Depois de vencer uma chuva de verão a caminho do consultório médico, precisei aguardar um tempo até chegar minha vez de ser atendida. Abri a revista que carrego na bolsa para esses momentos de infinita espera, mas, antes mesmo que eu terminasse de ler o primeiro parágrafo, comecei uma conversa com a secretária.
Começamos a falar sobre convênios médicos e eu perguntei a ela qual hospital em São Paulo ela considerava bom, já que ainda não precisei de nenhum, graças a Deus. Ela citou alguns nomes, mas falou que isso era muito relativo. Deu exemplo do Hospital Sírio-Libanês que tem uma ótima fama, no entanto muitos não sabem que, em vários casos, cabe à outros hospitais continuar o seu trabalho.
Como assim? Também fiquei curiosa e a questionei. Para explicar, ela contou um pouco de sua história como auxiliar de enfermagem e seus quase dez anos cuidando do setor dos hepáticos no Hospital Municipal Menino Jesus...
Existe uma parceria entre esses os dois hospitais, sendo as cirurgias de transplante de fígado realizadas no Sírio e ficando o Menino Jesus responsável pelo pós-operatório. E é nesse pós-operatório que o “bicho pega”. Cuidando da pediatria – que corresponde a crianças de 29 dias de vida até os 20 anos – ela acompanhou crianças que ficaram internadas por meses, mais de um ano, e a maioria não conseguiu se recuperar. Algumas melhoravam e conseguiam liberação para voltar para casa, mas semanas depois voltavam para viver por mais alguns dias.
Esse sim era o trabalho árduo que o Sírio-Libanês não tinha. Não diminuindo o trabalho de um cirurgião, mas é no contato com o doente, naquela convivência diária que só um enfermeiro ou auxiliar de enfermagem tem, que se entende a dor de uma doença. Ela chamou atenção para a dificuldade do transplante de fígado, em que a cada 10 casos, nove são rejeitados. Talvez esse número não esteja exato, pode ser que essa realidade tenha melhorado um pouco, ou piorado, não sei, mas essas foram as palavras de alguém que acompanhava o dia a dia de casos e mais casos, e de tantos finais tristes.
Eu estava ali mergulhada naquela história, um dia depois dela pedir demissão do hospital. Estava se aposentando, mas podia continuar. Não agüentou. Preferiu continuar apenas no consultório médico, que antes conciliava com o outro emprego. Foram anos sofridos e sem conseguir não se apegar aos pacientes, como muitos a aconselhavam. Simplesmente ela não estava manipulando fórmulas, estava cuidando de pessoas, com dores, sentimentos e tristezas.
Contou mais alguns casos isolados, de pacientes que foram marcantes em sua passagem pelo hospital, como o da menina que respondeu ao médico quando ele falou que cuidou dela: “O senhor não cuidou de mim não, o senhor me via de vez em quando, quem cuidou de mim todo esse tempo foram as enfermeiras!” E esse médico lembra até hoje com carinho da menina que se foi, mas que não teve receio de ser franca.
Hora da consulta.
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