segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Seduzida pela vaidade


“Eu achei tudo maravilhoso e fiquei fantasiada com a ideia,
 mas nunca tive a vontade de fazer plástica na vida,
só precisava operar da hérnia”. 
Simone


O número de vítimas que estipulei ouvir para a construção do livro já estava concluído, porém algo me dizia que Simone* precisava ser ouvida, que o depoimento dela era precioso. Eu não estava enganada. Diferente das outras mulheres, Simone foi a única que nunca tinha pensado em fazer plástica, ela só precisava operar de uma hérnia. A ideia de uma cirurgia plástica surgiu por indicação de um gastroenterologista.

“Eu estava sentindo dores na barriga e fui ao gastroenterologista Adolfo José Chang Jimenez para saber o que tinha de errado comigo. O médico pediu que eu tirasse um raio-X e o resultado foi uma hérnia epigástrica no estômago”. Simone conta que Chang avisou que operaria a hérnia e indicou que ela procurasse o cirurgião plástico Alberto Rondon para fazer uma plástica. Ela conversou com o diretor do IMPCG – Instituto Médico da Prefeitura de Campo Grande - ao qual era conveniada, e ele não só indicou Rondon como deu o endereço da clínica dele.

Simone foi ao consultório de Rondon e gostou da aparência. “Tinha muitas mulheres, uma sala grande, arrumada, muitos quadros do cirurgião plástico Ivo Pitanguy – Rondon falava que estudou com ele, o que depois ficou provado que era mentira -, tudo muito bonito”. O médico abriu um livro e mostrou fotos de mulheres que haviam feito cirurgia plástica e ficaram lindas, e afirmou que ela ficaria ótima. “Isso me seduziu”. Simone revela que antes não tinha barriga, havia tido uma única filha e tinha uma pequena cicatriz da cesárea que o biquíni escondia. 

“Rondon conseguiu me deixar com uma barriga inchada”. Ela estava ansiosa para operar, pois todos falavam que ela iria ficar linda e maravilhosa. “Eu achei tudo maravilhoso e fiquei fantasiada com a ideia, mas nunca tive a vontade de fazer plástica na vida, só precisava operar da hérnia”. 

Ficou decidido que Chang iria começar a cirurgia, operando a hérnia e Rondon finalizaria com a plástica. Porém, Chang deixou claro para Simone que quem iria abrir e fechar o corte seria Rondon, o gastroenterologista só iria operar a hérnia. Simone conta que tem um irmão que é médico e mora em Cuiabá, e ele combinou com Rondon, por telefone, que iria assistir a cirurgia. 

A cirurgia era para ser feita em janeiro, mês que o irmão dela estava de férias em Campo Grande, mas o médico foi adiando a data, e só quando irmão de Simone precisou ir embora ele marcou a operação, para o dia 08 de fevereiro de 1999. “Rondon não queria que meu irmão assistisse porque ia fazer coisa errada”.


Umas das desculpas usadas pelo médico para adiar a cirurgia era de que as plaquetas de Simone estavam baixas. Ela foi a uma hematologista e a médica fez uma carta declarando que as plaquetas estavam bem e podia ser feita a operação. Mesmo com a carta em mãos, Rondon falou que não operaria com as plaquetas do jeito que estavam. A hematologista mandou uma segunda carta, desta vez para o gastroenterologista Chang, e ele também se recusou. Foi então que Simone procurou outro gastroenterologista, Francisco Gomes, e ele aceitou fazer a operação.

Simone fez duas consultas antes da cirurgia e foi realizado o que estava combinado com Chang, porém, agora, com Francisco Gomes. Rondon a abriu, Francisco operou a hérnia e Rondon finalizou a operação. Antes da cirurgia, o gastroenterologista já havia avisado que não se responsabilizaria pelo resultado. “Rondon que vai te abrir e te fechar”. 

A cirurgia foi realizada na clínica Campo Grande e, durante a operação, Simone teve parada respiratória. A enfermeira que instrumentou a cirurgia, contou a ela que devido a isso, Simone precisou respirar por aparelhos. “Eu morri e voltei”. E, de acordo com a enfermeira, no momento em que Simone passava mal, Rondon batia na mesa e dizia que ela não podia morrer por ser irmã de médico.

