domingo, 29 de abril de 2012

O furo de reportagem

“Eu preferia não ter dado esse furo.
  Eu preferia que não tivessem duzentas pessoas lesadas,
 que não tivesse acontecido essa história.”
Claudia Trimarco


“Eu trabalhava na TVE Regional fazendo algumas reportagens no período da manhã...” Foi assim que começou uma longa conversa com a jornalista Claudia Trimarco, responsável pela primeira matéria sobre o caso Rondon.

Claudia estava em um evento ocorrido na governadoria em abril de 1999, quando prestou atenção no diretor presidente do Previsul, Volney Ávila, que, na saída, estava conversando com uma jornalista colega de trabalho, e sentiu que tinha algo naquela conversa. Ela se aproximou e perguntou ao diretor se não havia nenhuma novidade no Instituto.  “Nossa, menina! Hoje à tarde nós temos uma denúncia para descredenciar um médico: mutilação de mulheres!”, contou Volney. A resposta que a jornalista recebeu foi o suficiente para perceber que tinha algo de errado que precisava ser esclarecido.

Na volta para a TV, Claudia sentiu que deveria noticiar o caso. “Naquele dia me deu um estalo, eu achei que era o melhor a fazer”. Conversou com a diretora de programação da TVE Regional, pediu para fazer a matéria e para o pessoal do jornalismo da TV lhe acompanhar. Foram ela, o jornalista Edson Godoy e a equipe de câmeras.

Claudia fez uma reportagem ao vivo para a rádio de dentro da sala do diretor Volney Ávila com um dos advogados que estava denunciando o médico, e depois fez uma reportagem pelo lado de fora, um boletim, contando o assunto.  O advogado era pai de uma jovem que tinha sido uma das vítimas, uma menina de apenas 16 anos, e esse foi um dos motivos que fez com que a jornalista percebesse a gravidade do assunto. O médico acusado, Alberto Jorge Rondon de Oliveira, era um ex-deputado estadual e foi candidato a prefeito.

Ao final da tarde, depois de fazer a reportagem, a jornalista teve a preocupação de ir ao Fórum, pois, como ela tinha feito uma denúncia no ar, precisava saber o que tinha de registro a respeito do médico. “Qualquer pessoa pode fazer isso, é só dar o nome completo de alguém e pedir para fazer uma busca”, explica Claudia Trimarco. Ela encontrou uma ação em que a pessoa esperava a confirmação de provas para depois pedir os danos moral e material. Essa foi a única acusação encontrada, fora algumas de banco, a própria separação dele e outras questões comerciais.

Enquanto Claudia foi para o Fórum, combinou com o jornalista Luiz Chagas – já falecido -, que trabalhava na parte da produção, que ele ligaria no CRM – Conselho Regional de Medicina - para confirmar como Alberto Rondon estava credenciado, e nessa ligação eles ficaram sabendo que o médico havia se credenciado como clínico geral, e não como cirurgião plástico. Depois ela foi pessoalmente ao CRM e conversou com o diretor presidente na época, Sérgio Furlani.

domingo, 22 de abril de 2012

O diário da busca

“Por onde começar?” Essa era minha aflita indagação. Sem saber o paradeiro de Alberto Jorge Rondon de Oliveira me lancei a uma busca incessante, perdendo algumas noites de sono, mas com a esperança de obter um depoimento.

Uma das primeiras lições que aprendi nos bancos da faculdade de jornalismo foi “ouvir os dois lados da história, sempre”. E esse era meu grande desafio por se tratar de Rondon. Eu tinha a absoluta certeza de que não seria fácil, que ele não iria querer falar, principalmente com uma acadêmica. A verdade é que muitas pessoas que tentei entrevistar, ao longo destes quatro anos de faculdade, me menosprezaram pelo fato de não ser formada, alguns ficavam com receio do que eu iria escrever, como se desconfiassem da minha ética. Infelizmente, muitos não acreditam nos estudantes, e isso é entristecedor.

Comecei ligando para o advogado de Alberto Rondon, Renê Siufi, que afirmou que seu cliente não iria dar depoimentos e nem sabia onde ele estava. Claro que não acreditei. Precisei seguir outro caminho, a busca só estava começando. Por sorte ou ironia do destino, descobri que uma colega estudava com o filho do ex-médico. Com o endereço em mãos – e por mais incrível que pareça, era quase meu vizinho – fui visitá-lo. Gastei longos minutos com o porteiro do edifício e observei a quantidade de câmeras que filmava todos os espaços do prédio. Senti que o porteiro estava incomodado, fazendo mais perguntas do que eu e achei muito estranho. Porém não conseguiria entrar pela garagem sem ser notada com todas aquelas câmeras que faziam a vigília. Precisei me convencer de que o endereço estava errado.

