domingo, 26 de fevereiro de 2012

Apenas mais uma de, quase, amor

Recém saída de mais uma tentativa furada, Betina abandonou a ideia de encontrar um grande amor e resolveu passar a virada do ano de uma forma diferente, viajando com os amigos. Tinha um rolinho no meio da turma, mas já sabia que não era seu príncipe encantado, o conhecia há tempos.
Uma viagem divertida e inesquecível. Betina conheceu uma pessoa por quem se interessou. O sentimento foi recíproco e surgiu a esperança de um futuro, de um começo de ano diferente. O rolinho cedeu o lugar para uma, digamos já de início, paixão. Química boa, combinação de ideias, beijo perfeito. Betina voltou para sua cidade transformada e acreditando que tudo seria diferente. Telefonemas, visitas, carinho, preocupação.
Um sentimento guardado para alguém especial, parecia ser a hora de libertá-lo. Seu “príncipe” levou-a para conhecer seus pais e juntos dividiram uma pizza. Depois um vinho na rede e declarações, planos, elogios. Betina sentia-se tão bem com a situação que deixou de ouvir seu príncipe por alguns segundos e pensou que sentiria saudade daquele momento, daquela sacada, estava tudo muito perfeito. Hoje ela se arrepende de achar que não merecia tudo aquilo, que só acontecia com os outros. Não que ela não quisesse, mas já não acreditava mais.
Um pedido de namoro e uma certeza de dias felizes. Acordou realizada e já contou a novidade para a irmã. Tudo muito rápido e perfeito. Não sabia o que iam fazer no domingo, mas com certeza iam ficar um bom tempo juntos. Betina achou melhor esperar a ligação de seu príncipe, já havia enviado uma mensagem no celular e não queria demonstrar ansiedade. As horas passavam e uma angústia tomava conta de seu peito. Será que ele dormira tanto? Foi na casa do amigo? Ela resolveu dar uma volta, ia enlouquecer se continuasse dentro de casa.
Nada de ligações. Ela resolveu ligar. Em casa não estava e não atendeu o celular. As mãos da garota já estavam trêmulas e seu sentimento não era bom. Lágrimas escorreram de sua face antes de adormecer. “Não há de ser nada...” iludia-se. Não amanheceu bem e seu dia foi uma tortura. Cuidava do celular e nada de ligações. Um nó na garganta prejudicava suas refeições. Não queria ligar novamente, mas viver na dúvida com certeza era pior.
A voz de um ‘ex-príncipe’ atendeu ao telefone. Betina soltava palavras afiadas e ele tentava se proteger. Uma conversa curta interrompida com a promessa de um encontro para explicações. Os ponteiros do relógio demoravam a passar e um sentimento pessimista destruía as esperanças da garota. Ninguém apareceu. Era apenas mais um. Após o total silêncio em sua casa, as lágrimas ganharam uma intensidade incrível. O ano mal começava e já deixava tristes lembranças, mais uma para a coleção, mais um no cemitério.
O amanhecer do dia seguinte era desolador. Sua cabeça doía e não conseguia encontrar explicações para o que estava acontecendo. Uma ligação a fez estremecer. Ele queria conversar para ser menos odiado. Horas depois estavam lado a lado sentados na calçada de sua casa.
A garota ouvia tudo já esperando desculpas por não ser correspondida como queria, mas se enganou. Seu príncipe a queria, porém o destino pregou uma peça a esse novo amor: um filho estava a caminho. Não de Betina, mas da ex. Um castelo desabando! Grandes chances de ser mentira, mas não era impossível ser verdade. Ele alimentou a esperança de ser mentira e era nessa possibilidade que a garota se agarrava. Uma confirmação dependendo de um exame de sangue e seu sono abalado até esse dia.
Passados alguns meses, Betina solta frustrantes gargalhadas ao lembrar de seu “príncipe”. Envergonha-se de ser sido tão ingênua; uma verdadeira tola, diga-se de passagem. Nada de exames de sangue, nenhum primogênito, somente algumas desculpas esfarrapadas e a fuga de um cavaleiro imaginário.
Não existia um filho, mas não pergunte a Betina o que então existia porque ela nunca vai saber responder. Já se perguntou inúmeras vezes e tentou compreender o que lhe aconteceu, mas não chegou a nenhuma explicação cabível. E as viagens continuam, assim como a vida.