Após dez dias de realizada a cirurgia, ela foi ao consultório de Rondon para retirar os pontos, mas a cicatriz estava com sangue escorrendo pela perna até o pé. O médico disse que não iria retirar todos os pontos porque eram muitos - “a equipe que veio fazer a correção disse que minha cirurgia foi a maior de todas, quase deu a volta em todo o quadril” – e Simone pediu que ele deixasse por mais algum tempo, pois estava escorrendo muito sangue, e ele respondeu “Eu que sou o médico, eu que mando!”. 

Quando ela entrou no quarto, começou a observar algumas coisas erradas, como fios de cabelo no lençol da cama em que ele pediu para sentar-se, uma total falta de higiene. Rondon começou a puxar os pontos com a pinça e Simone urrava de dor. O pai dela segurava uma mão e a filha a outra, enquanto a vítima não parava de chorar. “Rondon olhava para mim e falava: É assim mesmo, depois você vai ficar linda e vai me agradecer. Toda cirurgia abre”.

Em casa, Simone ficou praticamente morta na cama, sem andar, não fazia nada. Rondon atingiu o nervo da perna esquerda. “Eu precisava trabalhar e criar minha filha que não tem pai”. Simone voltou a viver novamente. Passou a viver para a filha e para o pai. Quando ela perguntou a Rondon sobre a hérnia, ele explicou que não precisava se preocupar, pois havia feito três pregas na hérnia e colocado uma tela.

Quem fazia os curativos no pós-operatório era uma enfermeira que Simone contratou durante 20 dias. Com dez dias após a retirada dos primeiros pontos, a cicatriz abriu e ficou com muito sangue escorrendo. Ela foi a outros cirurgiões plásticos de Campo Grande para saber o que Rondon havia feito de errado, e foi então que percebeu como eles são corporativistas. “É uma classe muito unida”. Eles comentavam que Rondon havia usado uma técnica antiga, que não era mais utilizada, e que é comum toda plástica abrir.

Como Rondon sumiu, Simone foi atrás do gastroenterologista Francisco Gomes, para conseguir um atestado médico, pois queriam demiti-la do trabalho devido ao longo período em que estava de licença. Francisco falou que ela não precisava ter operado, pois a esposa dele tinha o mesmo tipo de hérnia e não operou. Simone perguntou porque ele não havia dito a ela antes, e ele confessou que ela parecia tão entusiasmada com a plástica que não quis contrariar. Ela só ficou sabendo que Rondon não era cirurgião plástico quando surgiram as reportagens da denúncia na televisão. “Fiquei desesperada”.

Um dia Simone foi ao banheiro, sentiu muita dor e algo escorrer pela perna. Chamou a empregada para olhar o que era, pois estava com a barriga tão inchada que não conseguia ver. A funcionária assustou-se ao observar que tinha um buraco enorme aberto. Simone pediu um espelho e, quando olhou, ficou horrorizada com a imagem. Havia um buraco preto por dentro, como se não tivesse fundo, com sangue escorrendo. 

Ligou para um médico que se formara com seu irmão e ele chegou no mesmo instante em que a enfermeira responsável pelo curativo. Simone desabafa que o médico foi muito duro, falando que ela era muito dengosa. Ele colocou a luva e pediu que agüentasse firme, pois iria examinar. Sem anestesia, o médico enfiou a mão toda dentro do buraco, até o pulso, e disse que o corte iria fechar por segunda intenção, ou seja, seria uma cicatrização espontânea, somente com a ajuda de curativos.

Foi necessário aumentar o tempo da licença médica. Simone ficou nove meses sem poder trabalhar e precisou ir pessoalmente na junta médica para que eles assinassem o atestado, evitando levar falta no trabalho. Existiam três médicos na junta médica, entre eles Francisco Gomes, e eles afirmavam que ela já estava em condições de trabalhar, mesmo com o corte aberto. Entretanto, permitiram a licença até o oitavo mês, quando o corte estava terminando de cicatrizar. “Eu fiquei indignada”.  Simone entrou em depressão, fez tratamento psicológico, mas logo parou. Percebeu que ela era a única que poderia se ajudar.

Quando a equipe de médicos veio a Campo Grande para fazer as cirurgias reparadoras, eles explicaram que não podiam operá-la por ser um caso muito delicado, referindo-se à hérnia. Ela precisava encontrar um gastroenterologista para tratar da hérnia e, depois, poder fazer a plástica. “Fiquei duas vezes no centro cirúrgico e saí de lá chorando. Todas as mulheres fizeram a correção, menos eu”. Simone conta que vestiu a roupa para a cirurgia, tomou soro, mas o gastroenterologista que prometeu operá-la não apareceu. Ela já havia feito todos os exames, estava tudo pronto para a cirurgia, mas o médico desistiu. Tempos depois, ela descobriu que ele era amigo de Rondon.

