“Eu achei tudo
maravilhoso e fiquei fantasiada com a ideia,
mas nunca tive a vontade de fazer plástica na
vida,
só precisava operar
da hérnia”.
Simone
O número de vítimas que estipulei ouvir para a construção do livro já
estava concluído, porém algo me dizia que Simone*
precisava ser ouvida, que o depoimento dela era precioso. Eu não estava
enganada. Diferente das outras mulheres, Simone foi a única que nunca tinha
pensado em fazer plástica, ela só precisava operar de uma hérnia. A ideia de
uma cirurgia plástica surgiu por indicação de um gastroenterologista.
“Eu estava sentindo dores na barriga e fui ao gastroenterologista Adolfo
José Chang Jimenez para saber o que tinha de errado comigo. O médico pediu que
eu tirasse um raio-X e o resultado foi uma hérnia epigástrica no estômago”.
Simone conta que Chang avisou que operaria a hérnia e indicou que ela
procurasse o cirurgião plástico Alberto Rondon para fazer uma plástica. Ela
conversou com o diretor do IMPCG – Instituto Médico da Prefeitura de Campo
Grande - ao qual era conveniada, e ele não só indicou Rondon como deu o
endereço da clínica dele.
Simone foi ao consultório de Rondon e gostou da aparência. “Tinha muitas
mulheres, uma sala grande, arrumada, muitos quadros do cirurgião plástico Ivo
Pitanguy – Rondon falava que estudou com ele, o que depois ficou provado que
era mentira -, tudo muito bonito”. O médico abriu um livro e mostrou fotos de
mulheres que haviam feito cirurgia plástica e ficaram lindas, e afirmou que ela
ficaria ótima. “Isso me seduziu”. Simone revela que antes não tinha barriga,
havia tido uma única filha e tinha uma pequena cicatriz da cesárea que o
biquíni escondia.
“Rondon conseguiu me deixar com uma barriga inchada”. Ela estava ansiosa para operar, pois todos falavam que ela iria ficar linda e maravilhosa. “Eu achei tudo maravilhoso e fiquei fantasiada com a ideia, mas nunca tive a vontade de fazer plástica na vida, só precisava operar da hérnia”.
“Rondon conseguiu me deixar com uma barriga inchada”. Ela estava ansiosa para operar, pois todos falavam que ela iria ficar linda e maravilhosa. “Eu achei tudo maravilhoso e fiquei fantasiada com a ideia, mas nunca tive a vontade de fazer plástica na vida, só precisava operar da hérnia”.
Ficou decidido que Chang iria começar a cirurgia, operando a hérnia e
Rondon finalizaria com a plástica. Porém, Chang deixou claro para Simone que
quem iria abrir e fechar o corte seria Rondon, o gastroenterologista só iria
operar a hérnia. Simone conta que tem um irmão que é médico e mora em Cuiabá, e
ele combinou com Rondon, por telefone, que iria assistir a cirurgia.
A cirurgia era para ser feita em janeiro, mês que o irmão dela estava de férias em Campo Grande, mas o médico foi adiando a data, e só quando irmão de Simone precisou ir embora ele marcou a operação, para o dia 08 de fevereiro de 1999. “Rondon não queria que meu irmão assistisse porque ia fazer coisa errada”.
A cirurgia era para ser feita em janeiro, mês que o irmão dela estava de férias em Campo Grande, mas o médico foi adiando a data, e só quando irmão de Simone precisou ir embora ele marcou a operação, para o dia 08 de fevereiro de 1999. “Rondon não queria que meu irmão assistisse porque ia fazer coisa errada”.
Umas das desculpas usadas pelo médico para adiar a cirurgia era de que as
plaquetas de Simone estavam baixas. Ela foi a uma hematologista e a médica fez
uma carta declarando que as plaquetas estavam bem e podia ser feita a operação.