(escrito em março de 2006)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Pare e compreenda

Para não enlouquecer é preciso compreender alguns significados.
É preciso entender que para viver não basta apenas estar vivo
Que o silêncio fala mais do que as palavras
Que os melhores amigos podem ser aqueles que mal te ligam
Que quando alguém quer ficar em seu quarto
Não significa que queira passar o fim de semana em casa
E sim, que precisa de um momento de isolamento para refletir
Que o dono do maravilhoso beijo da noite passada
Só quis o beijo
Que o cara com quem você discutiu na fila do supermercado
Pode ser o pai dos seus filhos
Ou o grande amor da sua vida
Entenda que as desilusões são inevitáveis
Mas não significa que o amor não existe
Aceite que seu prato favorito amanhã pode não ter a mesma graça
Suas preferências musicais podem ser trocadas por outras aos poucos
Aquele lugar especial não lhe trará empolgação para sempre
E isso não significa que você está ficando velho
Amanhã você vai se considerar imaturo perante as atitudes do hoje
E já será tarde para corrigir alguns erros
Mas estará em tempo de não repeti-los
Se seu emprego não trará mais motivação
“Passe o boné!”
Procure algo que lhe dê tesão
É essencial ter vontade de pular da cama
Ter prazer ao fazê-lo todos os dias
Meça suas palavras
Mas não tanto
Faz parte ferir e ser ferido
Quando tropeçar e cair, chore
De tanto rir
Observe como é fácil levantar e continuar em frente
Saia com os amigos, beba e dance todas
A dor de cabeça no dia seguinte lhe trará ótimas lembranças da noite passada
Quando ouvir uma música que é a “sua cara”
Pare tudo, feche os olhos e viaje um pouco
Mas não esqueça que a Terra te espera
Sonhe com um mundo melhor
Mas contribua para que isso aconteça
Lembre-se que você é dono do seu nariz
Mas que não está sozinho no mundo
Dependemos um do outro
E, por fim, respeite-se.


(escrito em 29.07.2005)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Um dia daqueles... e não é TPM!

Não, não estou com TPM, e isso é o pior. O dia começou como toda sexta-feira... Difícil para acordar, mas depois que lembrei que era sexta tudo melhorou. E caminhou na rotina já esperada. Uma chuva de verão próxima da hora de sair do trabalho para não fugir do normal, mas que teve piedade e deu uma trégua até chegar em casa.
Não sei em que momento tudo se tornou maior e mais pesado, mas a aula de dança estava quase sendo riscada da minha programação do dia quando decidi vencer o desânimo. Cheguei atrasada e me arrependi de ter ido, logo nos primeiros segundos. Percebi que hoje não era um dia bom para interagir, mas como já estava lá ‘entrei na dança’, literalmente. Até consegui dar boas risadas, porque dançar não é meu forte!
Já que eu tinha me convencido a sair de casa, resolvi malhar depois da dança, o que também não foi uma boa ideia, ainda mais por estar sem jantar. Enfim, antes que eu desmaiasse na academia, voltei para casa. Eu estava cansada, chateada, com fome, e ainda tive a 'sorte' de dividir o elevador com um vizinho que segurava uma pizza quentinha, cheirosa... Quase consegui identificar o sabor da pizza naqueles poucos minutos de tortura. Para me deixar mais arrasada, ele falou que tinha malhado pela manhã, porque sempre acordava às 6h no maior pique para malhar. Fiquei com muito ódio dele!
Imagina se eu tivesse acordado às 6h para malhar? Naquele momento eu também poderia estar livre, leve e solta (e de banho tomado) para comer uma pizza! Mas não... Eram quase 22h30 e eu ainda precisava pensar no que fazer para comer, já que o lanche que eu costumava jantar diariamente estava dando sinais de que não me fazia mais bem. Na verdade, bem ele nunca fez, mas agora estava fazendo mal. Enquanto eu pensava no jantar, também pensava em sair para aproveitar meu último final de semana de férias, antes do Carnaval. Realmente não consegui tomar boas decisões.
Parti para o preparo do jantar antes que eu desmaiasse. Queria comer algo saudável, o que é um baita desafio – pelo menos na minha geladeira. Cozinhei batatas e cenouras. Quando ficaram prontas, quase 23h30, nos entreolhamos e percebemos que não tinha mais nada para acrescentar ao preparo. Nada que minha criatividade estivesse preparada para criar e eu não estava disposta à recorrer ao google. Durante esse dilema, caiu uma tempestade para me conformar por não ter saído de casa.
Como as batatas e as cenouras cozidas estavam muito tristes sozinhas, resolvi pegar o peito de peru e o queijo em fatias, que eu usava para fazer meu lanche, e os fritei na manteiga! Acho que o que estava me fazendo mal nos dias anteriores era o pão de forma, certeza! Muitos grãos saudáveis dão nisso... Que minha amiga nutricionista Vivian não leia esse desabafo.
Esse foi meu jantar à meia-noite, em uma sexta-feira solitária e chuvosa. Uma experiência culinária quase britânica, que me causou várias reflexões e indagações do tipo: ‘O que as pessoas que moram sozinhas fazem para se alimentar?’ Se a cozinha não é um lugar em que me identifico, hoje eu estava sem uma mísera inspiração. Minha mãe teria vergonha de mim... E como eu tenho saudade dela!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Na sala de espera

