“Fiz queixa e descobri que havia quase 300 mulheres na
mesma situação que eu. Sabendo disso, vi que
eu não era azarada como estava pensando e
decidi mostrar para o mundo o que Rondon fez. E mostrei”.
Carmélia Novaes
“Eu tinha os seios enormes, mas gostava deles”. Foi com essas palavras que Carmélia começou a me contar sua história. Na verdade ela preferia enterrar esse assunto e não ficou contente quando eu propus que ela voltasse ao passado, mais precisamente ao ano de 1998, quando fez a cirurgia plástica que mudou sua vida.
Carmélia precisava levar a filha que sofre de glaucoma - uma doença que causa a perda total da visão - para fazer tratamento com vários médicos. Costumava viajar para São Paulo em busca de tratamentos e, nessas idas e vindas a consultórios, Carmélia sentia muitas dores nas costas e decidiu procurar um ortopedista. Por recomendação do especialista, ela precisou perder doze quilos. Mesmo assim a dor na coluna continuava. O médico alertou que deveria ser problema de mamas, pois seus seios eram muito grandes. “Minha cirurgia não foi estética, foi reparadora”.
Ela pesquisou os cirurgiões plásticos e todos eram muito caros. Foi então que ouviu, onde trabalhava, que o Previsul – Instituto de Previdência Social de Mato Grosso do Sul – hoje atual Cassems – Caixa de Assistência ao Servidor do Estado de Mato Grosso do Sul – estava fazendo cirurgias plásticas reparadoras. Carmélia conta que tinha três amigas que haviam operado com Alberto Rondon e estas disseram que estavam ótimas. Ela desabafa dizendo que não entendia nada de cirurgia plástica, pensava que era tudo muito simples, que era só ir para a mesa de cirurgia, que o médico iria retirar o excesso e pronto, depois de 30 dias estaria ótima, mas confessa que não aconteceu nada disso. “Cirurgia plástica é uma cirurgia perigosa. Tem que ter cuidado e eu tive todos os cuidados que o médico mandou ter”.
Quando Carmélia procurou Alberto Rondon, o médico explicou-lhe que era preciso pagar R$500,00 a ele e mais o anestesista. “No final das contas, ficou como se fosse particular a cirurgia, pois ele estava ganhando o dinheiro do Previsul mais o meu”. Quando Carmélia foi marcar a cirurgia, pressentiu que não devia operar, mas o médico ficou insistindo, telefonou para ela, insistiu que fizesse e garantiu que não havia perigo, que iria ficar ótimo, e Carmélia decidiu fazer. “Se eu não me engano, foi no dia 11 de junho de 1998 que eu operei”.
Na hora da anestesia Carmélia começou a passar mal, não conseguia respirar. Ela entrou cinco horas da tarde na sala de cirurgia e saiu às nove da noite. Ela acredita que algo de errado aconteceu, pois passou muito mal durante a noite toda. No outro dia, a enfermeira pediu para Carmélia se levantar e ir ao banheiro para retirar os panos e fazer curativo. A paciente se impressionou com a quantidade de sangue que escorria de seus seios e não entendia por que uma plástica sangrava tanto. Ela relata que as costuras eram enormes e iam de uma axila à outra. “Costuras parecidas com alinhavos e vi que eu tinha ficado reta, ele tirou quase toda a minha mama. Como eu era gordinha, minha barriga destacou”.
“Eu já não estava gostando do tamanho dos meus seios, por terem ficado muito pequenos, mas Rondon avisou que estava cedo para ver o resultado e que depois voltaria ao normal. O músculo voltaria ao normal. Ele dizia que tudo ia voltar ao normal. E eu fui deixando passar”.
Carmélia foi para casa, mas não estava bem. Rondon disse a ela que estava tudo normal, que havia tirado nódulos de seus seios e que de câncer ela não morreria mais. Quanto a essa informação, Carmélia explica que não ficou surpresa, pois havia feito uma mamografia e exames preventivos 30 dias antes, e apareceram nódulos que, de acordo com o médico que a examinou, eram de cálcio, que estavam deslocando do organismo para as mamas. “Eu estava cheia de nódulos de cálcio e não tinha perigo”.