Mesmo com a carta em mãos, Rondon falou que não operaria com as plaquetas do
jeito que estavam. A hematologista mandou uma segunda carta, desta vez para o
gastroenterologista Chang, e ele também se recusou. Foi então que Simone
procurou outro gastroenterologista, Francisco Gomes, e ele aceitou fazer a
operação.
Simone fez duas consultas antes da cirurgia e foi realizado o que estava
combinado com Chang, porém, agora, com Francisco Gomes. Rondon a abriu,
Francisco operou a hérnia e Rondon finalizou a operação. Antes da cirurgia, o
gastroenterologista já havia avisado que não se responsabilizaria pelo
resultado. “Rondon que vai te abrir e te fechar”.
A cirurgia foi realizada na clínica Campo Grande e, durante a operação, Simone teve parada respiratória. A enfermeira que instrumentou a cirurgia, contou a ela que devido a isso, Simone precisou respirar por aparelhos. “Eu morri e voltei”. E, de acordo com a enfermeira, no momento em que Simone passava mal, Rondon batia na mesa e dizia que ela não podia morrer por ser irmã de médico.
A cirurgia foi realizada na clínica Campo Grande e, durante a operação, Simone teve parada respiratória. A enfermeira que instrumentou a cirurgia, contou a ela que devido a isso, Simone precisou respirar por aparelhos. “Eu morri e voltei”. E, de acordo com a enfermeira, no momento em que Simone passava mal, Rondon batia na mesa e dizia que ela não podia morrer por ser irmã de médico.
Após dez dias de realizada a cirurgia, ela foi ao consultório de Rondon
para retirar os pontos, mas a cicatriz estava com sangue escorrendo pela perna
até o pé. O médico disse que não iria retirar todos os pontos porque eram
muitos - “a equipe que veio fazer a correção disse que minha cirurgia foi a
maior de todas, quase deu a volta em todo o quadril” – e Simone pediu que ele
deixasse por mais algum tempo, pois estava escorrendo muito sangue, e ele
respondeu “Eu que sou o médico, eu que mando!”.
Quando ela entrou no quarto, começou a observar algumas coisas erradas, como fios de cabelo no lençol da cama em que ele pediu para sentar-se, uma total falta de higiene. Rondon começou a puxar os pontos com a pinça e Simone urrava de dor. O pai dela segurava uma mão e a filha a outra, enquanto a vítima não parava de chorar. “Rondon olhava para mim e falava: É assim mesmo, depois você vai ficar linda e vai me agradecer. Toda cirurgia abre”.
Quando ela entrou no quarto, começou a observar algumas coisas erradas, como fios de cabelo no lençol da cama em que ele pediu para sentar-se, uma total falta de higiene. Rondon começou a puxar os pontos com a pinça e Simone urrava de dor. O pai dela segurava uma mão e a filha a outra, enquanto a vítima não parava de chorar. “Rondon olhava para mim e falava: É assim mesmo, depois você vai ficar linda e vai me agradecer. Toda cirurgia abre”.
Em casa, Simone ficou praticamente morta na cama, sem andar, não fazia
nada. Rondon atingiu o nervo da perna esquerda. “Eu precisava trabalhar e criar
minha filha que não tem pai”. Simone voltou a viver novamente. Passou a viver
para a filha e para o pai. Quando ela perguntou a Rondon sobre a hérnia, ele
explicou que não precisava se preocupar, pois havia feito três pregas na hérnia
e colocado uma tela.
Quem fazia os curativos no pós-operatório era uma enfermeira que Simone
contratou durante 20 dias. Com dez dias após a retirada dos primeiros pontos, a
cicatriz abriu e ficou com muito sangue escorrendo. Ela foi a outros cirurgiões
plásticos de Campo Grande para saber o que Rondon havia feito de errado, e foi
então que percebeu como eles são corporativistas. “É uma classe muito unida”.
Eles comentavam que Rondon havia usado uma técnica antiga, que não era mais
utilizada, e que é comum toda plástica abrir.
