O inverno me deixa triste. Parece que com o frio eu congelo por dentro também. Lembro-me de quando ele sorrindo brincava comigo, dizendo que eu ficava mais bonita ainda quando estava triste. Sei que era mentira, ele só estava tentando ganhar um sorriso meu.
Aquele dia o frio estava torturando qualquer um, eu não queria nem pensar que teria que tomar banho ao levantar da cama. Ele como sempre tentava me animar, levantava da cama correndo e fazendo palhaçada, tentando me convencer que o frio era psicológico. Aquele dia eu não quis levantar, liguei para meu serviço e inventei uma desculpa qualquer para não ir trabalhar. Ele brigou comigo por conta disso, mas o ignorei e voltei a dormir na minha cama quentinha. Antes de sair ele ainda tentou ganhar um beijo que eu neguei, não sei por quê.
Acordei ao meio-dia com ele me ligando, dizendo que me amava muito e queria que eu fosse almoçar com ele, mas eu realmente não queria sair de casa pra nada, ele ficou insistindo até cansar. Fiz um chá e resolvi assistir um filme em baixo das cobertas. Acabei cochilando e tive um sonho. Não entendi ao certo o sonho, era confuso, só tinha certeza de que era muito ruim. O telefone tocava, mas eu não sabia distinguir se era sonho ou realidade, até que acordei. Já tinha parado de tocar. Eu não estava me sentindo bem, a televisão estava fora do ar e fora de casa estava uma nevasca muito forte.
O telefone voltou a tocar e dessa vez atendi a tempo. Meu chão desapareceu, parecia que do outro lado da linha alguém me enfiava um punhal no peito. Fiquei sem ar, comecei a passar mal. A voz fria, sem piedade me contava como meu amor havia morrido, como seu carro tinha sido coberto pela neve e ele sem conseguir sair, morrera congelado. Era muito pra mim. Na minha cabeça vinham as cenas dele pulando da cama, animado, brincando comigo, depois me chamando para almoçar e nem um beijo ganhou.
Saí de casa correndo, nem sentia mais o frio, a dor era maior. Fui ao local e ainda retiravam a neve de cima do carro. Ele estava roxo, com os olhos abertos, na mão segurava o celular, com a última ligação feita para casa, e no banco de trás havia um buquê de rosas. Ele havia comprado flores para mim, para a pessoa que não foi capaz de lhe sorrir ao acordar. Senti-me um lixo, o sentimento de culpa é o pior que uma pessoa pode carregar e muitas vezes ele perdura por toda a vida.
Daquele dia em diante não teve como minha vida não mudar. Durante todo o inverno eu vejo a imagem dele dentro do carro e todas as noites frias ele aparece em sonho me entregando um buquê de rosas, e com um sorriso triste me pede um beijo.
(conto escrito em 13.04.2003)
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