“Na verdade, o passado não é estanque,
algo que acabou e ponto final”.
Edvaldo Pereira Lima
(jornalista e escritor)
“Errar é humano”. O erro começou no ano de 1981 quando Alberto Rondon se pôs a realizar cirurgias plásticas. Depois o erro se repetiu em cada mulher que ele mutilou. Um número que, na época, aumentava assustadoramente e cerca os 400. Pode ser um pouco mais, um pouco menos, ou muito mais. Só Deus sabe. Muitas mulheres não quiseram mexer na ferida por vergonha, medo ou mesmo por desesperança. Perderam a esperança de que o que elas fizessem traria resultados.
O caso do médico e ex-deputado estadual Alberto Jorge Rondon de Oliveira, mais conhecido como doutor Rondon, virou polêmica em todo o país no ano de 1999 como o “mutilador de seios”, termo que foi destaque na imprensa nacional. O médico prestou serviços de cirurgia plástica reparadora junto ao Instituto de Previdência de Mato Grosso do Sul – Previsul –, ao Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande – IMPCG – e em sua clínica particular Urgem, sem ter feito especialização para isso.
O resultado foi imperícia e negligência com as pacientes, deixando uma série de mulheres com cicatrizes no corpo e, em alguns casos, com os movimentos das pernas e braços prejudicados após as cirurgias nos seios e abdômen. Além disso, não prestou acompanhamento pós-operatório e ausentou-se da capital sem indicar outro profissional para substituí-lo, deixando suas pacientes sem qualquer assistência.
O resultado foi imperícia e negligência com as pacientes, deixando uma série de mulheres com cicatrizes no corpo e, em alguns casos, com os movimentos das pernas e braços prejudicados após as cirurgias nos seios e abdômen. Além disso, não prestou acompanhamento pós-operatório e ausentou-se da capital sem indicar outro profissional para substituí-lo, deixando suas pacientes sem qualquer assistência.
Foi confirmado pelo Conselho Regional de Medicina (CRM-MS) que Alberto Rondon não possuía registro junto ao órgão como especialista em cirurgia plástica, somente como clínico geral. Porém, além do Conselho não ter informações de que ele estaria usando de tal prática, de acordo com o ex-presidente do CRM-MS, Sérgio Furlani, não era exigido ser especialista para fazer cirurgias como as que foram feitas.
Para prestar esclarecimentos na época ao órgão, o médico quis trocar o papel de culpado pelo de vítima, alegando que o insucesso de suas cirurgias era devido ao fato de que as pacientes não seguiam corretamente as orientações médicas, considerando absurdas as denúncias contra ele. No entanto, o resultado disso foi a cassação de seu diploma em 16 de dezembro de 2000.
De acordo com o site jus navigandi[1], para fazer as cirurgias reparadoras, Rondon recebia um valor “x” do Previsul por operação e cobrava mais R$ 500,00 de suas pacientes. As primeiras mulheres que denunciaram o médico contaram que ele as induzia a confirmar para o Previsul que a cirurgia havia sido realizada para a retirada de nódulos nos seios. Na época não houve fiscalização e nem proibição da propaganda enganosa que o médico fazia, pois colocava em frente a sua clínica uma placa com os dizeres “Clínica de cirurgia plástica Alberto Rondon”.
Este livro tem a proposta de mostrar às pessoas como realmente aconteceu o caso, contando um pouco da história de algumas vítimas que tiveram suas vidas viradas do avesso depois de uma cirurgia. Foi construído baseado nos depoimentos de vítimas e pessoas envolvidas no caso, como a jornalista Claudia Trimarco que fez a primeira matéria sobre a denúncia; o presidente do Conselho Regional de Medicina, na época Sérgio Furlani, e a delegada que registrou o primeiro boletim de ocorrência, Vilma Carvalho, entre outros. Todos contando seus relatos, dramas, traumas, enfim, todos os sentimentos que ficaram marcados, dando enfoque principal a cada uma dessas mulheres, que são as protagonistas da história.
Por mais distante que o passado esteja, ele nunca deve ser esquecido, ainda mais quando um caso não está solucionado. O caso Rondon foi polêmico em todo o país e deixou marcas para o resto da vida no corpo e na mente de muitas mulheres. Não se pode esquecer que uma das premissas do jornalismo é, além de informar e denunciar, não deixar que a população esqueça dos fatos que ainda estão sem solução.
Por mais distante que o passado esteja, ele nunca deve ser esquecido, ainda mais quando um caso não está solucionado. O caso Rondon foi polêmico em todo o país e deixou marcas para o resto da vida no corpo e na mente de muitas mulheres. Não se pode esquecer que uma das premissas do jornalismo é, além de informar e denunciar, não deixar que a população esqueça dos fatos que ainda estão sem solução.
Muita ira e incomodação. Foi o que ouvi em muitas ligações que fiz. Mulheres que não queriam nem saber se Alberto Rondon estava vivo, mulheres que devem ter perdido uma noite de sono após atender minha ligação, mesmo recusando o pedido de um depoimento. Peço desculpa a todas elas que, por causa da minha ligação ou de aceitar contar em detalhes tudo o que lhes aconteceu, relembraram isso e sofreram mais um pouco. E agradeço a todas aquelas que compartilharam sua dor comigo.
“Eu não denunciei Rondon antes de estourar o caso porque fiquei constrangida com a situação, e acredito que as outras mulheres pensaram igual”, desabafa Romilda Roque dos Santos.