Andando pelas ruas, Simone encontrou Francisco Gomes e perguntou se ele poderia examinar a hérnia dela, pois Rondon falou que tinha feito três pregas. O gastroenterologista, irritado, avisou que não tinha nada a ver com isso, que ele fez o serviço muito bem e não gostou nem um pouco de ver que Simone estragou a vida do amigo dele, Rondon. Não satisfeita, ela marcou uma consulta com Francisco e ele repetiu tudo o que havia dito a ela. “Eu estava sentido dores e tive que ouvir isso”. Ele dizia não admitir o que Simone fez, pois Rondon não era mais nada depois do acontecimento. E voltou a repetir que ela não precisava operar, mas não teve argumentos para responder o porquê de não tê-la avisado antes.

Sem condições de apoiar a perna, Simone precisou fazer fisioterapia durante muito tempo e andar por seis meses com a ajuda de uma cadeira de rodas. “Minha perna ficou mole, não firmava. Por um tempo, acreditei que não voltaria mais a andar”. A vida dela mudou completamente, ficou limitada a tudo, e não pode ter relações sexuais. Outros problemas, como diabete, pressão alta e colesterol também são conseqüências da infeliz cirurgia. “Meu emocional foi totalmente abalado”.

No ano passado Simone fez um ultra-som e o resultado foi o retorno da hérnia. O médico que a examinou avisou que é preciso que ela tenha muito cuidado, pois a hérnia está por estourar e pediu para que limitasse os esforços físicos – serviço de casa, segurar peso – mas para Simone é difícil, pois trabalha com crianças e existem umas que são hiper-ativas e correm o tempo todo, outras que querem colo. Ela precisou aprender a conviver com a dor.

Em seu trabalho, Simone convive com profissionais da área de saúde e, quando ficam sabendo que ela foi umas das vítimas de Rondon, pedem para que ela não fale dele. Sempre a apontam como uma das vítimas e isso a incomoda, pois todos o protegem. “Fica uma situação humilhante”. Simone desabafa que se sentia um monstro em seu ambiente de trabalho, pois todos a viam como a mulher que estragou a vida de Rondon, todos se voltaram contra ela.

Antes de fazer a cirurgia, ela procurou saber se Alberto Rondon era um bom cirurgião plástico, mesmo tendo a indicação de outros médicos, e descobriu que uma das amigas da irmã dela havia feito cirurgia de mamas com ele. Ficou uma cicatriz um pouco grande, mas não abriram os cortes, e ela gostou do resultado. Em seu local de trabalho, Simone perguntou a algumas médicas sobre Rondon e umas falavam que não o conheciam, outras falavam que ele era bom. Teve o caso de uma médica que fez cirurgia com ele, mas não quis contar a Simone. Só depois ficou sabendo! Era uma médica que sempre estava em depressão, e quando Simone perguntava o porquê de ela estar se sentindo mal, a médica mudava de assunto.

Rondon alegou que as mulheres não fizeram o repouso necessário, mas Simone afirma que é mentira. “Eu fiz repouso total, até paguei uma enfermeira para trocar os curativos e me dar banho”. Ela revela que ocorreram óbitos, mas tudo foi abafado pelo fato de Rondon ser político, e que quando procurou a Defensoria Pública da Mulher, existiam 1.159 vítimas. Todas eram mulheres humildes, com vergonha, muitas moravam em sítio e fizeram a cirurgia de graça na época das eleições.

Até hoje Simone aguarda uma indenização, pois precisa do dinheiro para refazer a cirurgia. “Isso limitou minha vida, minha profissão”. Ela tem consciência de que precisa ser forte e controlar o emocional para conseguir trabalhar; porém, acha que o essencial agora é operar da hérnia o quanto antes, o que está difícil pelo fato de não poder se ausentar do trabalho neste momento. “Preciso da minha saúde de volta para cuidar da minha filha, já que meu pai, que era um pai para ela, morreu em maio deste ano”. Por fim, Simone agradece a Deus por não precisar mais tomar remédios para dor.


7º Capítulo do Livro-reportagem
"Profundas Cicatrizes - Caso Alberto Rondon"




* Simone é um nome fictício, a pedido da vítima que não quis se expor.

Um comentário:

  1. Leonardo Rippel Salgado4 de fevereiro de 2013 às 15:47

    E ainda existem mais montes de Dr. Morte por ai...

    Esse livro tenho autografado! ;)

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