segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

E assim tudo chega ao fim – Relatos de alguém que não esteve lá


De repente eu era só mais um corpo caído no chão. Sentia náuseas, falta de ar e as imagens começavam a ficar confusas. Notei que eu fui carregada até ser deixada na calçada, junto a outros corpos. Percebi que aquela seria minha última fresta de vida. A festa em que eu me divertia havia se transformado em um pesadelo e era difícil acreditar em tudo o que estava acontecendo.

Uma fumaça forte se misturava com o cheiro de carne queimada e foi então que fui perdendo os sentidos, no meio de um aglomerado de pessoas que se empurravam e pisoteavam umas a outras em busca de uma saída. Talvez a vitória dos que conseguiram sair com vida daquele lugar tenha trazido uma sensação de frustração ao perceberem quantos não haviam tido a mesma sorte. Talvez esse sentimento tenha transformado sobreviventes em voluntários, num comovente ato de amor ao próximo.

A dor maior veio com o som do meu celular tocando no bolso da calça, e eu não tinha forças para atender. Sabia que era a minha família. Queria muito abraçar a todos pela última vez, pedir desculpas por não ter ficado em casa naquela noite como minha mãe pediu, mas a vontade de me divertir com meus amigos prevaleceu.

Existia em mim a certeza de que minha família continuaria ali, intocada, e no outro dia eu estaria com eles no almoço de domingo. Não imaginei que essa cena familiar nunca mais se repetiria. Antes de ser carregada ainda pude ver alguns amigos mortos, outros bem machucados e senti a dor das queimaduras.

Eu virava mais um corpo na contagem de mortos e assim me despedia daquela vida de tantas expectativas e ambições. Aquela vida que imaginei que duraria até a velhice para me divertir com meus netos. Não, não cheguei a conhecer o pai dos meus filhos e nem pude sentir as contrações de um parto. Na verdade, não vivi muitas coisas que eu tinha certeza que viveria.

Até então a vida era tão óbvia: me formaria ainda este ano, trabalharia, encontraria um grande amor, casaria, teria filhos, netos e morreria velhinha, depois de viver felicidades e tristezas, vencer algumas doenças e rir bastante da vida. Não que a morte antes do “meu previsto” havia sido excluída das possibilidades, mas nunca imaginei encontrá-la em um momento de festa, em que eu estava aparentemente segura.

Só então percebi que a certeza não existe. Infelizmente meus pais não chegaram a tempo e tive que ir sem despedidas. A minha festa e de muitas pessoas acabava ali, antes do que havíamos planejado e muito antes do que havíamos esperado.


* Esse é um texto fictício. Nem sempre é preciso viver para sentir, mesmo sabendo que a minha dor nunca chegará perto de quem vivenciou uma tragédia dessas. Que Deus ilumine as almas das vítimas e ampare seus familiares.

2 comentários:

  1. É... É muito triste perder pessoas tão jovens e com tantos passos pela frente... Perdi um jovem há 09 anos (em Setembro já fazem 10 anos!) e ainda não me esqueço do sorriso dele e de tudo que ele teria pela frente... Imagino a dor das pessoas que perderam filhos, sobrinhos, irmãos, primos, amigos(ou até um de cada)... A dor realmente nunca passa, ainda mais pelo fato de serem tão jovens...

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  2. É Jack... imagino que perder alguém querido é como uma ferida que nunca cura... pode amenizar com o tempo, mas a dor sempre vai existir. Graças a Deus ainda não passei por isso, e não gosto nem de pensar na possibilidade.

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