Porém, ela conta que Rondon não mandou fazer exames antes da cirurgia e também não mandou examinar os nódulos retirados – o que é um erro grave, pois qualquer material retirado deve ser mandado para análise. E, de acordo com o Art. 46 dos Direitos Humanos, é vedado ao médico efetuar qualquer procedimento clínico sem o esclarecimento e consentimento prévio do paciente ou de seu responsável legal, salvo iminente perigo de vida. O que não era o caso de Carmélia, e ela não se conforma com o jeito que o médico lhe comunicou isso.
As amigas que visitavam Carmélia hoje desabafam contando que a viam numa situação em que ela estava tão feia, pálida, apática, que elas não tinham coragem de falar nada, e a tranqüilizavam dizendo que a recuperação era complicada mesmo. Passaram-se oito dias e Rondon mandou colocar mercúrio cromo nos cortes. Depois retirou os pontos.
Quando o médico retirou os pontos, ela revela que parecia que o que tinha restado ia cair no chão. Sentia muita dor. Depois disso, a história começou a piorar. Carmélia apresentou febre altíssima e as cicatrizes começaram a abrir. Ela ligava para o médico, ia ao consultório, e as duas vezes que ele a atendeu, afirmou que era normal. “Em um dos meus seios havia um hematoma horrível, eu avisei para Rondon que estava necrosando e ele continuou afirmando que era assim mesmo, porque havia sangrado”. O médico também disse que a cirurgia não tinha sido fácil, mas o organismo assimilaria.
Nove dias depois, Rondon passou a não atendê-la mais, dizendo que estava viajando. Carmélia estava muito ruim. “Abriram todos os cortes, dava para ver a cartilagem, os músculos, o cheiro era horrível e estava tudo necrosado”. O médico continuou sem atendê-la e Carmélia, que não agüentava mais de tanta dor, passou a dobrar os medicamentos por conta própria. “Foi a minha sorte”. Depois foi ao consultório do cirurgião João Ilgenfritz Júnior. Ao vê-la, o médico ficou assustado e perguntou quem havia feito aquela atrocidade. “Quando eu contei que tinha sido Alberto Rondon ele colocou a mão na cabeça”.
Seis meses sem mexer os braços e com todos os cortes abertos. Foi assim que Carmélia ficou. Ela ia pela manhã e à tarde fazer curativos no consultório de Ilgenfritz e precisou comprar absorventes para conseguir estancar o sangramento. O médico tirou toda a carne que estava podre e mal cheirosa, e começou a limpar os enormes buracos que havia no corpo de Carmélia. Ela continuou tentando ligar para Rondon, e nada.
Em dezembro de 1998 começaram a fechar os cortes. Ilgenfritz queria operá-la, mas como Carmélia não tinha dinheiro, ela não aceitou. Ele insistiu, disse que o que importava no momento era a saúde dela, que ela esteve à beira da morte e ele não quis contar para não assustá-la. Carmélia estava com infecção generalizada. “Ele falou que não era para eu pensar em dinheiro, e sim, na minha saúde e na minha cabeça, como eu estava me sentindo naquele momento. Isso é ser um médico ético”. Ilgenfritz a cuidou, fez os curativos, mas Carmélia não fez a cirurgia que ele queria, porque não tinha condições financeiras na época. Não quis fazer de graça, pois acha que estaria abusando da boa vontade dele.
Carmélia ficou muito deprimida, não dormia e baixou sua auto-estima. “Eu tive uma filha com glaucoma – doença que atinge uma em cada cem mil crianças – e fui operar para não sentir mais dores nas costas e ficar melhor para levá-la aos médicos e acontece isso”. Quando ela leu no jornal Correio do Estado que mulheres operadas por Rondon estavam reclamando sobre cirurgias plásticas, Carmélia foi atrás dessas mulheres e fez queixa contra o médico. Descobriu que havia quase 300 mulheres na mesma situação. Sabendo disso, ela animou-se um pouco, viu que não era azarada como estava pensando e decidiu mostrar ao mundo o que Rondon fez. E mostrou.