Como Rondon sumiu, Simone foi atrás do gastroenterologista Francisco
Gomes, para conseguir um atestado médico, pois queriam demiti-la do trabalho
devido ao longo período em que estava de licença. Francisco falou que ela não
precisava ter operado, pois a esposa dele tinha o mesmo tipo de hérnia e não
operou. Simone perguntou porque ele não havia dito a ela antes, e ele confessou
que ela parecia tão entusiasmada com a plástica que não quis contrariar. Ela só
ficou sabendo que Rondon não era cirurgião plástico quando surgiram as
reportagens da denúncia na televisão. “Fiquei desesperada”.
Um dia Simone foi ao banheiro, sentiu muita dor e algo escorrer pela
perna. Chamou a empregada para olhar o que era, pois estava com a barriga tão
inchada que não conseguia ver. A funcionária assustou-se ao observar que tinha
um buraco enorme aberto. Simone pediu um espelho e, quando olhou, ficou
horrorizada com a imagem. Havia um buraco preto por dentro, como se não tivesse
fundo, com sangue escorrendo.
Ligou para um médico que se formara com seu irmão e ele chegou no mesmo instante em que a enfermeira responsável pelo curativo. Simone desabafa que o médico foi muito duro, falando que ela era muito dengosa. Ele colocou a luva e pediu que agüentasse firme, pois iria examinar. Sem anestesia, o médico enfiou a mão toda dentro do buraco, até o pulso, e disse que o corte iria fechar por segunda intenção, ou seja, seria uma cicatrização espontânea, somente com a ajuda de curativos.
Ligou para um médico que se formara com seu irmão e ele chegou no mesmo instante em que a enfermeira responsável pelo curativo. Simone desabafa que o médico foi muito duro, falando que ela era muito dengosa. Ele colocou a luva e pediu que agüentasse firme, pois iria examinar. Sem anestesia, o médico enfiou a mão toda dentro do buraco, até o pulso, e disse que o corte iria fechar por segunda intenção, ou seja, seria uma cicatrização espontânea, somente com a ajuda de curativos.
Foi necessário aumentar o tempo da licença médica. Simone ficou nove
meses sem poder trabalhar e precisou ir pessoalmente na junta médica para que
eles assinassem o atestado, evitando levar falta no trabalho. Existiam três
médicos na junta médica, entre eles Francisco Gomes, e eles afirmavam que ela
já estava em condições de trabalhar, mesmo com o corte aberto. Entretanto,
permitiram a licença até o oitavo mês, quando o corte estava terminando de
cicatrizar. “Eu fiquei indignada”.
Simone entrou em depressão, fez tratamento psicológico, mas logo parou.
Percebeu que ela era a única que poderia se ajudar.
Quando a equipe de médicos veio a Campo Grande para fazer as cirurgias
reparadoras, eles explicaram que não podiam operá-la por ser um caso muito
delicado, referindo-se à hérnia. Ela precisava encontrar um gastroenterologista
para tratar da hérnia e, depois, poder fazer a plástica. “Fiquei duas vezes no
centro cirúrgico e saí de lá chorando. Todas as mulheres fizeram a correção,
menos eu”. Simone conta que vestiu a roupa para a cirurgia, tomou soro, mas o
gastroenterologista que prometeu operá-la não apareceu. Ela já havia feito
todos os exames, estava tudo pronto para a cirurgia, mas o médico desistiu.
Tempos depois, ela descobriu que ele era amigo de Rondon.
Andando pelas ruas, Simone encontrou Francisco Gomes e perguntou se ele
poderia examinar a hérnia dela, pois Rondon falou que tinha feito três pregas.
