sábado, 31 de março de 2012

Tempo de menos

Estamos cada vez com menos tempo ou o relógio está nos pregando uma peça. O dia acaba e muitas vezes não fizemos nem metade do que estava programado. O final de semana então! Passa tão rápido que nem é possível recuperar as energias para a próxima semana. Precisamos de mais tempo.

É preciso estudar e trabalhar com afinco para um futuro promissor. A concorrência está cada vez mais assustadora e um diploma de graduação não é mais garantia, como um dia foi um grande diferencial. O salário é desanimador e ainda existe a preocupação em poupar ao menos uma mísera quantia para uma aposentadoria digna, já que não teremos a mesma garra para driblar os problemas e encontrar soluções de sobrevivência como hoje.

Sobrevivência. Isso mesmo. Muitos apenas sobrevivem a essa cansativa correria: trabalho, casa, e quanto tem a oportunidade, estudo. E não vivem. Passam anos e mais anos buscando uma segurança que, na verdade, não é garantia alguma de felicidade. Querem ter dinheiro para então alcançar a felicidade. Tola ilusão. O dinheiro nunca fará você voltar no tempo, pode ajudar a esconder algumas rugas provocadas por ele, mas você continuará com a mesma idade, com as mesmas satisfações ou frustrações decorrentes de suas escolhas passadas.

Seus 25 anos só passam uma vez - pelo menos em cada encarnação, para quem acredita em outras vidas. O dia em que seu filho conquistou a medalha no campeonato pela única vez também não voltará. O aniversário de cindo anos de sua filha em que você estava ocupado no escritório não terá suas fotos. A virada de ano com a turma de amigos talvez nunca mais se repita... No outro ano cada um pode ter tomado um rumo diferente na vida... Alguns casam, outros mudam de país, outros simplesmente somem.

Muitas oportunidades só passam uma vez na vida. Infelizmente nesse momento você pode estar ocupado demais trabalhando, ou até mesmo em casa para economizar aquele dinheiro que poderia ser melhor utilizado se você escolhesse viver o dia de hoje. Ser feliz no agora.

Não estou falando para gastar até os últimos centavos que ganha, curtindo todos os momentos da vida e deixar de pensar no amanhã, mas sim perceber o valor de cada coisa em sua vida. Muitas vezes é necessário – e saudável – sacrificar algumas horas de trabalho ou parte de seu tão suado dinheiro para preservar momentos com as pessoas que você realmente considera importantes em sua vida. Se não fizer estes sacrifícios, talvez um dia se encontre no império que batalhou para construir, mas sem pessoas queridas para comemorar a conquista e sem a energia dos seus 30 anos.

Talvez você se encontre sozinho. E sozinho ninguém é feliz. A dependência humana para a felicidade sempre existirá, independente de quanto dinheiro você possua. É nessa hora que você perceberá que o dinheiro não foi capaz de lhe dar o que realmente importa.

domingo, 25 de março de 2012

Somos egoístas

Nascemos egoístas. Essa é a grande verdade. Mas com o convívio em sociedade, somos ensinados desde cedo a nos transformar em pessoas melhores. Ou pelo menos tentar.  Já no nascimento, quando chegamos em casa e percebemos que vamos ter que dividir a atenção dos pais com alguém, começa a batalha.

Normalmente o irmãozinho que te espera chegar ansiosamente da maternidade - e que também não gostou nem um pouco da ideia de ter que dividir a atenção dos pais - já está preparado, o que dá a ele uma certa vantagem na guerra. Sem saber falar, você não pode contar a sua mãe como ele te olha feio e te dá uns beliscões quando ela não está por perto. Para você, um bebê, resta chorar. Que também é uma arma poderosíssima, e que deixa o adversário com mais raiva ainda.

Na escolinha, a professora ensina a importância de dividir suas coisas com os coleguinhas de sala, de pelo menos oferecer “por educação”. Mamãe em casa faz o mesmo, principalmente quando aquela tia chata aparece com o filho pentelho que decide comer toda a sua caixa de bombom. Pelo visto ela não deu a “aula da bondade” ao filho...

