Recém saída de mais uma tentativa furada, Betina abandonou a ideia de encontrar um grande amor e resolveu passar a virada do ano de uma forma diferente, viajando com os amigos. Tinha um rolinho no meio da turma, mas já sabia que não era seu príncipe encantado, o conhecia há tempos.
Uma viagem divertida e inesquecível. Betina conheceu uma pessoa por quem se interessou. O sentimento foi recíproco e surgiu a esperança de um futuro, de um começo de ano diferente. O rolinho cedeu o lugar para uma, digamos já de início, paixão. Química boa, combinação de ideias, beijo perfeito. Betina voltou para sua cidade transformada e acreditando que tudo seria diferente. Telefonemas, visitas, carinho, preocupação.
Um sentimento guardado para alguém especial, parecia ser a hora de libertá-lo. Seu “príncipe” levou-a para conhecer seus pais e juntos dividiram uma pizza. Depois um vinho na rede e declarações, planos, elogios. Betina sentia-se tão bem com a situação que deixou de ouvir seu príncipe por alguns segundos e pensou que sentiria saudade daquele momento, daquela sacada, estava tudo muito perfeito. Hoje ela se arrepende de achar que não merecia tudo aquilo, que só acontecia com os outros. Não que ela não quisesse, mas já não acreditava mais.
Um pedido de namoro e uma certeza de dias felizes. Acordou realizada e já contou a novidade para a irmã. Tudo muito rápido e perfeito. Não sabia o que iam fazer no domingo, mas com certeza iam ficar um bom tempo juntos. Betina achou melhor esperar a ligação de seu príncipe, já havia enviado uma mensagem no celular e não queria demonstrar ansiedade. As horas passavam e uma angústia tomava conta de seu peito. Será que ele dormira tanto? Foi na casa do amigo? Ela resolveu dar uma volta, ia enlouquecer se continuasse dentro de casa.
Nada de ligações. Ela resolveu ligar. Em casa não estava e não atendeu o celular. As mãos da garota já estavam trêmulas e seu sentimento não era bom. Lágrimas escorreram de sua face antes de adormecer. “Não há de ser nada...” iludia-se. Não amanheceu bem e seu dia foi uma tortura. Cuidava do celular e nada de ligações. Um nó na garganta prejudicava suas refeições. Não queria ligar novamente, mas viver na dúvida com certeza era pior.
A voz de um ‘ex-príncipe’ atendeu ao telefone. Betina soltava palavras afiadas e ele tentava se proteger. Uma conversa curta interrompida com a promessa de um encontro para explicações. Os ponteiros do relógio demoravam a passar e um sentimento pessimista destruía as esperanças da garota. Ninguém apareceu. Era apenas mais um. Após o total silêncio em sua casa, as lágrimas ganharam uma intensidade incrível. O ano mal começava e já deixava tristes lembranças, mais uma para a coleção, mais um no cemitério.
O amanhecer do dia seguinte era desolador. Sua cabeça doía e não conseguia encontrar explicações para o que estava acontecendo. Uma ligação a fez estremecer. Ele queria conversar para ser menos odiado. Horas depois estavam lado a lado sentados na calçada de sua casa.
A garota ouvia tudo já esperando desculpas por não ser correspondida como queria, mas se enganou. Seu príncipe a queria, porém o destino pregou uma peça a esse novo amor: um filho estava a caminho. Não de Betina, mas da ex. Um castelo desabando! Grandes chances de ser mentira, mas não era impossível ser verdade. Ele alimentou a esperança de ser mentira e era nessa possibilidade que a garota se agarrava. Uma confirmação dependendo de um exame de sangue e seu sono abalado até esse dia.
Passados alguns meses, Betina solta frustrantes gargalhadas ao lembrar de seu “príncipe”. Envergonha-se de ser sido tão ingênua; uma verdadeira tola, diga-se de passagem. Nada de exames de sangue, nenhum primogênito, somente algumas desculpas esfarrapadas e a fuga de um cavaleiro imaginário.
Não existia um filho, mas não pergunte a Betina o que então existia porque ela nunca vai saber responder. Já se perguntou inúmeras vezes e tentou compreender o que lhe aconteceu, mas não chegou a nenhuma explicação cabível. E as viagens continuam, assim como a vida.
(escrito em março de 2006)