Mulheres que buscavam melhorar a aparência, uma forma de se sentirem mais belas para si e atraentes para seus maridos, e outras que precisavam reparar algo que lhes incomodava, hoje carregam consigo cicatrizes que lhes tiram noites de sono. Marcas que ficaram não só em seus seios e abdômen, mas que ainda hoje causam tristeza, baixa auto-estima e depressão. Parece inacreditável, mas essas mulheres acreditaram que Rondon tinha razão em tudo. O médico falava a elas que o poder de cicatrização da pele não era bom, que era problema da pessoa e não da cirurgia. E elas acreditaram e culparam-se.
Segundo matérias publicadas em jornais da época, o presidente do Previsul, Volney Ávila, afirmou que Alberto Rondon estava cobrando indevidamente do instituto cirurgias estéticas, quando tinha autorização apenas para retirada de nódulos. Ao ser credenciado no órgão, Rondon apresentou uma declaração falsa de residência médica em cirurgia plástica, que teria realizado de 1981 a 1983, no Hospital Geral de Bonsucesso, no Rio de Janeiro. Em resposta, o médico disse à imprensa que as taxas cobradas estavam dentro da tabela da Associação Médica Brasileira e considerou inadmissível a acusação de mutilação de mulheres em cirurgias plásticas. A primeira denúncia contra Rondon foi registrada no CRM em 1992, e ele foi julgado inocente.
As mulheres vitimadas solicitaram que a Coordenadoria de Políticas Públicas da Mulher intercedesse no caso. Primeiramente pediu-se que as mulheres se organizassem entre si para saber quantas vítimas existiam e chegou-se a um número de 138. Depois, foi realizada uma reunião juntamente com a Secretaria de Saúde e comunicou-se o caso à Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – SBCP – que se dispôs a ajudar. O resultado foi a organização de uma equipe com 11 cirurgiões plásticos de todo o Brasil que vieram a Campo Grande fazer cirurgias reparadoras nas mulheres. Aconteceram cinco etapas e há uma expectativa de retorno da equipe médica, pois nem todas as mulheres puderam refazer a operação. A última etapa aconteceu em dezembro de 2002, quando 14 mulheres foram operadas.
Neste período, durante entrevista à imprensa, o presidente da SBCP, Farid Hakme, declarou que a atitude de Alberto Rondon foi de negligência, imperícia e imprudência. Indignou-se ao ver que o médico cometeu os mesmos erros durante doze anos, e que os colegas cirurgiões plásticos do Estado deixaram que os fatos continuassem acontecendo. Só no ano de 1998, Rondon realizou 653 atendimentos, sem um número exato de quantas pacientes foram operadas. Na época, ao ser questionado sobre a veracidade da notícia divulgada pela mídia de que deporia a favor de Rondon, Farid Hakme considerou um absurdo, pois nunca daria um laudo favorável a um médico para o qual estava corrigindo os erros.
Parte das vítimas de Rondon precisou fazer transplante de músculo do abdômen, retirado indevidamente, além de cirurgias corretivas, o que foi constatado pela microcirurgiã Ana Cristina Rupp. Uma das pacientes de Rondon foi submetida ao exame pericial pelo cirurgião plástico Alcides Arruda e o resultado apurado foi a favor do médico acusado. De acordo com o perito, os quesitos postura do profissional, material cirúrgico, internação, medicamentos, evolução da paciente e quadro pós-operatório isentaram Rondon de toda a responsabilidade. Alcides alegou que, na cirurgia plástica corretiva, existem fatores na evolução que não dependem da atenção do cirurgião plástico, e o resultado da operação está sujeito às variações de diferentes mecanismos fisiológicos que caracterizam cada pessoa, não sendo possível garantir resultados. Acrescentou que a paciente, sem apresentar seqüelas, dias depois da operação trocou de médico, não podendo mais Rondon se responsabilizar pelo tratamento. A vítima recusou-se a aceitar esse laudo, o que causou grande repercussão.
O que ouvi não foram simples relatos de uma cirurgia sem sucesso. Ouvi desabafos da destruição de um sonho, de uma vida. Muitas mulheres perderam o marido, mas pude observar que não foi o marido que deixou de amá-las, mas sim elas que se abandonaram, deixaram de se amar, se resguardaram do mundo, de tudo e de todos. Alimentaram uma enorme vergonha de seu corpo, de ter se deixado enganar.
Os veículos de comunicação pecam por ter deixado o assunto escondido em alguma gaveta, que nem eles lembram qual. Um assunto dessa relevância não deveria ser esquecido até que solucionado. Com a mídia quieta, o caso é silenciado e as pessoas esquecem dos acontecimentos, nem imaginam no que resultou. Também porque ainda não houve um desfecho.
Durante a minha caminhada em busca de informações, quando eu falava sobre o caso, muitas pessoas ficavam curiosas, pois elas revelavam que há muito tempo não ouviam falar sobre o assunto e me questionavam se Alberto Rondon estava preso. Muitos não lembram nem que o médico foi cassado e pensam que ele ainda está exercendo a profissão. Ignorância? Acredito que não. Imagino que muitos pensam assim porque, primeiramente, desacreditam na justiça, e isso por si só já é uma vergonha, e, em segundo, porque faltam informações.
Não é justo, perante todas as mulheres que acreditaram em uma nova vida depois de uma cirurgia, com mais entusiasmo e garra, que a justiça não seja feita após tais brutalidades.
Por fim, tenho que admitir que eu e Farid Hakme tivemos o mesmo pensamento: “É de se publicar um livro”. Boa leitura.
(1º Capítulo do livro Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon)
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