Ela relata que viu muitos casos piores que o dela. Mulheres que tentaram suicídio, que acabaram com o casamento, que o marido abandonou, e algumas que hoje dependem de bengala para andar, pois Rondon retirou muita pele e repuxou nervos em cirurgias de abdômen. Depois de tudo o que viu, percebeu que não era a azarada, pelo menos não a única.
Carmélia conta que a CNN – Rede de televisão norte-americana - entrou em contato com ela e com outras vítimas. Teve uma mulher que avisou que o Programa do Ratinho era pouco para Rondon e contou que o médico jogou dinheiro na cara dela. “A amante dele, Renata – não tenho nada com a vida particular dele, mas Rondon tinha uma amante -, o pai e o irmão dela ficavam no consultório te cuidando, eram os “capangas” de Rondon. Na verdade, era tudo uma gangue”. Elas falaram tudo o que sabiam para a imprensa e, de acordo com a vítima, Rondon ria, achava que não ia dar em nada. “O Conselho Regional de Medicina - CRM - é muito corporativista e disse que nós íamos estragar a vida do médico”.
Segundo Carmélia, emissoras como a Globo e a TV Morena não queriam dar cobertura para o caso. Quando o SBT noticiou o caso no Programa do Ratinho e fez ibope, as outras emissoras - Band, Record, etc - começaram a se interessar e procurar as vítimas. O Estadão, o Diário de São Paulo, a Folha de São Paulo, O Globo, entres outros jornais, até os internacionais, noticiaram o caso. Amigas de Carmélia que moravam em outros países - em Portugal e no Japão - ligavam para perguntar o que tinha acontecido, pois tinham a visto na televisão mostrando as cicatrizes. Carmélia confessa ter ficado satisfeita por ajudar a evitar que outras mulheres operassem da mesma forma.
Relembrando das amigas que operaram com Rondon e haviam comentado que a cirurgia foi um sucesso, elas acabaram indo pedir ajuda para Carmélia tempos depois. Elas tinham vergonha de confessar que ficaram com cicatrizes, que a operação tinha sido um fracasso. “Acho que elas fizeram isso por maldade mesmo, são do tipo de pessoa que gosta de ver os outros no buraco”.
Carmélia indigna-se ao lembrar dos fatos. Primeiramente, por Rondon ter falsificado o certificado de cirurgião plástico e, mesmo depois de perceber que estava fazendo tudo errado, continuou insistindo no erro. Pela ganância de ganhar dinheiro, destruiu vidas. Foram aproximadamente 300 mulheres prejudicadas, e muitas não o denunciaram por vergonha de se expor à imprensa.
As mulheres reivindicaram seus direitos e a Coordenadoria da Mulher interveio. Carmélia considera que o Governo usou o caso politicamente. Fez campanhas, conseguiu uma equipe de médicos para fazer as cirurgias reparadoras, o que apenas uma parte das mulheres fez, ganhou votos e parou. No início eram cinco mulheres, depois aumentou para dez, 15, 30, 100, 130, mas quase ninguém tinha coragem de mostrar à imprensa os danos causados pelo médico; Carmélia acha que apenas quinze mulheres apareceram na mídia. Segundo ela, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – SBPC - fez as mulheres assinarem um termo que isentava o órgão de qualquer responsabilidade referente às cirurgias corretivas. Carmélia relata que levaram esse termo para ela assinar um pouco antes de fazer a cirurgia corretiva. Ela não queria assinar, mas falaram que se ela não assinasse, não seria operada.
Carmélia conta que a secretária do Rondon foi procurá-la e contou tudo o que ele fazia. Uma emissora de televisão de Campo Grande deu todo apoio à vítima, colocando câmeras escondidas dentro da casa dela e gravando todas as revelações que a secretária fez. “Ficou provado que ela me procurou, e mesmo assim quase levei um processo dizendo que eu coagi a garota a vir na minha casa”. Ela conta que um juiz – que prefere não revelar o nome – pegou a fita da gravação e disse que não era para Carmélia contar para ninguém o que continha nela, porém no outro dia estava no Correio do Estado e a matéria saiu “à moda dele”. “Neste país, não tem jeito. Precisei dar depoimento das oito horas da manhã a uma da tarde falando que eu não havia coagido ninguém. A menina estava recebendo ameaças de vida, e eu também recebi”. Segundo Carmélia, na casa de uma das vítimas, o “pessoal” do Rondon foi ameaçar os filhos dela, disseram que sabiam de tudo sobre a vida deles e que era para tomarem cuidado.