Depois de vencer uma chuva de verão a caminho do consultório médico, precisei aguardar um tempo até chegar minha vez de ser atendida. Abri a revista que carrego na bolsa para esses momentos de infinita espera, mas, antes mesmo que eu terminasse de ler o primeiro parágrafo, comecei uma conversa com a secretária.
Começamos a falar sobre convênios médicos e eu perguntei a ela qual hospital em São Paulo ela considerava bom, já que ainda não precisei de nenhum, graças a Deus. Ela citou alguns nomes, mas falou que isso era muito relativo. Deu exemplo do Hospital Sírio-Libanês que tem uma ótima fama, no entanto muitos não sabem que, em vários casos, cabe à outros hospitais continuar o seu trabalho.
Como assim? Também fiquei curiosa e a questionei. Para explicar, ela contou um pouco de sua história como auxiliar de enfermagem e seus quase dez anos cuidando do setor dos hepáticos no Hospital Municipal Menino Jesus...
Existe uma parceria entre esses os dois hospitais, sendo as cirurgias de transplante de fígado realizadas no Sírio e ficando o Menino Jesus responsável pelo pós-operatório. E é nesse pós-operatório que o “bicho pega”. Cuidando da pediatria – que corresponde a crianças de 29 dias de vida até os 20 anos – ela acompanhou crianças que ficaram internadas por meses, mais de um ano, e a maioria não conseguiu se recuperar. Algumas melhoravam e conseguiam liberação para voltar para casa, mas semanas depois voltavam para viver por mais alguns dias.
Esse sim era o trabalho árduo que o Sírio-Libanês não tinha. Não diminuindo o trabalho de um cirurgião, mas é no contato com o doente, naquela convivência diária que só um enfermeiro ou auxiliar de enfermagem tem, que se entende a dor de uma doença. Ela chamou atenção para a dificuldade do transplante de fígado, em que a cada 10 casos, nove são rejeitados. Talvez esse número não esteja exato, pode ser que essa realidade tenha melhorado um pouco, ou piorado, não sei, mas essas foram as palavras de alguém que acompanhava o dia a dia de casos e mais casos, e de tantos finais tristes.
Eu estava ali mergulhada naquela história, um dia depois dela pedir demissão do hospital. Estava se aposentando, mas podia continuar. Não agüentou. Preferiu continuar apenas no consultório médico, que antes conciliava com o outro emprego. Foram anos sofridos e sem conseguir não se apegar aos pacientes, como muitos a aconselhavam. Simplesmente ela não estava manipulando fórmulas, estava cuidando de pessoas, com dores, sentimentos e tristezas.
Contou mais alguns casos isolados, de pacientes que foram marcantes em sua passagem pelo hospital, como o da menina que respondeu ao médico quando ele falou que cuidou dela: “O senhor não cuidou de mim não, o senhor me via de vez em quando, quem cuidou de mim todo esse tempo foram as enfermeiras!” E esse médico lembra até hoje com carinho da menina que se foi, mas que não teve receio de ser franca.
Hora da consulta. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Perdendo os dedos

Enfim, hoje é o dia do meu casamento. Ao contrário do que todos esperavam o dia não amanheceu bonito, havia várias nuvens encobriando o céu e ventava muito forte. No jornal, o repórter dava a notícia de um belo dia de sol. Porém, não foi só o dia que amanheceu obscuro. Eu sentia um vazio enorme que tomava conta de mim, cada vez mais esse sentimento estranho aumentava. Certeza do que eu estava fazendo não tinha, mas sabia que era a única opção.

A minha alma queria abandonar meu corpo, sendo contra ao que eu iria fazer. Ao meu redor pessoas sorriam, correndo de um lado para o outro terminando de arrumar os preparativos. Tudo muito bem programado, coisas da melhor qualidade, porém tudo muito artificial. Tranquei-me no quarto querendo um pouco de sossego, mas infelizmente não deixaram que eu ficasse ali por muito tempo, pois tinham que arrumar a noiva. Eu não abria a boca para nada, estava parecendo uma boneca que jogavam de mão em mão, e arrumavam cabelo, vestido, maquiagem. Para dizer a verdade eu estava longe dali. Ninguém era capaz de perguntar como eu estava me sentindo, só me mandavam sorrir. Sorrir? Não queria sorrir, não tinha porque sorrir.

Chegada a hora do casamento, entrei na igreja repleta de pessoas que eu não conhecia a metade. Fotógrafos, imprensa... estavam todos ali para testemunhar meu fim. Não sabia o que iria acontecer, mas suava frio sentindo que algo muito ruim mudaria minha vida. No altar, um estranho me esperava sorrindo. Apesar de uma relação de cinco anos, havia se transformado em um estranho para mim. Seu sorriso me dava nojo, o jeito com que seus olhos me encaravam fez com que eu tomasse a decisão mais difícil de todas as que tomei até hoje...