Retornei a ligação para minha colega e contei o que acontecera. Ela me pediu um prazo e apareceu com outro endereço. Nesse meio tempo, voltei a falar com Renê Siufi. E, após várias ligações insistentes, o advogado disse que iria tentar localizar Rondon. Não acreditei novamente. Com o novo endereço em mãos, fui à busca, sempre com receio do que iria encontrar, se é que iria encontrar algo - o que nessa altura eu já desacreditava.

Em frente ao portão, comecei a bater palmas. Fiquei alguns minutos ali. A casa estava aberta, a televisão ligada e eu ouvi o som de uma porta batendo. Chamei algumas vezes pelo nome, mas ninguém me atendeu. Como se algo estivesse errado, um arrepio frio me envolveu, senti que estava perto. Mais alguns minutos, chamados, palmas e uma mulher me atendeu. Seria a ex-esposa de Rondon? Isso eu lamento lhes informar, mas continuo sem saber, só pedi para chamar o garoto.

Quando ele apareceu, senti como se estivesse de frente para Alberto Rondon, devido a uma incrível semelhança com a foto do ex-médico que vi nos jornais. O garoto me olhou desconfiado. Apresentei-me e contei o porquê da visita. Claro que surgiu a pergunta de como eu consegui o seu endereço, mas isso não era relevante naquele momento. Muito menos para ele.

Sem muito custo, ele me forneceu o número do celular do pai e avisou que este residia em Bonito, Mato Grosso do Sul. Muito fácil para ser verdade. Imagino que estejam pensando que sou muito pessimista, entretanto acredito muito na veracidade da seguinte frase: “quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Cheguei em casa e liguei.

Uma criança atendeu o celular, Maria Vitória, e quando eu pedi para falar com Alberto ela gritou o nome “pai” duas vezes. Rondon havia sido pai depois de sua cassação. Uma voz rouca - confesso que mais envelhecida do que a idade que ele tem hoje – atendeu. Eu estava falando com Alberto Jorge Rondon de Oliveira, não acreditava nisso! Tantas coisas passaram pela minha cabeça, primeiramente o mau julgamento que fiz de seu filho, desacreditando que ele havia me passado o número correto do telefone. Enquanto eu explicava o que estava acontecendo, sentia uma tensão do outro lado da linha, como se eu tivesse acabado com a noite de sono de alguém.

Depois que terminei de falar, veio a negação. Rondon não queria e não iria falar comigo, disse não ter nada para declarar. Eu rebati explicando a importância dele contar a sua versão e ele agradeceu a oportunidade, me desejou “tudo de bom”, uma boa noite e se despediu. Ao desligar o telefone, a frustração. Uma grande vitória por ter conseguido falar com ele e uma derrota por não ser da maneira desejada.

Por mais que muitos o julguem culpado, tenham raiva, ódio, queiram vingança, eu queria ouvir sua versão. Por mais que o que Rondon diga não convença ninguém, todos têm direito de se defender e toda história tem dois lados. Não quero fazer sensacionalismo, só quero concretizar o que aprendi nos primeiros dias de aula e carrego até hoje: – acredito que vou carregar pelo resto da vida, e considero essencial - , ouvir os dois lados, mesmo que um desses lados seja ignorado pela maioria. Ele teve sua oportunidade, seja para admitir um erro, pedir desculpas, ou até mesmo só para dar sua versão.

Contudo, a busca não parou por aí. Duas semanas depois, resolvi ligar novamente para Rondon. Imaginei que ele devia ter mudado o número do celular ou, que, ao reconhecer meu número não iria atender. Percebi que sempre penso no pior mesmo. Ele não havia mudado de celular e nem evitou minha ligação, também não demorou muito para atender. Porém, admito que nessa hora eu tenha sido um tanto otimista. Pedi pela segunda vez a ele uma entrevista, na esperança de que ele teria mudado de idéia – juro que acreditei que conseguiria! Que ilusão! O homem elogiado por ser tão educado desligou o telefone na minha cara.

Infelizmente, não teremos o depoimento de Alberto Rondon neste livro.


