domingo, 27 de novembro de 2011

Mais um entre tantos outros

Desde que me mudei de apartamento em São Paulo, há uns cinco meses, me deparo diariamente com uma triste realidade. Na calçada que utilizo para chegar ao metrô vive um homem, sempre sentando no chão, com os pés enfaixados, uma muleta ao lado e uns sacos pretos ao seu redor. Ele não mora ali, eu só o vejo durante o horário de expediente e nos dias úteis.
Sei que cenas assim são comuns em vários lugares, inclusive em grandes centros como São Paulo, mas o que me chamou mais a atenção é que ele nunca fez um gesto para pedir esmolas à ninguém. E mais interessante ainda, ele sempre está lendo jornal. Demonstra uma tranqüilidade como se tivesse parado ali apenas para descansar um pouco.
Não levou muito tempo para eu me aproximar daquele homem. Sempre simpático, ‘na dele’, agradecia imensamente cada contribuição. E acabei o ‘adotando’. Comida, água, chocolate, edredom, toalha que ex-namorado esqueceu em casa... Como eu notei que ele gostava de ler, dei um livro que eu escrevi, com direito a dedicatória, e foi nesse dia que nos apresentamos.
Daí em diante ele já não era mais um anônimo nas ruas, pelo menos para mim. Um ‘bom dia’ ao meu novo amigo se tornou rotineiro, assim como os conselhos para que ele saísse do sol. Todo dia eu pensava que deveria ouvir sua história, mas na correria do dia-a-dia nunca conseguia parar. Se você acredita que nada acontece por acaso nessa vida, hoje me senti nessa situação.

Quando fui sair do metrô para andar algumas quadras até meu apartamento, caia a maior chuva. Como estava ‘ilhada’, resolvi me encostar em um canto da estação e começar uma leitura esperando a chuva passar. Foi quando ao olhar para o lado vi meu amigo das ruas.
Era a oportunidade. Desde o começo notei que ele não se sentiu confortável em responder minhas perguntas sobre sua vida. A primeira pergunta, após saber se estava chovendo há muito tempo para fazer uma aproximação, era onde estava a família dele. Ele balançou a cabeça imediatamente com um sinal negativo dizendo que não tem família. Ninguém pode não ter família. Um dia todos tiveram, e eu o questionei.

Ele revelou que os pais morreram e o deixaram com uma família que o criou, que também já morreu. Senti que ele era bem objetivo nas respostas, sem intenção de dar continuidade àquela prosa, e algumas lágrimas começaram a rolar discretamente na face daquele homem sofrido. Mas era minha oportunidade de conhecê-lo melhor e continuei disparando perguntas, suavemente.

Durante a conversa ele tossia diversas vezes, e eu pensava como estaria a saúde daquele homem. Enquanto eu esperava a chuva parar para ir para minha casa, ele esperava para retornar a calçada que o acolhia todos os dias. E se não parasse? Eu podia encarar a chuva, chegar ensopada em casa, tomar um banho quentinho e colocar as roupas para lavar. E ele?

Eu tinha muitos afazeres no dia e a chuva estava me atrasando, mas durante a conversa tudo ficou muito pequeno. Fiquei observando a chuva e processando o que ele estava me contando, como seria viver sem ter perspectiva de futuro, de vida.
Sobre as leituras, ele contou que estudou até os 26 anos e trabalhou bastante, mas depois que teve problema nos pés não conseguiu mais serviço. Como nunca teve registro na carteira de trabalho, não tem ajuda alguma do governo e até entrou com processo para conseguir algo, mas até agora nada aconteceu. Aos 55 anos ele mora na rua, dorme em um canto, passa o dia em outro. Carrega tudo o que possui em alguns sacos de lixo, se arrasta com a ajuda de uma muleta, mas disse que não pede esmola porque não gosta de aborrecer ninguém. “Quem acha que deve dar, dá”.
Confessou que no passado bebia muito, mas que conseguiu parar, e se orgulha por nunca ter roubado e nem usado drogas. Há muito tempo vive assim, nas ruas, um dia de cada vez. Ele é mais um que depende da bondade de desconhecidos enquanto espera o dia em que esse sofrimento acabe.
Não consegui tirar mais informações daquele homem. Apesar de ter um semblante sofrido, consegue transmitir tranqüilidade, como se já estivesse conformado com aquela condição. A chuva deu uma trégua e tomei meu rumo. Não fiz todas as perguntas que queria e talvez isso demande um pouco mais de tempo. No caminho até em casa, fiquei pensando se eu estava no direito de fazê-lo relembrar de coisas que provavelmente preferisse deixar adormecidas.


3 comentários:

  1. Que triste amiga...só de pensar que infelizmente ele não é o único nesse mundão de Deus...esquecido pela sorte...Vc sabe o nome dle???

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  2. Realmente é muito triste Dri, e nós acabamos nos "acostumando" com essa realidade ao nosso lado, e perdemos a esperança que isso mude um dia. Eu sei o nome dele sim, mas não convém divulgar. ;)

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  3. Maninha, consegui comentar \o/
    Tô esperando por mais posts!!! Beijos!

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