria ligou, não quis se identificar e pediu para que ele fosse até a Assembléia Legislativa porque havia um grupo de mulheres que ia fazer uma denúncia grave. Godoy não pensou duas vezes e foi, sem nem saber do que se tratava. Chegando na Assembléia, encontrou um grupo de funcionárias que queriam mostrar o drama que estavam vivendo. Todas tiveram suas cirurgias plásticas mal sucedidas, feitas pelo ex-deputado e médico Alberto Rondon. O jornalista relatou que somente lá existiam cinco casos comprovados, fora outros de pessoas ligadas a funcionários do órgão, como filhas e irmãs, entre outras.
Godoy chamou atenção para o fato de que a TVE noticiou o caso pela primeira vez no sábado, e os outros veículos de comunicação só foram noticiar uma semana depois. O motivo da demora? De acordo com o jornalista, foi o “furo de reportagem”, pois os grandes veículos de comunicação de Campo Grande não podiam admitir que uma redação tão pequena como era a da TVE estava divulgando a notícia antes deles e ficaram com medo de também dar uma notícia que não estivesse bem apurada. Godoy explica que o grupo de mulheres que fez a denúncia confiou apenas em alguns profissionais, e foram esses profissionais que passaram a trabalhar com a notícia, com o fato.
“Só depois, quando eles viram que o caso virou manchete e que não podiam fugir disso, começaram a noticiar”, afirmou Godoy. Quando os grandes veículos de comunicação, que representam as grandes emissoras no Brasil, entraram no assunto o caso ganhou repercussão nacional, mas, segundo o jornalista, a TVE já estava divulgando a história há dez dias.
Edson Godoy admite que esse foi um momento em que realmente foi feito jornalismo. Na época, eles conseguiram gravar com Alberto Rondon, mostrar a clínica onde ele fazia as consultas e fazer gravações com as vítimas. A cada reportagem exibida, aumentava o número de ligações na redação da TV - de mulheres que tinham sido vítimas - e isso fez Godoy perceber a quantidade de pessoas que tinham sido operadas pelo médico. Ele falou que a jornalista Claudia Trimarco teve um papel fundamental, pois ela descobriu a falta da especialização médica - a residência em cirurgia plástica - o que levou o caso ao Conselho Regional de Medicina. Godoy acredita que o caso ganhou repercussão nacional porque o CRM também entrou na história.
Foi uma época marcante na vida profissional deste jornalista. “Nós recebemos a denúncia e fomos ouvir a história”, explica. O que chamou a atenção de Godoy foi que todos os grandes veículos ficaram de fora da cobertura. Somente quando um divulgou a notícia, todos os outros correram atrás. O jornalista conta que esse caso mudou a história do jornalismo em Mato Grosso do Sul, pois a imprensa conseguiu mexer com uma classe extremamente corporativista, que é a classe médica. E a partir do caso Rondon foram feitas outras grandes reportagens, tanto na área médica, como em outras áreas. Segundo ele, tudo isso aconteceu depois que o CRM se posicionou, e o órgão teve um papel fundamental nesse momento, porque conseguiu punir um mau profissional.
Ao ser questionado sobre a imparcialidade jornalística, Godoy relata que sua chefe de redação obrigava todos os jornalistas a checar os dois lados da história, sempre. “Tivemos o cuidado de ouvir os dois lados, mas tínhamos uma história verdadeira, tínhamos cicatrizes como prova disso”. Foram ouvidos o médico e as vítimas. O jornalista desabafa que o caso Rondon foi a primeira grande matéria que mexeu com ele enquanto pessoa, ser humano e profissional da área de comunicação, que o fez lidar com a emoção, com a razão e com a ética profissional. “A história era fantástica do ponto de vista jornalístico e do ponto de vista de drama, era muito triste”.
Umas das cenas que mais o marcou foi ver uma menina de dezesseis anos, no início da juventude, que teve parte dos seios totalmente deformados depois de uma cirurgia para a redução e, que, mesmo passando por tantas outras cirurgias reparadoras, ficou numa situação alarmante. “Às vezes eu lembro do assunto e me causa uma grande tristeza, porque eu acompanhei de perto o sofrimento dessas mulheres, a história de cada uma delas”.
Godoy comenta sobre a coragem das vítimas ao se expor à mídia e mostrar tudo o que elas estavam passando. Hoje, após alguns anos, o jornalista encontra essas mulheres na rua e lembra que elas ainda têm as cicatrizes que ele relatou há seis anos, que estão marcadas para sempre em seus corpos. O que mudou na vida dessas pessoas? Godoy acredita que o que mudou foi que o caso ficou conhecido, pois muitas delas não conseguiram absolutamente nada, mesmo com toda a pressão da imprensa. “O que se conseguiu foi fazer com que Rondon parasse de operar, mas o ato reparador não aconteceu para todas”.
O caso Rondon foi a pior história da cirurgia plástica no Brasil e virou notícia em rede nacional. Godoy fica incomodado com o fato dos veículos de comunicação esquecerem fácil dos acontecimentos, pois não existe jornalismo sem memória, sem história. Hoje, depois de seis anos da denúncia, ele fica impressionado ao ver que ninguém lembra mais do caso, porém resta a esperança de um final justo para todas essas mulheres que sofreram tanto.
Godoy acredita que o papel do jornalista é fazer parte da história da vida das pessoas e esse caso vai ficar marcado em sua vida profissional. “Se essas mulheres têm cicatrizes eu também fiquei com algumas. A cada entrevista era uma nova cicatriz que se formava dentro de mim, e hoje eu ainda aguardo justiça”. Edson aguarda a conclusão do trabalho que fez e espera que aquelas reportagens tenham sido objeto em benefício às vítimas. Ele explica que as pessoas precisam aprender a separar o papel do jornalista, o da justiça e o da polícia. “Acredito que cumprimos bem a nossa missão com o que fizemos. Talvez estamos falhando agora por não lembrar mais do caso, mas estamos aguardando a decisão da polícia e da justiça”.
Na época das denúncias, outro momento que o deixou chocado foi em uma entrevista com algumas mulheres na Assembléia Legislativa, quando elas tiraram a roupa para mostrar as cicatrizes. “Nunca mais vou esquecer aquela cena”. O jornalista afirma que se os veículos de comunicação voltassem a noticiar o caso, apressaria o desfecho da história, pois os grandes fatos do mundo tiveram solução por causa da pressão da imprensa. “Sem levar o caso à tona, não existe punição”.
Por ter ajudado a levantar essa história, Edson aguarda, depois de seis anos, a solução. “Meu off e minha passagem foram ao ar, mas eu não consegui fechar a matéria”. Essa é a sensação que Godoy tem, e vê neste livro uma esperança para o fechamento de sua matéria.
(3º Capítulo do Livro Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon)
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