O gastroenterologista, irritado, avisou que não tinha nada a ver com isso, que
ele fez o serviço muito bem e não gostou nem um pouco de ver que Simone
estragou a vida do amigo dele, Rondon. Não satisfeita, ela marcou uma consulta
com Francisco e ele repetiu tudo o que havia dito a ela. “Eu estava sentido
dores e tive que ouvir isso”. Ele dizia não admitir o que Simone fez, pois
Rondon não era mais nada depois do acontecimento. E voltou a repetir que ela
não precisava operar, mas não teve argumentos para responder o porquê de não
tê-la avisado antes.
Sem condições de apoiar a perna, Simone precisou fazer fisioterapia
durante muito tempo e andar por seis meses com a ajuda de uma cadeira de rodas.
“Minha perna ficou mole, não firmava. Por um tempo, acreditei que não voltaria
mais a andar”. A vida dela mudou completamente, ficou limitada a tudo, e não
pode ter relações sexuais. Outros problemas, como diabete, pressão alta e
colesterol também são conseqüências da infeliz cirurgia. “Meu emocional foi
totalmente abalado”.
No ano passado Simone fez um ultra-som e o resultado foi o retorno da
hérnia. O médico que a examinou avisou que é preciso que ela tenha muito
cuidado, pois a hérnia está por estourar e pediu para que limitasse os esforços
físicos – serviço de casa, segurar peso – mas para Simone é difícil, pois
trabalha com crianças e existem umas que são hiper-ativas e correm o tempo
todo, outras que querem colo. Ela precisou aprender a conviver com a dor.
Em seu trabalho, Simone convive com profissionais da área de saúde e,
quando ficam sabendo que ela foi umas das vítimas de Rondon, pedem para que ela
não fale dele. Sempre a apontam como uma das vítimas e isso a incomoda, pois
todos o protegem. “Fica uma situação humilhante”. Simone desabafa que se sentia
um monstro em seu ambiente de trabalho, pois todos a viam como a mulher que
estragou a vida de Rondon, todos se voltaram contra ela.
Antes de fazer a cirurgia, ela procurou saber se Alberto Rondon era um
bom cirurgião plástico, mesmo tendo a indicação de outros médicos, e descobriu
que uma das amigas da irmã dela havia feito cirurgia de mamas com ele. Ficou
uma cicatriz um pouco grande, mas não abriram os cortes, e ela gostou do
resultado. Em seu local de trabalho, Simone perguntou a algumas médicas sobre Rondon
e umas falavam que não o conheciam, outras falavam que ele era bom. Teve o caso
de uma médica que fez cirurgia com ele, mas não quis contar a Simone. Só depois
ficou sabendo! Era uma médica que sempre estava em depressão, e quando Simone
perguntava o porquê de ela estar se sentindo mal, a médica mudava de assunto.
Rondon alegou que as mulheres não fizeram o repouso necessário, mas
Simone afirma que é mentira. “Eu fiz repouso total, até paguei uma enfermeira
para trocar os curativos e me dar banho”. Ela revela que ocorreram óbitos, mas
tudo foi abafado pelo fato de Rondon ser político, e que quando procurou a
Defensoria Pública da Mulher, existiam 1.159 vítimas. Todas eram mulheres
humildes, com vergonha, muitas moravam em sítio e fizeram a cirurgia de graça
na época das eleições.
Até hoje Simone aguarda uma
indenização, pois precisa do dinheiro para refazer a cirurgia. “Isso limitou
minha vida, minha profissão”. Ela tem consciência de que precisa ser forte e
controlar o emocional para conseguir trabalhar; porém, acha que o essencial
agora é operar da hérnia o quanto antes, o que está difícil pelo fato de não
poder se ausentar do trabalho neste momento. “Preciso da minha saúde de volta
para cuidar da minha filha, já que meu pai, que era um pai para ela, morreu em
maio deste ano”. Por fim, Simone agradece a Deus por não precisar mais tomar
remédios para dor.
7º Capítulo do Livro-reportagem
"Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon"
E ainda existem mais montes de Dr. Morte por ai...
ResponderExcluirEsse livro tenho autografado! ;)