Com a adolescência essa situação tende a piorar um pouco. É a época das descobertas e da luta pela aceitação. Muitas vezes ter algo que o outro não tem torna-se vantagem na guerra da concorrência: é preciso conquistar aquele gatinho, uma turma bacana para fazer parte, enfim, vale tudo para impressionar. O que é seu é seu, e ninguém encosta.

Conforme você vai amadurecendo e convivendo em sociedade, fica até feio demonstrar seu lado egoísta em público e você se esforça para reduzir essa característica ao mínimo aceitável possível. Mas por dentro, isso corre vibrante em suas veias. Com certeza, neste momento você vai estar negando que é este ‘monstro’ que descrevo aqui, mas é. Todos nós somos. Não quero causar insônia em ninguém, mas é preciso assumir certas verdades.

Você quer que o namorado troque o futebol por você, mas que ele te deixe sair com as amigas quando não estiver a fim de vê-lo. Se ele decidir fazer o inverso, a casa literalmente cai. As que não caem, estremecem. Você quer que sua amiga esteja à disposição para te ouvir quando você precisa desabafar, mas não quer ser incomodada por ninguém quando decide assistir um filme com o seu amor.  Você deseja sorte à todos no concurso, na vaga de emprego... mas se só tiver uma vaga, que ela seja sua.

Até entende que existem milhões de pessoas no mundo, com diversos afazeres e preocupações, mas quando você está com pressa, seus compromissos são mais importantes. Você até topa ajudar em campanhas do agasalho, doações para cidades desabrigadas - ainda mais que existe uma tremenda pressão da mídia e de outras pessoas te forçando a isso - mas você dá as suas piores roupas... aquelas cobertas que você nem usa, pois nunca faz frio o suficiente no Brasil, nem pensar! Nunca se sabe quando pode nevar na sua cidade...

São tantas situações. Mas com esses poucos exemplos já deu para passar a mensagem: Você até quer que todos sejam felizes, desde que para isso sua felicidade não esteja em jogo. Estou errada?

sexta-feira, 16 de março de 2012

O cavaleiro

Um cavaleiro carrega consigo um segredo
Uma cicatriz lhe acompanha em toda a cavalgada
Por onde passa, seu olhar sombrio e sem rumo apavora
E atrai curiosos
Sua cicatriz nunca foi vista por ninguém
Nem mesmo por ele
Ela é mais profunda do que imagina
Mas a dor que ela provoca está à flor da pele
Isso ele sente
Um nascimento e uma morte
Tudo se completa
E o apunhala pelas costas
Uma cidade lhe traz lembranças
Uma vida que lhe fora arrancada
Em sonho retorna ao seu castelo
Em sua cavalgada se depara com o medo da solidão
Um dia de tempestade o testa
Para saber até onde vai sua coragem
O cavaleiro não sabe para onde vai
Só tem a certeza de que não vai voltar
E nem pode
Seu retorno traria inúmeros desgostos
Costuma não olhar para trás
Por mais que isso lhe doa
Continua seguindo em frente
Sem rumo
Em busca de uma outra estação
Com seu cavalo como único cúmplice
Sem fundo musical para sua trajetória
Em busca de uma nova vida
Com seu destino em mãos
Sem deixar para traz ninguém que sinta sua falta
Saudade é uma palavra que lhe incomoda
Em outra cidade
Mais pessoas o olham assustadas
Alguns desconfiados
Outros têm medo
Seu olhar sombrio observa a todos
Sua cicatriz o perturba
O nascimento de um bastardo
A morte de sua esposa
E seu castelo desabou
Essa cidade já não lhe traz boas lembranças
É hora de continuar seguindo em frente
Embora sem rumo
Com seu cavalo
E sua cicatriz.

(escrito em 28.07.2005)