(2º Capítulo do livro Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon)

domingo, 15 de abril de 2012

Uma triste realidade

“Na verdade, o passado não é estanque,
 algo que acabou e ponto final”. 
Edvaldo Pereira Lima
(jornalista e escritor)




“Errar é humano”. O erro começou no ano de 1981 quando Alberto Rondon se pôs a realizar cirurgias plásticas. Depois o erro se repetiu em cada mulher que ele mutilou. Um número que, na época, aumentava assustadoramente e cerca os 400. Pode ser um pouco mais, um pouco menos, ou muito mais. Só Deus sabe. Muitas mulheres não quiseram mexer na ferida por vergonha, medo ou mesmo por desesperança. Perderam a esperança de que o que elas fizessem traria resultados.

O caso do médico e ex-deputado estadual Alberto Jorge Rondon de Oliveira, mais conhecido como doutor Rondon, virou polêmica em todo o país no ano de 1999 como o “mutilador de seios”, termo que foi destaque na imprensa nacional. O médico prestou serviços de cirurgia plástica reparadora junto ao Instituto de Previdência de Mato Grosso do Sul – Previsul –, ao Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande – IMPCG –  e em sua clínica particular Urgem, sem ter feito especialização para isso.

O resultado foi imperícia e negligência com as pacientes, deixando uma série de mulheres com cicatrizes no corpo e, em alguns casos, com os movimentos das pernas e braços prejudicados após as cirurgias nos seios e abdômen. Além disso, não prestou acompanhamento pós-operatório e ausentou-se da capital sem indicar outro profissional para substituí-lo, deixando suas pacientes sem qualquer assistência.

Foi confirmado pelo Conselho Regional de Medicina (CRM-MS) que Alberto Rondon não possuía registro junto ao órgão como especialista em cirurgia plástica, somente como clínico geral. Porém, além do Conselho não ter informações de que ele estaria usando de tal prática, de acordo com o ex-presidente do CRM-MS, Sérgio Furlani, não era exigido ser especialista para fazer cirurgias como as que foram feitas.

Para prestar esclarecimentos na época ao órgão, o médico quis trocar o papel de culpado pelo de vítima, alegando que o insucesso de suas cirurgias era devido ao fato de que as pacientes não seguiam corretamente as orientações médicas, considerando absurdas as denúncias contra ele. No entanto, o resultado disso foi a cassação de seu diploma em 16 de dezembro de 2000.

De acordo com o site jus navigandi[1], para fazer as cirurgias reparadoras, Rondon recebia um valor “x” do Previsul por operação e cobrava mais R$ 500,00 de suas pacientes. As primeiras mulheres que denunciaram o médico contaram que ele as induzia a confirmar para o Previsul que a cirurgia havia sido realizada para a retirada de nódulos nos seios. Na época não houve fiscalização e nem proibição da propaganda enganosa que o médico fazia, pois colocava em frente a sua clínica uma placa com os dizeres “Clínica de cirurgia plástica Alberto Rondon”.

Este livro tem a proposta de mostrar às pessoas como realmente aconteceu o caso, contando um pouco da história de algumas vítimas que tiveram suas vidas viradas do avesso depois de uma cirurgia. Foi construído baseado nos depoimentos de vítimas e pessoas envolvidas no caso, como a jornalista Claudia Trimarco que fez a primeira matéria sobre a denúncia; o presidente do Conselho Regional de Medicina, na época Sérgio Furlani, e a delegada que registrou o primeiro boletim de ocorrência, Vilma Carvalho, entre outros. Todos contando seus relatos, dramas, traumas, enfim, todos os sentimentos que ficaram marcados, dando enfoque principal a cada uma dessas mulheres, que são as protagonistas da história.

LIVRO: Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon

Há alguns anos, publiquei de forma independente um livro-reportagem que escrevi no meu último ano do curso de jornalismo, e que foi meu trabalho de conclusão de curso.
Foram exatos 10 meses me dedicando à um assunto muito polêmico e que eu sabia que não deveria nunca cair no esquecimento da população: Um clínico geral em Campo Grande (MS) resolveu 'brincar' de cirurgião plástico e deixou centenas de mulheres mutiladas. Foram mais de 20 anos operando sem a especialização necessária e vários erros consecutivos. Negligência e imperícia? Ou seria tudo isso junto e muito mais?
A mídia denunciou o médico em 1999. Foram quase dois anos de matérias diárias sobre o caso publicadas na cidade de Campo Grande e no Estado de Mato Grosso do Sul, além de divulgações em rede nacional e em outros países. Porém, em 2005 muitas mulheres vitimadas nem sequer tinham uma data para depor na justiça. A justiça é assim tão lenta?
Quanto mais questionamentos surgiam, maior a certeza de que esse assunto merecia ser transformado em livro. E aproveito o blog para divulgá-lo, postando os capítulos na sequência.
Se interessou? É só me acompanhar... Você não vai se arrepender.