“Tudo o que eu sabia sobre Rondon,
era que ele era o melhor cirurgião plástico da
cidade,
o nome dele estava na lista de médicos
da Unimed”.
Naiza Moura Rodrigues
Uma mulher simples, com o
desejo de acabar com algo que a incomodava, hoje desabafa suas mágoas para uma
futura jornalista. Naiza de Moura Rodrigues sofria com dores nas costas, devido
ao tamanho avantajado de seus seios e, ao procurar um cirurgião plástico,
acreditou que seus problemas chegariam ao fim. Aconteceu o imprevisto e hoje
Naiza olha para seu passado com uma enorme tristeza.
“Eu precisava fazer uma
cirurgia plástica porque meus seios eram grandes e frágeis, e uma amiga me
indicou Alberto Rondon, afirmando que ele era muito bom”. Naiza marcou a
cirurgia. Fez todos os exames pela Unimed, mas a operação foi particular, pois
o convênio não cobria cirurgias estéticas. A operação aconteceu na clínica Urgem, pertencente a Rondon. “Tudo o que
eu sabia sobre Rondon, era que ele era o melhor cirurgião plástico da cidade, o
nome dele estava na lista de médicos da Unimed”.
Na hora da cirurgia,
quando a paciente estava no centro cirúrgico, Rondon foi vê-la, passou a mão no
rosto dela e anunciou: ”Naiza, eu estou aqui, eu sou o doutor Rondon e sou eu
quem vai te operar agora”. Ela já estava anestesiada e por isso não conseguiu
reconhecer ninguém. Após a cirurgia, ainda no quarto, Naiza sentia uma dor
fortíssima e escorria muito sangue de suas mamas. O enfermeiro que cuidou dela,
mandava-a parar de chorar e ficar quieta. A filha conta que a família precisou
segurar Naiza, pois ela tremia, batia os dentes e tentava pular da cama. O
funcionário afirmava que a paciente estava voltando da anestesia e por isso
eram normais essas reações.
“Era uma clínica sem estrutura para
fazer cirurgias. Se começasse uma hemorragia e não parasse mais, eu teria
morrido. Tudo o que acontecia, se eu estava babando, vomitando, gemendo de dor,
para o enfermeiro era normal. Eu não agüentava mais ficar ali, não agüentava me
olhar”.
O sangue de Naiza formava
poças na cama e ensopava o lençol em que ela estava deitada. O enfermeiro
aconselhou que a filha de Naiza a levasse para debaixo do chuveiro e lhe desse
um banho de água gelada. A vítima não agüentou e desmaiou no colo da filha.
“Depois que Rondon me operou, ele sumiu. Era época de Natal e ele viajou. Eu
fiquei no hospital com minha filha, um enfermeiro e Deus. Sofri muito”. Rondon
não foi vê-la depois da cirurgia, deixou um enfermeiro em seu lugar. Após 24
horas na clínica, o enfermeiro falou para Naiza que ela já podia ir para casa e
esta seguiu as instruções, mesmo com muita dor. “Não ficou como eu queria”,
lamenta.
Foi para casa e o sangue
não estancava. A recomendação dada pelo enfermeiro era para que Naiza lavasse o
local da cirurgia com bastante água e sabão. Ela piorou e foi socorrida pelos
médicos da Unimed. “Eles cuidaram de mim, me receitaram remédios e eu melhorei.
Sorte que eu era conveniada”.
Passados 15 dias, a
paciente foi ao consultório de Rondon e conseguiu encontrá-lo. Naiza perguntou
onde o médico estava nos últimos dias e ele respondeu que havia operado todas
as mulheres que estavam agendadas e viajou, pois após a cirurgia não existia
mais perigo. Ela contou tudo o que havia acontecido e que só conseguiu melhorar
graças aos médicos que cuidaram dela, e Rondon falou que isso não importava,
era passado e quis ver como tinham ficado os seios.
Rondon
tirou alguns pontos e Naiza revelou que não havia ficado como ela queria,
“durinhos”, e o médico avisou que na próxima vez que ela o visitasse, depois
que os seios desinchassem, ele iria aplicar uma injeção para eles firmarem e
levantarem. Na visita seguinte, quando Naiza foi ao consultório terminar de
tirar os pontos, Rondon falou que não iria aplicar nada, pois teria que colocar
silicone e era melhor deixar do jeito que estava, já que estava tudo bem.
“Rondon falou para eu agradecer a Deus que estava bem e não mexer mais”.
O médico ainda perguntou a
Naiza quando ela iria fazer a cirurgia no abdômen, que estava em seus planos.
Porém, quando ela viu uma mulher que havia feito, desistiu; e, depois da
decepção pela cirurgia das mamas, a paciente não quis mais saber de fazer
plástica. “Agradeci a Deus por ter cicatrizado os cortes e não voltei mais no
consultório dele”.
Quando estourou a notícia
na televisão, Naiza foi atrás das mulheres que estavam se reunindo e viu que
sua situação não era das piores. “Acredito que fui premiada”. Ela acha que
Rondon não a operou sozinho. “Parecia que havia uma equipe de médicos na sala,
mas não vi o rosto de ninguém”.
*A equipe de médicos que
veio a Campo Grande para fazer as cirurgias reparadoras, não a operou. No
hospital, Naiza fez todos os exames necessários e pediram que ela fosse para um
quarto e esperasse que, em duas horas, iria ser operada. Porém, quando ela já
estava deitada na cama do centro cirúrgico para fazer a correção, chegou um
médico e a convenceu do contrário. Pediu a ela que desistisse da operação, pois
em toda cirurgia existe risco e ela já havia sofrido demais.
Naiza levantou da cama,
vestiu-se e saiu chateada do hospital. “Não voltei mais lá, deixei na mão de
Deus”. O médico que a examinou, pediu para que ela esperasse a próxima vinda
deles na cidade para refazer a cirurgia, mas ela desistiu. Quando estava indo
embora, as mulheres que estavam esperando para fazer a cirurgia, viram a cena e
ficaram revoltadas, aconselhavam Naiza a não aceitar ir embora, a obrigar os médicos para que operassem-na, mas ela não queria mais. “Eu queria sumir
dali, e nunca mais voltei”.
Muitas mulheres não
fizeram a cirurgia reparadora, outras tiveram que pagar caro por uma nova
cirurgia com médicos de Campo Grande. “O importante é que estou viva”. Naiza
ficou traumatizada com tudo que aconteceu e afirma que para convencê-la a fazer
outra cirurgia, o médico terá que provar que é bom mesmo.
Por fim, Naiza desabafa:
“Eu não espero nada. Eu esperava que ficasse boa a cirurgia, mas como não
ficou, agora não espero mais nada”.
7º Capítulo do Livro-reportagem
"Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon"
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