Na Delegacia da Mulher, Carmélia ouviu que os advogados de Rondon estavam oferecendo dinheiro, em torno de dois mil reais, para que as vítimas retirarem as queixas contra o médico, e muitas foram retiradas. Outras mulheres retiraram por estarem desanimadas. Carmélia também foi procurada, mas não desistiu do processo. “Na justiça, o caso vai correndo e depois de um certo tempo o processo prescreve, é arquivado. A intenção de Rondon é que tudo seja arquivado, esquecido”. O caso estourou em 1999 e somente em 2004 chamaram Carmélia para depor. “O juiz riu de mim”. A vítima conta que percebeu que o juiz estava a favor do médico e quis mostrar as provas. Carmélia perguntou se ele queria que ela tirasse a blusa para mostrar como ficaram as cicatrizes, e o juiz falou que não precisava, que se ela quisesse mostrar os seios era problema dela. “Eu ainda perguntei o que ele iria achar se acontecesse com a filha ou com a mulher dele”.
“Tentei fazer uma associação de mulheres vitimadas, mas a maioria que ele operou eram mulheres muito humildes, sem conhecimento, e ficaram intimidadas com o poder de Rondon”.
Quando a equipe de médicos veio a Campo Grande para fazer as cirurgias reparadoras nas vítimas, Carmélia considera que teve sorte. Foi operada por um dos melhores cirurgiões plásticos do Brasil. Porém, revela que muitas mulheres que ela conhece, que foram operadas com médicos de Campo Grande, reclamaram muito do médico Alcides Barbosa, que era amigo de Rondon. Carmélia conta que ele foi presidente regional dos cirurgiões plásticos e, quando ela ligou para confirmar se Alberto Rondon pertencia à comunidade de cirurgia plástica, Alcides informou que sim, o que era mentira.
“Rondon acabou com a vida de muitas mulheres. A feminilidade da mulher está nos seios, é uma arte de sedução, e ele acabou com isso”. A vítima conta que houve mulheres que fizeram cirurgia plástica no abdômen e ficaram com os grandes lábios, o clitóris e a vagina quase no umbigo, outras que o médico deixou uma cavidade enorme no intestino. Ela ficou sabendo que algumas mulheres vieram a falecer e as famílias não quiseram divulgar.
Um ano após a cirurgia feita com Rondon, Carmélia se submeteu a uma plástica reparadora e colocou silicone. Contudo, assim como outras vítimas, a cada dez anos é preciso trocar o silicone e ela não sabe se terá dinheiro para isso, pois todo o dinheiro que ganha é para o tratamento da filha. Hoje Carmélia considera que sua vida está normal. Ela ficou muito tempo sem se olhar no espelho, engordou e chegou a pesar quase 100 quilos. “Eu sonhava com Rondon me cortando e tirando-me pedaços com a faca, e acordava gritando, tinha pesadelos horríveis”.
Demorou muito para sua vida voltar ao normal e até hoje ela evita olhar os seios no espelho, mas explica que a vida continua e é preciso reagir. “Depois que a pessoa tem depressão, ela nunca mais é a mesma, parece que sua mente se transforma. Torna-se comum sofrer com problemas de memória, de auto-estima baixa, de concentração; eu me achava a mulher mais azarada do mundo e fiquei anos com esse pensamento”.
Carmélia se culpava de tudo o que tinha acontecido e demorou a se conscientizar de que estava enganada. Ela acredita que Rondon deve ir para a cadeia e pagar uma indenização altíssima a todas as vítimas. Porém, mesmo assim ela acha que ele não vai pagar tudo o que fez a essas mulheres. “Rondon nunca foi julgado e nem tem data para que isso aconteça. Neste país, quem tem dinheiro não fica preso”.
(7º Capítulo do Livro Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon)
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