Enfim, hoje é o dia do meu casamento. Ao contrário do que todos esperavam o dia não amanheceu bonito, havia várias nuvens encobriando o céu e ventava muito forte. No jornal, o repórter dava a notícia de um belo dia de sol. Porém, não foi só o dia que amanheceu obscuro. Eu sentia um vazio enorme que tomava conta de mim, cada vez mais esse sentimento estranho aumentava. Certeza do que eu estava fazendo não tinha, mas sabia que era a única opção.
A minha alma queria abandonar meu corpo, sendo contra ao que eu iria fazer. Ao meu redor pessoas sorriam, correndo de um lado para o outro terminando de arrumar os preparativos. Tudo muito bem programado, coisas da melhor qualidade, porém tudo muito artificial. Tranquei-me no quarto querendo um pouco de sossego, mas infelizmente não deixaram que eu ficasse ali por muito tempo, pois tinham que arrumar a noiva. Eu não abria a boca para nada, estava parecendo uma boneca que jogavam de mão em mão, e arrumavam cabelo, vestido, maquiagem. Para dizer a verdade eu estava longe dali. Ninguém era capaz de perguntar como eu estava me sentindo, só me mandavam sorrir. Sorrir? Não queria sorrir, não tinha porque sorrir.
Chegada a hora do casamento, entrei na igreja repleta de pessoas que eu não conhecia a metade. Fotógrafos, imprensa... estavam todos ali para testemunhar meu fim. Não sabia o que iria acontecer, mas suava frio sentindo que algo muito ruim mudaria minha vida. No altar, um estranho me esperava sorrindo. Apesar de uma relação de cinco anos, havia se transformado em um estranho para mim. Seu sorriso me dava nojo, o jeito com que seus olhos me encaravam fez com que eu tomasse a decisão mais difícil de todas as que tomei até hoje...
Acordei meio tonta. Eu me encontrava em uma sala toda branca e vi que meu vestido de noiva estava sujo de sangue. Levantei-me e percebi que era a sala de espera de uma clínica, mas não havia mais ninguém. Fui em direção a uma porta que estava entre aberta e encontrei um homem alto vindo em minha direção apressadamente, com um semblante assustador. Voltei correndo para a sala onde estava para procurar uma saída, mas ele me segurou forte e carregou-me no colo. Não vi mais nada. Acordei sentindo muita dor na mão e vi que eu estava sem meus dedos da mão direita. Desesperada e confusa, só entendi o que estava acontecendo quando a mãe de meu noivo abriu a porta. Com um olhar impiedoso, ela deu gargalhada quando me viu naquela situação, mesmo sabendo que havia perdido muito mais do que eu, um filho.
Quando você conhece uma pessoa e começa a considerá-la especial, espera que o sentimento seja recíproco, mas nem sempre as coisas funcionam assim. No meu caso aconteceu uma paixão. Uma paixão fulminante da parte dele. Eu nunca o amei e sempre deixei isso claro. Foram cinco anos tentando acabar com essa obsessão que me sufocava e, para piorar ainda mais, existia o interesse das duas famílias envolvidas. Como eu sabia que nada do que eu fizesse mudaria a situação, resolvi ser radical e assumir as conseqüências.
A mãe dele começou a apertar minha mão, que sangrava muito. Eu não conseguia conter os gritos, embora soubesse que ninguém viria me socorrer. O ódio no olhar dela fazia com que eu lhe implorasse a morte. Queria morrer, mas eu era muito covarde para um suicídio, não conseguiria. Ela não me concederia esse pedido, o prazer dela era me ver sofrer eternamente. Não tiro sua razão, acho que faria o mesmo se fosse meu filho.
Novamente o homem invadiu a cena e me carregou por vários corredores até descer em um lugar escuro, uma espécie de porão, onde me trancou em um quarto sem janelas. Sim, aquela era minha cela. Era um lugar escuro e frio, e consegui ouvir o barulho de uma goteira em um dos cantos. Eu estava com muitas dores na mão e na cabeça, mas adormeci. Uma leve mudança na iluminação fez com que eu percebesse o amanhecer do dia ao acordar, e então foi possível notar que, através de uma pequena abertura embaixo da porta, me entregaram um punhal. O meu punhal, ainda sujo do sangue do meu noivo. Passaram-se alguns dias e a única coisa que eu recebia era um pouco de água suja, colocada em um prato que passavam pelo buraco da porta.
Cada dia parecia uma eternidade. Não via mais o sol, estava muito fraca. Minha família? Disseram a eles que eu havia fugido após a tragédia e sumido no mundo, contaram-me isso com o maior prazer. Eu não tinha a quem recorrer. Um dia acordei com um barulho, abri os olhos e me senti incomodada com a luz que entrava por uma abertura que fizeram no teto e protegeram com grade. Por causa da claridade observei que haviam colocado um espelho em minha cela.
Ao encarar a minha imagem fiquei horrorizada ao ver no que tinha me transformado. Não estou falando da sujeira e nem dos quilos a menos, mas sim da assassina que me tornei. Depois do dia da igreja, que eu já nem sei mais quanto tempo faz, nunca mais estive em frente a um espelho e me assusto com o que vejo. Com o punhal, que escondi em meu buquê e que em frente ao padre usei contra meu noivo, tomo agora a coragem que sempre me faltou, apelo para o suicídio.
(conto escrito em 12.12.2002)
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